Amazônia, democracia e minorias: relembre os pontos de tensão do governo Bolsonaro em 2021

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BRASILIA, BRAZIL - DECEMBER 13: President of Brazil Jair Bolsonaro holds a pen during an event to celebrate the national day of Northeastern Brazilian folk music Forró on December 13, 2021 in Brasilia, Brazil.  (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro se envolveu em diversos temas "polêmicos", que geraram críticas (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

2021 foi o terceiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL) – e mais um cheio de falas polêmicas, alvos de críticas por irem na contramão de temáticas globais, como a diversidade e a preocupação com o meio ambiente.

O presidente Jair Bolsonaro negou que a Amazônia pegasse fosse, vetou a distribuição gratuita de absorventes menstruais, xingou jornalistas e viu profissionais da imprensa serem fisicamente agredidos pela equipe de segurança e apoiadores. Além disso, o presidente da República esticou a corda, ameaçando a democracia em mais de uma ocasião.

Relembra algumas das principais polêmicas do presidente Jair Bolsonaro ao longo do ano:

Amazônia

View of burnt areas of the Amazon rainforest, near Porto Velho, Rondonia state, Brazil, on August 24, 2019. - President Jair Bolsonaro authorized Friday the deployment of Brazil's armed forces to help combat fires raging in the Amazon rainforest, as a growing global outcry over the blazes sparks protests and threatens a huge trade deal. (Photo by CARL DE SOUZA / AFP)        (Photo credit should read CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)
Região da floresta Amazônica, perto de Porto Velho, atingida por uma queimada em 2019 (Foto: ARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

O ano de 2021 foi crítico em relação à Amazônia, tanto para a questão ambiental, com aumento de desmatamento e queimadas, quanto humanitária, em relação ao abandono dos povos originários – duas questões intimamente ligadas.

Em novembro, o presidente Jair Bolsonaro classificou as notícias negativas sobre a região como “xaropada”. "Olha a matéria de agora: 'Amazônia está perto de ponto irreversível e pode virar deserto'. A mesma xaropada de sempre. Matéria na maioria das vezes patrocinada por brasileiros, que estão trabalhando contra seu país", acrescentou.

No mês anterior, outubro, houve um registro de recorde de desmatamento nos últimos cinco anos, segundo o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Dados divulgados pelo instituto mostram ainda que houve uma alta de 5% na comparação com outubro de 2020.

De acordo com o órgão, a área sob risco tem 877 km², um recorde em relação à série histórica.

Os números foram calculados com base na área conhecida como Amazônia Legal, formada pelos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de uma parte do Maranhão.

As queimadas da região amazônica também foram tema de discussões e preocupam a sociedade. O presidente, no entanto, mentiu ao comentar o assunto. Em Dubai, ao falar com investidores, Bolsonaro disse que a Amazônia não pega fogo por ser uma floresta úmida.

A afirmação, contudo, não tem base científica, contraria os índices de queimadas da região e engana ao não reconhecer os avanços do desmatamento e dos incêndios na região. Relatório divulgado na semana passada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra que a taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira (ALB) ficou em 13.235 quilômetros quadrados no período de 1 agosto de 2020 a 31 julho de 2021. O índice é apurado pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) e representa um aumento de 21,97% em relação à taxa de desmatamento do período anterior.

Em uma das lives de quinta-feira, já no mês de dezembro, Jair Bolsonaro afirmou que alguns focos de incêndio na Amazônia durante os meses de inverno podem ser, na verdade, fogueiras de São João. Bolsonaro repetiu que a região amazônica, na verdade, não pegaria fogo porque a floresta é úmida.

“Agora, com a regularização fundiária vai saber quem tá tocando fogo lá embaixo. E nesse satélite, já tem satélite nosso agora, você vai saber o que é fogueira de São João também. Chega junho, julho e, apesar de ser inverno no Brasil, tem também foco de calor. Fogueira de São João. E se souber ano a ano, no mesmo local, aquele foco de incêndio, vai poder descartar (dos dados)”, declarou.

Apesar das preocupações de todo o mundo com a situação da Amazônia, Bolsonaro não esteve na COP26. Segundo o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que Bolsonaro acertou em não comparecer, pois seria criticado.

“Sabe que o presidente Bolsonaro sofre uma série de críticas. Então, ele vai chegar em um lugar em que todo mundo vai jogar pedra nele. Está uma equipe robusta lá com capacidade para, vamos dizer, levar adiante a estratégia de negociação”, disse Mourão.

Ainda sobre a COP26, Bolsonaro criticou a presença de lideranças indígenas no evento. “Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá —para substituir o [cacique] Raoni— para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Alemanha? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país. Alguém viu o americano criticando as queimadas lá no estado da Califórnia. É só aqui”, disse, em referência à líder indígena Txai Suruí.

Democracia

Outro ponto que gerou preocupação ao longo do ano, em decorrência das declarações de Jair Bolsonaro, foi a democracia no Brasil. O momento de maior tensão foi o Dia da Independência, em 7 de setembro.

Bolsonaro participou de dois atos no 7 de setembro. O primeiro foi em Brasília e o segundo na Avenida Paulista, em São Paulo. Na capital federal, o presidente usou de espaço em carro de som na Praça dos Três Poderes para ameaçar indiretamente e sem citações o Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, Bolsonaro disse que "quem age fora da Constituição ou se enquadra ou pede pra sair".

"Ou o chefe desse poder enquadra o seu ou esse poder pode sofrer aquilo que nós não queremos. Que nós valorizamos e reconhecemos e sabemos o valor de cada poder da República. Nós todos aqui na Praça dos Três Poderes juramos respeitar a nossa Constituição. Quem age fora dela se enquadra ou pede pra sair", afirmou o presidente em discurso inflamado.

Mais tarde, na Avenida Paulista, o principal alvo foi o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. "Ou esse ministro se enquadra, ou ele pede pra sair", disse Bolsonaro. "A paciência do povo já se esgotou."

"Não podemos admitir um ministro do TSE também, usando sua caneta, desmonetizar páginas que criticam esse sistema de votação. Queremos eleições limpas com voto auditável e contagem pública dos votos. Não podemos ter eleições que pairem dúvidas sobre os eleitores", pediu

"Não vamos aceitar que pessoas como Alexandre de Moraes continua a açoitar a nossa democracia e desrespeitar a nossa constituição", disse o presidente.

As urnas eletrônicas também foram alvo dos ataques do presidente da República, gerando preocupação no Tribunal Superior Eleitoral. Sem provas, Bolsonaro insistiu ao longo de todo ano que a eleição de 2018 – vencida por ele – foi fraudada e que as urnas não são confiáveis.

O tema gerou tensões entre Jair Bolsonaro e Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Bolsonaro tentou passar o voto impresso no Congresso Nacional, mas foi derrotado. Após ocorrido, Barroso anunciou novas medidas de transparência para as urnas eletrônicas.

Minorias

Pouco afeito aos direitos de minorias qualitativas, Bolsonaro fez, ao longo do ano, declarações que geraram críticas, envolvendo racismo, LGBTfobia e também machismo. Durante uma conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro debochou do cabelo de dois apoiadores, que tinham um black power.

Enquanto ria, o presidente perguntou a um apoiador: “O que você cria nessa cabeleira aí?” Dois dias depois, ao encontrar um homem com o mesmo estilo de cabelo disse “estou vendo uma barata aqui”.

Na temática LGBTQIA+, Bolsonaro atacou a questão da linguagem neutra. Ao comentar o tema, o presidente chamou a linguagem neutra de "dos gays" e disse que ela "estraga a garotada".

"Lembra dois anos atrás a questão da linguagem neutra dos gays [no Enem]? Não tenho nada contra, nem a favor. Cada um faz o que bem entender com seu corpo. Mas por que a linguagem neutra dos gays? Que que soma para gente numa redação? Agora, estimula a molecada se interessar por essa coisa, por...", disse o presidente a apoiadores no cercadinho do Palácio do Alvorada.

Um deles complementa a frase de Bolsonaro: "Vai estragando a linguagem".

É, então, que o presidente diz: "A linguagem é o de menos, vai estragando a garotada".

Outro tema que chamou atenção foi em relação absorventes menstruais. Bolsonaro vetou uma proposta que previa a distribuição dos itens no Sistema Único de Saúde, sob a alegação de que o projeto da deputada Marília Arraes não tinha financiamento, o que poderia imputar em crime de responsabilidade. A parlamentar, no entanto, afirma que o projeto seria financiado pelo SUS, com os absorventes considerados como itens essenciais.

Bolsonaro foi alvo de críticas após vetar o projeto. Ao falar sobre o tema, ele foi irônico. “Quantas vezes eu veto, o pessoal desce a lenha”, reclamou. Em seguida, o presidente relembrou a questão dos absorventes menstruais. “É igual ao modes. Lembra do modes? Bacana, né, não sabia a mulher começou a menstruar no meu governo, no governo do PT não menstruava, no PSDB não menstruava também”, ironizou, enquanto apoiadores riam. A gravação foi registrada por um canal bolsonarista nas redes sociais.

Imprensa

Historicamente, ataques do presidente Jair Bolsonaro contra a imprensa não são novidade. Mas, em 2021, a situação se deteriorou. Foram diversos ataques à imprensa por parte do presidente.

Durante uma visita à Sorocaba, no interior de São Paulo, em junho de 2021, Jair Bolsonaro foi questionado sobre a compra da vacina Covaxin, investigada pela CPI da Covid. O presidente se descontrolou e gritou com a jornalista Victoria Abel, da rádio CBN, e disse que a repórter deveria “nascer de novo”.

"Onde tem vacina [em fevereiro]? Responda! Onde é que tem vacina na prateleira para ser vendida? Para de fazer pergunta idiota, pelo amor de Deus, nasça de novo você", disse Bolsonaro. "Ridículo, tá empregada onde? Vamos fazer pergunta inteligente, pessoal."

Também no interior de São Paulo, em junho, Bolsonaro xingou uma repórter da TV Vanguarda, afiliada da Globo. “Estou sem máscara em Guaratinguetá, tá feliz agora? Essa Globo é uma merda de imprensa. Vocês são uma porcaria de imprensa. Cala a boca. Vocês são uns canalhas. Vocês fazem um jornalismo canalha, canalha, que não ajuda em nada”, disse para a repórter Laurene Santos.

Os momentos mais críticos, no entanto, envolveram agressões físicas – não diretamente por parte do presidente, mas de apoiadores e também da equipe de segurança de Bolsonaro. Um dos casos aconteceu na Itália, durante a passagem do presidente pelo país, após participar da cúpula do G20.

Na Bahia, durante visita de Bolsonaro a áreas afetadas por fortes chuvas, a equipe da TV Bahia, afiliada da Globo, afirmou ter sido agredida pela equipe do presidente da República.

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