Coronavírus: Número de indígenas infectados no Amazonas triplica em cinco dias

Daniel Biasetto
·5 minuto de leitura
Foto: REUTERS/Lunae Parracho
Foto: REUTERS/Lunae Parracho

O Estado do Amazonas registrou na noite desta quinta-feira mais uma morte de um indígena pelo novo coronavírus. A vítima é um senhor de 67 anos, da etnia Sateré Mawé. Ele estava internado no Hospital de Maués, interior do estado, e teve seu quadro agravado por sofrer de diabetes. Além dele, outros dois novos casos foram registrados no município: o de seu filho, de 37 anos, e de sua mulher, de 55 anos, todos moradores da Comunidade São Benedito - Rio Marau, aldeia que conta com mais 24 famílias. O número de casos de índios infectados quase triplicou desde segunda-feira.

No total, cresceu de nove para 26 o registro de contaminados, aumento de 189%. O Amazonas concentra quase a totalidade dos pacientes (96%). O último boletim divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) mostra que há ainda 23 casos suspeitos à espera de confirmação.

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Segundo o secretário de Saúde de Maués, Franmartony Oliveira Firmo, há ainda três suspeitos na mesma aldeia, que serão removidos para cidade onde ficarão em acompanhamento.

- Aqui estamos intensificando as ações de prevenção, isolamento domiciliar e social. Já chamamos o Dsei pra tomar providências em relação a essa situação na reserva indígena de Maués, uma vez que a responsabilidade pelos índios aldeados é da Sesai e do Distrito de Saúde Especial Indígena de Parintins - afirmou Oliveira ao GLOBO.

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Até agora foram confirmadas oficialmente três mortes de três etnias distintas (kokama, tikuna e ianomâmi), duas delas no Amazonas, estado que concentra quase a totalidade dos pacientes (95%). No boletim divulgado nesta quarta-feira, há ainda 23 casos suspeitos à espera de confirmação.

Manaus ultrapassou o Alto Solimões em número de casos. A capital, que no início da semana tinha seis casos, registra agora 12 contra 8 da microrregião, que inclui noves municípios.

Ainda no estado amazonense há casos registrados pelos distritos sanitários do Médio Rio Purus (1) e Parintins (4). O único fora dele é o Yanomami (1), localizado em Roraima, onde morreu na quinta-feira um adolescente de 15 anos. Em todo o país existem 34 (Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) divididos estrategicamente por critérios territoriais, tendo como base a ocupação geográfica das aldeias.

No sábado, o Ministério da Saúde confirmou mais duas mortes de indígenas por coronavírus. Trata-se de um homem da etnia tikuna, de 78 anos, e de uma mulher da etnia kokama, de 44 anos, ambos moradores da região do Alto Solimões, onde há 8 casos confirmados.

Valter Tanabio Elizardo havia sido removido do Hospital de Tabatinga-AM, em UTI Aérea do Estado, para tratar de problemas cardíacos e estava internado no Hospital Delphina Aziz, na capital do Amazonas. Em 25 de março, havia sido transferido para o Hospital Adriano Jorge e, em 31 de março, para o Hospital Francisca Mendes, referência em Cardiologia. Durante o período de tratamento hospitalar, o teste para o novo coronavírus acusou positivo, o que agravou ainda mais seu quadro.

Ianomâmis querem garimpo fora

A entidade que representa os direitos dos ianomâmi fez no sábado um alerta sobre o iminente aumento de casos entre indígenas contaminados com o coronavírus depois da morte do adolescente Alvanir Xrixana, de 15 anos, em Roraima. A Hutukara Associação Yanomami aponta falhas nos cuidados com o indígena desde o primeiro momento em que ele apresentou sintomas da Covid-19, há três semanas, e chama a atenção das autoridades responsáveis para a presença de garimpeiros na comunidade onde a vítima morava.

Localizada no rio Uraricoera, a aldeia ianomâmi onde morava Alvanir é rota de garimpeiros que atuam na região. De acordo com a entidade, são milhares deles que passam por essas águas o ano inteiro. "Agora sabemos que existe o risco da comunidade Helepe estar contaminada pela doença e ela pode continuar subindo o rio junto com os garimpeiros. O vírus pode invadir nossa terra, junto com os invasores que buscam o ouro".

A organização pede à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e ao Distrito de Saúde Indígena Yanomami (Dsei-Y) que redobrem os esforços para evitar o contágio de seu povo pelo coronavírus que "nem os não indígenas conhecem, nem sabem curar".

A organização também faz um apelo à Polícia Federal (PF), à Fundação Nacional do Índio (Funai) e ao Exército para que retirem os garimpeiros de suas terras. Em dezembro, após O GLOBO publicar um especial sobre garimpo na região, a PF fez uma operação para prender suspeitos de movimentar 1,2 tonelada de ouro extraído de garimpos em Roraima e na Venezuela.

No domingo passado, uma reportagem do Fantástico, da TV GLOBO, mostrou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) fez uma megaoperação para afastar garimpeiros e madeireiros legais de terras indígenas no sul do Pará. Destruiu barracos e incendiou tratores e máquinas. Dois dias depois, o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo, foi exonerado.

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