América Latina corre o risco de viver uma nova década perdida

Crime organizado, retrocesso democrático e governabilidade. Esses são os três principais riscos que os países da América Latina enfrentarão este ano, de acordo com o ranking anual que há três anos é elaborado pelo Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica do Chile (CEIUC). Em seminário organizado nesta quarta-feira para apresentar os dados de 2023, Daniel Zovatto e Jorge Sahd, editores do documento, alertaram para o risco de a região caminhar para uma década perdida.

— Podemos estar em direção a uma década perdida em termos de crescimento — afirmou Sahd, diretor do CEIUC.

Os questionamentos ao sistema democrático foram destacados por Zovatto, que é pesquisador sênior do CEIUC e considera que a lista de países com regimes autoritários, integrada atualmente por El Salvador, Nicarágua, Venezuela, Haiti e Cuba poderia ampliar-se nos próximos tempos.

— Este retrocesso democrático começou em 2007 e, desde então, cresceu a indiferença social ao regime político vigente em cada país e caiu, em paralelo, a confiança pública nas instituições e nos políticos — frisou Zovatto.

A lista de riscos inclui, ainda, novas ondas de protestos sociais, crise migratória, insegurança alimentar, polarização e disseminação de fake news, perda de competitividade, crescimento de ataques cibernéticos e enfraquecimento da integração social. A América Latina, enfatiza o documento, “está iniciando um 2023 que será complexo e desafiador”.

O aumento do crime organizado está em primeiro lugar no ranking, e os números explicam a preocupação: “Apesar de a população da América Latina e do Caribe representar cerca de 9% da população de todo o planeta, a região registra mais de 30% dos homicídios mundiais.” O texto diz, ainda, que “existe uma crescente percepção de insegurança frente ao crime organizado, que penetra cada vez mais; um retrocesso sofrido por democracias assediadas pelo populismo, a polarização e propostas autoritárias”.

Nesse cenário, amplia o relatório, surgem mais riscos de “novas ondas de protestos sociais, com uma economia anêmica e governos incapazes de processar de maneira oportuna e eficiente as demandas de seus cidadãos; uma crise migratória que não consegue ser contornada; o surgimento de temas como a insegurança alimentar, aumento de ataques cibernéticos e perda de competitividade para desenvolver uma economia verde. Tudo isso, numa região que sofre um eclipse diplomático, que diminui sua visibilidade e seu protagonismo no cenário global”.

O seminário analisou a situação de vários países da região, e um dos que mais preocupam atualmente é o México governado pelo esquerdista Andrés Manuel López Obrador. Segundo comentou Denise Dreser, do Instituto Tecnológico Autônomo do México, a democracia está em risco em seu país.

— O presidente López Obrador pretende reinstalar um sistema de partido hegemônico, e para isso está enfraquecendo instituições importantíssimas, por exemplo, do poder eleitoral — apontou Denise.

A especialistas mexicana lembrou que o governo de López Obrador também está dando mais poder aos militares que, desde sua chegada ao poder, em dezembro de 2018, assumiram o controle de 244 atividades estatais que antes estavam em mãos de civis, entre elas, a administração de portos.

— Os Estados Unidos de Joe Biden não dizem nada porque o México é importante para sua política interna, sobretudo pela questão imigração — frisou Denise.

O senador colombiano Humberto de la Calle, aliado do governo do esquerdista Gustavo Petro, reconheceu os enormes desafios do primeiro governo de esquerda da História do país, entre eles lidar com uma taxa de inflação anual em torno de 13%.

— O grande teste de Petro este ano serão as reformas da Previdência, Saúde e Trabalhista. Isso mostrará até que ponto o presidente poderá fazer um governo de esquerda — disse o senador.

O rápido desgaste dos presidentes latino-americanos também é abordado no relatório, que lembra que em 13 das 14 eleições presidenciais realizadas na região entre 2019 e 2021 os eleitores votaram contra os governos que estavam no poder.

“O panorama econômico e social de 2023 aumenta o risco de novas manifestações e explosões sociais. Nossa região caminha para uma nova década perdida, com um crescimento anual, em média, de 0,8%, mais baixa, inclusive, do que foi registrado na década de 80”, concluiu o documento.