Amazonas monta tendas e aumenta leitos em hospitais após alta de casos de Covid-19

MONICA PRESTES
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MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - A elevação do número de internações de pacientes com Covid-19 ascendeu um alerta no Amazonas. Por lá, a rede pública já administra uma taxa de 92% de ocupação dos leitos de UTI. Para o sistema não voltar a colapsar, como na primeira onda da pandemia, o governo do estado busca ampliar o número de leitos de UTI, voltou a instalar tendas para triagem dos casos suspeitos na área externa de dois dos principais hospitais de Manaus e estuda reativar hospitais de campanha. As tendas já haviam sido adotadas em maio, quando o número de casos e óbitos por Covid-19 saiu do controle. Numa outra ponta, o governo amazonense até tentou restringir o funcionamento do comércio e de serviços não essenciais até o dia 10 de janeiro, mas recuou da medida ao ser engolido por protestos com aglomerações lideradas por comerciantes e empresários. Com a reabertura do comércio e o aumento das hospitalizações, o governo estadual espera um "novo pico" de contaminação no Amazonas na semana de 10 a 16 de janeiro. De acordo com Josiani do Nascimento, coordenadora do Gabinete de Resposta Rápida da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas, as tendas terão uma equipe de profissionais de diversas especialidades, que farão a triagem dos pacientes, evitando a exposição de quem não tem sintomas suspeitos da doença. "As tendas têm o objetivo de ajudar na segregação dos pacientes de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) de forma ordenada e que garanta a segurança", explicou. Além da montagem das tendas, a pasta informou que antecipou a quarta fase do plano de contingência, com a ampliação do número de leitos exclusivos para Covid-19 nas três unidades de saúde de referência para a doença. O número de leitos para Covid-19 no Hospital Delphina Aziz, na zona norte, aumentou de 90 para 140. Já o HPS (Hospital Pronto Socorro) 28 de Agosto, na zona centro-sul, e o HPS Platão Araújo, na zona leste, foram transformados em unidades de referência, com ampliação dos leitos exclusivos para Covid-19 e a transferência de pacientes "não-Covid" para unidades de saúde de retaguarda. No total, o governo do estado informou ter aumentado o número de leitos exclusivos para Covid-19 de 457, no final de outubro, para 806 atualmente, sendo 206 de UTI. No entanto, todos os leitos de UTI estão concentrados na capital: nenhum dos 61 municípios do interior do Amazonas possuem um leito sequer de UTI, nem mesmo para pacientes sem síndrome respiratória. O aumento no número de leitos na capital é uma resposta ao crescimento no número de internações registrado desde o início de dezembro, aponta a SES-AM. De acordo com a secretaria, entre os dias 1º e 25 de dezembro, o número de pacientes internados com suspeita de Covid-19 cresceu 61%, passando de 461 para 742 pessoas. Segundo o boletim epidemiológico da FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas), no último domingo (27), 95 pessoas foram internadas no Amazonas -88 na capital-, o maior número de novas internações em um único dia desde 18 de maio, no pico da primeira onda, quando Manaus enterrava uma média de 60 pessoas por dia, boa parte delas em valas coletivas abertas por retroescavadeiras. O aumento das taxas de ocupação dos leitos exclusivos para Covid-19 na rede pública e a revogação do decreto estadual que pretendia reduzir a circulação de pessoas no estado levaram o governo a abrir credenciamento para habilitar leitos em hospitais da rede privada. O problema é que nem mesmo na rede privada de Manaus há leitos sobrando, segundo a SES-AM. Atualmente, sete dos 11 hospitais privados da capital já anunciaram que não possuem mais vagas para pacientes com Covid-19. De acordo com o boletim da FVS da última segunda (28), a taxa de ocupação dos leitos de UTI Covid na rede privada era de 82%, e entre os leitos clínicos chegava a 93%. Na rede pública essas taxas eram de 92% (UTI) e 84% (leitos clínicos). A SES-AM também informou que "está discutindo com o governo federal a possibilidade de implantação de um hospital de campanha" em Manaus. No ápice da pandemia, a capital amazonense chegou a contar com dois hospitais de campanha, um municipal e outro estadual -este último, inclusive, foi alvo da operação Sangria, da PF (Polícia Federal), que investigou o desvio de recursos públicos da saúde por meio da compra de respiradores superfaturados pelo governo estadual. Os dois hospitais de campanha, no entanto, já foram desativados. Levantamento da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos) revelou que Manaus também registrou um aumento no número de sepultamentos desde o início de dezembro, chegando a níveis próximos dos meses de abril e maio, quando eram registrados mais de 60 enterros por dia. Na véspera de Natal (24), foram realizados 57 sepultamentos, segundo a Semulsp. A média, antes da pandemia, era de 20 a 30. Outro número que voltou a crescer foi o de óbitos em casa. Na última segunda (28) foram 14, segundo a Semulsp. Para o epidemiologista da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, com a revogação do último decreto, o Amazonas deve enfrentar um novo salto no número de óbitos por Covid-19 nas próximas semanas. Mesmo que tardio, o decreto poderia evitar um colapso da rede de saúde em janeiro, diz. "Mas como esse decreto foi esvaziado, voltamos à mesma situação de antes e, infelizmente, a tendência é o agravamento da situação e o colapso na rede privada e na rede pública de Manaus", disse o pesquisador, em entrevista a uma rádio local nesta terça (29).