Amber Heard X Johnny Depp: quando foi que a vítima se tornou vilã?

·Jornalista e blogueira de moda e beleza

É impossível estar na internet e não saber que as ações judiciais entre Johnny Depp e Amber Heard são os assuntos mais comentados das redes sociais nas últimas semanas. Ninguém jamais imaginaria que um casamento que durou apenas dois anos e terminou em 2016 renderia tantas polêmicas, mas é isso que vemos desenrolar diante dos nossos olhos.

Os recentes depoimentos de Johnny Depp na corte norte-americana, como parte do processo de difamação e calúnia que ele abriu contra a ex-esposa, levantou questionamentos importantes, principalmente no que diz respeito à anulação do discurso feminino.

Em 2018, o ator de Piratas do Caribe abriu um processo no valor de 50 milhões de reais contra Amber, depois que ela publicou um texto no jornal "Washington Post" assumindo ter sido vítima de violência doméstica. Originalmente, o artigo não cita nomes, mas o ator se sentiu diretamente acusado, o que o levou à justiça.

Desde então, os dois se enfrentam judicialmente, sem chegar a um acordo. Na última semana, áudios e conversas entre o casal e entre Johnny e pessoas conhecidas foram divulgadas pelos advogados da acusação e da defesa como parte do desenrolar do processo - e tudo isso pode ser assistido por mais de 300 mil pessoas online, já que o julgamento tem sido transmitido pelo canal do YouTube Court TV.

O resultado que vemos até agora, no entanto, não tem relação com a resolução do caso, mas com o astro do cinema se transformando de abusador em abusado. Os vídeos liberados até o momento receberam aprovação de muitos usuários das redes sociais que pedem, através de hashtags no Twitter, "justiça para Johnny".

Não é novidade que, desde o estouro da relação entre os dois, o ator teve a carreira prejudicada. Para começo de conversa, ele foi afastado da franquia de filmes "Piratas do Caribe", da Disney. Depois, foi substituído pelo ator Mads Mikkelsen na sequência do filme "Animais Fantásticos e Onde Habitam", recém-lançado nos cinemas.

A escolha de Johnny para o papel de Gellert Grindelwald, aliás, foi amplamente criticada na época do primeiro filme, em 2018, tanto porque a polêmica do casal estava em alta durante a produção, quanto pelas defesas proferidas pela autora da franquia Harry Potter e também roteirista do filme, J. K Rowling, à escolha do ator para o papel.

Para muitos fãs, os recentes fracassos profissionais de Johnny Depp pareceram injustos, ainda mais quando começaram a surgir alegações de que Amber estaria mentindo sobre as agressões que sofreu durante o relacionamento com o ator.

De vítima a vilã em velocidade recorde

Ao observarmos a história da humanidade, não é difícil percebermos que a palavra dos homens sempre foi considerada mais "pesada" do que a das mulheres. Isso significa que o discurso masculino é visto como mais relevante do que o feminino - não é à toa que termos como o "mansplaining" e "manterrupting" se popularizaram recentemente.

Se um homem e uma mulher apresentarem a mesma ideia durante uma reunião de trabalho, por exemplo, as chances da ideia masculina ser validada e a feminina descartada é bastante grande.

Essa visão importa porque é isso que tem acontecido no caso Depp X Heard. Até mesmo uma psicóloga clínica e forense, especializada no tratamento de veteranos de guerra, foi chamada para diagnosticar a saúde mental da modelo. O seu parecer? Ela sofre de transtorno de personalidade limítrofe, o chamado borderline, e transtorno histriônico.

Longe de nós negarmos o estado de saúde de alguém e as suas implicações sociais, mas será, realmente, que diagnósticos desse tipo invalidam acusações de violência doméstica, a ponto do abusador se tornar vítima e a vítima, uma vilã?

Essa, aliás, é uma artimanha comum na lida com as mulheres: elas são rapidamente colocadas no papel das vilãs diante de um homem que, claramente, é a vítima da história.

Em casos de estupro, isso é bastante óbvio: foi a mulher que provocou o pobre homem, que se viu incapaz de conter seus desejos sexuais.

O padrão chegou ao ponto de ser usado em casos reais de acusação de estupro, com juízes inocentando abusadores e repreendendo as vítimas com a justificativa de que elas estavam "tentando acabar" com a vida de alguém cheio de potencial. E o que dizer da vida dessas mulheres, que, de certa forma, acabou?

No caso de Amber e Johnny, não podemos negar que a violência doméstica não se limitou ao âmbito doméstico. Ela continua acontecendo ainda hoje e de ambos os lados, com acusações de dedos cortados, mensagens com ameaças de morte, declarações de abuso e outros absurdos.

O fato de a agressão física não ter acontecido não altera a realidade da violência presente entre os dois - afinal, gritos, ameaças e até ironia podem, sim, serem considerados um tipo de violência. Por que, então, buscar desvalidar o discurso de uma mulher para salvar uma carreira que, convenhamos, já está bastante arruinada por si só?

Amber ainda não deu o seu depoimento sobre o caso - isso deve acontecer nas próximas semanas -, e as investigações sobre a veracidade da violência física continuam, mas há de se questionar o quanto, de fato, o público vai aceitar a opinião de uma mulher que, sob os olhos do mundo, já se tornou a vilã da história de um suposto herói.

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