Alvo de pedido de prisão e sob ameaça de ser extraditado, Anderson Torres é esperado em Brasília neste sábado

Investigado em várias frentes e alvo de um mandado de prisão expedido por Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-ministro da Justiça Anderson Torres é esperado em Brasília neste sábado. Após sucessivos adiamentos, a expectativa é que Torres chegue de um voo direto de Miami já no início da manhã para se entregar às autoridades.

O ex-ministro de Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos desde o início do ano, assim como o antigo chefe. Enquanto ele estava no exterior, embora tivesse assumido como secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, bolsonaristas radicais protagonizaram ataques antidemocráticos em Brasília. Foram os atos de vandalismo do último domingo que justificaram o pedido de prisão, em meio às suspeitas de que Torres teria se omitido e, assim, favorecido a ação dos manifestantes golpistas.

A decisão de Moraes veio na terça-feira, dois dias depois das cenas de barbárie na capital federal. Horas depois, o ex-ministro e ex-secretário anunciou que interromperia as férias e retornaria ao Brasil. "Irei me apresentar à justiça e cuidar da minha defesa. Sempre pautei minhas ações pela ética e pela legalidade. Acredito na justiça", afirmou na ocasião, pelo Twitter.


Passados quatro dias sem que a promessa de Torres houvesse se concretizado, o atual ministro da Justiça, Flávio Dino, deu, nesta sexta-feira, um prazo até a próxima segunda para que Torres se entregasse. Se isso não acontecesse, avisou Dino, o governo brasileiro contataria o norte-americano.

— Caso na próxima semana essa apresentação não se confirme, é claro que, por intermédio dos mecanismos de cooperação jurídica internacional, nós vamos deflagrar os procedimentos voltados para a realização da extradição — garantiu o ministro.

Na terça, uma nova frente de investigação abriu-se contra Anderson Torres. Ao cumprirem um mandado de busca e apreensão na casa do aliado de Bolsonaro, expedido por Moraes na mesma decisão que determinou a prisão, agentes da Polícia Federal encontraram a minuta de um decreto de teor golpista que previa uma espécie de intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mais uma vez, Torres utilizou as redes sociais para se defender. Ele reclamou do vazamento fora de contexto para "alimentar narrativas falaciosas" e argumentou que o documento estaria em uma "pilha de descarte", para ser posteriormente triturado. "Respeito a democracia brasileira. Tenho minha consciência tranquila quanto à minha atuação como ministro", concluiu.

A justificativa, no entanto, pode não colar. Especialistas ouvidos pelo GLOBO enumeraram diferentes ilegalidades em potencial protagonizadas por Anderson Torres em virtude da minuta golpista encontrada na casa dele. Os juristas são unânimes em um ponto: a própria versão apresentada pelo ex-ministro — de que recebeu o documento de terceiros e iria descartá-lo — reforça, no mínimo, a hipótese de crime de prevaricação, que ocorre quando um agente público deixa de cumprir deliberadamente com o seu dever.