No ritmo atual, Amazônia pode virar savana em até 30 anos

REUTERS/Ueslei Marcelino

Por Nathan Fernandes

Em agosto, o Inpe divulgou dados que mostravam um aumento no desmatamento de 278% no mês de julho, em relação ao mesmo período de 2018. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmaram que os dados eram falsos. Acusado de fazer “propaganda negativa” do Brasil e de estar “a serviço de alguma ONG”, o diretor do instituto, Ricardo Galvão, foi exonerado do cargo.

Dias depois, já era impossível ignorar a fumaça das queimadas que ardiam na Amazônia. Entre janeiro e agosto de 2019, houve um aumento de 83% de queimadas na região em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 72.843 focos de incêndios, segundo o Inpe. O episódio ganhou projeção internacional e ligou o alerta dos países desenvolvidos para a política ambiental brasileira.

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Segundo o climatologista Carlos Nobre, uma das maiores autoridades sobre o assunto no Brasil, se o ritmo de desmatamento se mantiver igual, é possível que, em até 30 anos, a Amazônia vire uma savana.

Formado pelo ITA e com doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT), Nobre foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e cientista sênior do Inpe. Em 2007, foi um dos autores do relatório sobre o aquecimento global do Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC) que venceu o Nobel da Paz. Membro da Academia Brasileira de Ciências, desde 2018, é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, que busca estabelecer os caminhos para um desenvolvimento sustentável para o Brasil até 2050.

Ao Yahoo!, Nobre comentou sobre os efeitos das queimadas na Amazônia, a política ambiental do atual governo e a possibilidade de desertificação da maior floresta tropical do mundo.

O Brasil já foi um modelo na área de preservação ambiental, mas, nos últimos anos, vem perdendo essa posição. Como o senhor avalia o papel do Brasil hoje?

O Brasil jogou no lixo uma conquista. Um valor cultural, humanitário e econômico que não dá para mensurar. Mas é lógico que isso não começou no dia 1 de janeiro [com a posse de Jair Bolsonaro na presidência]. O Brasil já vinha sinalizando esse caminho muito antes. O maior símbolo é o Código Florestal, de 2012, que já fez uma série de concessões. Na minha opinião, o mais grave não foram algumas alterações na letra da lei, mas a percepção de que é possível perdoar ilegalidades.

Apesar de já virmos em uma decrescente, qual é a particularidade do governo atual em relação às políticas ambientais?

Agora, tudo isso atingiu uma dimensão maior, porque temos essa mensagem no discurso do próprio presidente e do ministro do meio ambiente. Essa ideia de que desmatamento é “progresso” já tinha sido abandonada há uns 30 anos. Em 1989, o presidente Sarney já cortava os subsídios de desmatamento do governo, porque, naquela época, as pessoas desmatavam com subsídio do governo.

Por mais que tenhamos tido um pico nos últimos anos, não havia um discurso que aprovasse isso, nem moral e nem filosoficamente. Mas o ministro Ricardo Salles [do meio ambiente] muitas vezes defende o agronegócio com mais veemência do que a própria ministra da agricultura.

O senhor acredita que o interesse por trás da negação de dados científicos como os do Inpe, por exemplo, e o descaso com o meio ambiente seja o agronegócio...

É o agronegócio atrasado.

O programa Amazônia 4.0 que o senhor criou para aproveitar os recursos da floresta de forma sustentável seria uma forma de reformular essa ideia do agronegócio?

Prefiro não chamar de agronegócio, porque a ideia do projeto é ser um modelo de bioeconomia de floresta em pé. Alguém poderia chamar de “agroflorestal”, mas não de agronegócio, que está muito associado ao desmatamento, à substituição dos nossos riquíssimos biomas por agricultura e pecuária tradicional. Podem chamar de “agro bio industrialização”, esse é o conceito do projeto.

A ideia é aproveitar os recursos da natureza de forma consciente, certo?

Consciente e economicamente vantajosa. O melhor exemplo que nós temos hoje é o do açaí, que há 20 anos não era nada e hoje gera cerca de 1 bilhão de dólares para a economia da Amazônia, mantém a floresta em pé e já mostra que melhorou a qualidade de vida das pessoas que trabalham nos sistemas de colheita.

Existe um plano para concretizar esse projeto?

Estamos iniciando. Criamos um conceito chamado laboratório criativo da Amazônia. Já desenvolvemos laboratórios do tipo para as cadeias de cupuaçu e de cacau. Também vamos desenvolver um para a cadeia de castanha e finalizar um laboratório avançado para recursos genéticos. Estamos buscando recursos para começar a implementar isso no campo.

O senhor acha que tem potencial para ser apoiado pelo governo?

Potencial existe, porque quando pensamos em uma nova bioeconomia na Amazônia também precisamos de uma autoridade como o BNDES, para fazer uma analogia simples. Precisamos ter um apoio governamental com um órgão que possa financiar, fazer surgir essas bioindústrias, essa exploração sustentável, startups inovadoras. Não que isso tudo precise ser financiado pelo governo, mas precisamos de políticas e mecanismos para que esse modelo se implante.

Na década de 1990, quando o senhor publicou um estudo afirmando que a Amazônia poderia sofrer um processo de savanização, a ideia era só uma hipótese. Hoje, ela é mais concreta?

Sim, e estamos muito preocupados, porque, no ritmo atual, devemos levar entre 20 e 30 anos para chegar a um ponto de não retorno [da destruição da Amazônia]. Nossa preocupação não é só em função de uma projeção teórica: a estação seca está aumentando de duração no sul e no leste da Amazônia. Nas regiões altamente desmatadas, a estação seca está ficando ainda mais longa.

Não estamos dizendo que o ponto de não retorno já foi atingido, mas estamos começando a ver a resposta climática do desmatamento.

Assim como o aquecimento global e os desmatamentos, os incêndios são uma forma para contribuir com a savanização da floresta amazônica. Depois das queimadas de agosto, quão perto estamos desse ponto?

Nossos estudos indicavam que atingiríamos o ponto de não retorno de recuperação com um desmatamento de 20 a 25% da bacia amazônica como um todo, não só a brasileira. Hoje, estamos entre 15 e 17%. Mantendo as taxas de desmatamento atuais, atingiremos esse ponto em 20 ou 30 anos.

O senhor é otimista em relação à melhora da Amazônia?

Acho que estamos em um momento crítico, um ponto de virada social. Podemos fazer a curva, caminhar para uma política de desmatamento zero. Vamos caminhar nessa direção? Impossível prever. Mas esse é um momento em que a sociedade brasileira está unida em torno desse objetivo, e também tem atenção global. Se o Brasil tiver sucesso, voltamos a ser protagonista na área da sustentabilidade. Se não, vai ser muito ruim para a imagem do país, vai ser péssimo para o agronegócio exportador.