'A Amazônia em pé é mais produtiva', diz pesquisadora da FGV Conhecimento

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*ARQUIVO* CRUZEIRO DO SUL, AC. 05.11.2020 - Canoa navega pelas águas do rio Moa, no Parque Nacional da Serra do Divisor, na cidade de Cruzeiro do Sul, (AC) uma das áreas com maior biodiversidade da Amazônia. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)
*ARQUIVO* CRUZEIRO DO SUL, AC. 05.11.2020 - Canoa navega pelas águas do rio Moa, no Parque Nacional da Serra do Divisor, na cidade de Cruzeiro do Sul, (AC) uma das áreas com maior biodiversidade da Amazônia. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando se começa um trabalho de pesquisa, nem sempre o resultado final é aquele que imaginávamos. Às vezes acaba em nada, às vezes nos pega de surpresa pelo que vai se revelando ao longo de cada descoberta. Esse parece ser o caso do livro "Amazônia XXI", que será lançado no domingo (14) em Lisboa, e no dia 9 de dezembro, no Brasil.

O livro, que começou com uma pegada econômica, em busca da identificação de soluções viáveis para o desenvolvimento sustentável do bioma amazônico, acabou ultrapassando os limites das planilhas da arquiteta Silvia Finguerut e do crítico de arte Paulo Henkenhoff, coordenadores da FGV Conhecimento e organizadores da obra.

"Quando começamos o trabalho, tínhamos um olhar mais voltado para o lado econômico, mas percebemos que havia um universo muito mais amplo a ser mostrado", disse Finguerut ao jornal Folha de S.Paulo. "E a conclusão a que chegamos, no final do trabalho, é que a Amazônia em pé é muito mais produtiva que qualquer desmatamento, e econômica, cultural e ambientalmente sustentável", acrescentou.

O desenvolvimento, ao longo de dois anos, do projeto "Amazônia XXI" acabou reunindo um raro leque de estudiosos dos saberes climáticos, ambientais, geopolíticos e culturais de região. Ao todo, são 15 artigos de diferentes especialistas que oferecem uma visão holística do universo amazônico.

Em edição bilíngue português-inglês, a obra --que será disponibilizada no site da FGV Conhecimento, e não vendida-- inclui ainda cerca de 180 imagens, entre fotos, reproduções de documentos e obras de arte.

Buscando fugir do olhar romântico da intocabilidade absoluta do bioma, o livro inclui um poderoso posicionamento do climatologista Carlos Nobre, aposentado do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e integrante do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), instituição que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Em seu texto, Nobre retoma um de seus temas favoritos, o conceito de Amazônia 4.0, que aplica o conhecimento da chamada Quarta Revolução Industrial --que reúne tecnologias digitais, biotecnologias e ciência dos materiais-- à viabilização econômica sustentável da região.

Para Nobre, é possível pensar em uma "massiva bioindustrialização na Amazônia, criação de uma inovadora bioeconomia de floresta em pé (...) acessando os imensos recursos biológicos da mais biodiversa floresta do planeta". Um bioma que reúne estimados 350 trilhões de árvores --algo como 45 árvores para cada habitante do planeta-- capazes de estocar pelo menos 80 bilhões de toneladas de carbono, além de cerca de 40 mil espécies vegetais, 427 mamíferos, 1.294 aves, 378 répteis, 427 anfíbios e mais de 3 mil peixes, que convivem com algo entre 96 mil e 128 mil espécies de invertebrados.

Como exemplo do que defende, na contramão do avanço da pecuária no bioma amazônico, Nobre conta que "durante os anos de 2005 a 2014, em que houve redução de desmatamentos da ordem de 75%, a produção agropecuária da Amazônia dobrou". Para ele, isso "demonstra que a demanda de mercado praticamente nada tem a ver com o aumento do desmatamento".

Ele explica, ainda, que há "clara comprovação --por exemplo, nos dados do IBGE da pesquisa de produção agropecuária de 2017-- de que produtos da floresta em pé, como açaí, castanha e cacau, apresentam rentabilidade muito superior àquela da pecuária e mesmo da soja, e beneficiam um número muito maior de pessoas na Amazônia". E especifica que, em sistemas agroflorestais, "o valor da produção de açaí em um hectare vale e vale entre cinco e dez vezes aquele da pecuária e de duas a quatro vezes o da soja".

Mas o livro não se limita ao olhar bioeconômico do bioma, e é ambicioso ao abarcar o ordenamento jurídico brasileiro, sob a ótica de Marco Aurélio Bellizze, ministro do Superior Tribunal de Justiça, Professor da FGV e Coordenador Acadêmico da FGV Conhecimento. Ele mostra como o olhar legal impactou a região desde os tempos do Brasil Colônia até a Constituição Cidadã de 1988 e as mudanças mais atuais.

Também está incluída na obra uma série de levantamentos analisados pelo cientista político Antonio Lavareda e a pesquisadora Marcela Montenegro, sobre a importância da Amazônia para os brasileiros e o mundo. Eles ressaltam que perto de 90% dos entrevistados se dizem preocupados com a preservação da Amazônia, com 55% de "muito preocupados" e 33% de "preocupados".

A preocupação, entretanto, não se reflete no conhecimento físico da região, que tem seu imaginário construído na sociedade brasileira à distância. Dos que foram ouvidos pelos pesquisadores e vivem em outras regiões do país, 86% nunca haviam viajado para algum dos dez estados que compõem a Amazônia Legal, e 89% disseram não terem tido oportunidade de conhecer presencialmente a floresta. Mesmo entre os moradores da região, o número dos que já puserem os pés na mata fora das áreas urbanas é de apenas 48%.

O livro traz, ainda, um relatório das ações do Fundo Amazônia, administrado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e que, desde 2008, recebe doações voluntárias de países e empresas para aplicação não reembolsável em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento.

O Fundo Amazônia, vale lembrar, é aquele que desde 2019 tem R$ 2,9 bilhões parados no cofre por não ter sido aprovado nenhum novo projeto de conservação da floresta desde o início do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). A desastrosa política ambiental adotada pela equipe bolsonarista acabou levando a Noruega (responsável por 93,8% dos recursos já recebidos) e a Alemanha (origem de 5,7% das doações) a suspenderem seus desembolsos.

E já que o Brasil desconhece esse Brasil imenso, intenso e idealizado, o material inclui capítulos específicos sobre os desafios da educação indígena na região, a evolução das artes ao longo dos séculos chegando aos dias atuais, e o papel das organizações socioambientais no enfrentamento das demandas locais. Em resumo, 316 páginas para ler, apreciar e sonhar -ou ter pesadelos. A escolha está nas mãos de todos nós.

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Raio-X

"Amazônia XXI"

Coordenação de Paulo Henkenhoff e Silvia Finguerut

Edição FGV Conhecimento, 316 págs

Disponível em PDF a partir de 14 de novembro no site da FGV Conhecimento

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