Ameaça do Estado Islâmico contra patrimônio arqueológico causa revolta

Por Jean Marc MOJON
Caprtura de tela mostra jihadistas do grupo Estado Islâmico depredando uma estátua no Museu de Mossul, Iraque, no dia 26 de fevereiro de 2015

Um vídeo mostrando jihadistas destruindo fanaticamente esculturas assírias pré-islâmicas em um museu no Iraque provocou clamor público e aumentou os temores de que outros tesouros de um dos patrimônios mais antigos do mundo estejam em perigo.

A marteladas, o membros do grupo extremista Estado Islâmico (EI) destruíram em Mossul, a segunda maior cidade do Iraque sob seu controle desde junho de 2014, tesouros arqueológicos, incluindo um enorme touro alado assírio da porta de Nergal, cujo gêmeo está em exibição em Londres.

Em poucas horas, as comparações com a destruição em 2001 pelo Talibã dos Budas de Bamiyan, no Afeganistão, aumentaram, bem como os apelos para proteger o patrimônio.

"Este ataque é mais do que uma tragédia cultural, é também uma questão de segurança porque alimenta a intolerância, o extremismo violento e o conflito no Iraque", criticou a presidente da Unesco, Irina Bokova, logo após a divulgação na quinta-feira do vídeo do EI, convocando uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU.

O presidente francês, François Hollande, denunciou uma "barbárie", acusando os jihadistas de querer "destruir tudo o que é a humanidade."

Já o secretário-geral da Liga Árabe, Nabil al-Arabi, chamou de "crime contra o patrimônio da Humanidade" a "bárbara agressão contra o patrimônio do povo iraquiano".

Idolatria

A França é um dos principais contribuintes para a coalizão militar internacional liderada pelos Estados Unidos contra o EI, um grupo sunita ultra-radical que tirou vantagem da instabilidade no Iraque e da guerra na Síria para tomar vastas áreas onde comete seguidas atrocidades, incluindo decapitações, limpeza étnica, sequestros e estupros, denunciados como crimes contra a humanidade por parte da ONU.

Para a organização jihadistas, estátuas, túmulos e representações "promovem a idolatria" e, portanto, merecem ser destruídos.

"Fiéis muçulmanos, estas esculturas atrás de mim são ídolos para o povo de antigamente, que as adoravam em vez de adorar a Deus", declara um jihadista no vídeo, fazendo um paralelo com a destruição pelo profeta Maomé das estátuas em Meca.

Em julho, os combatentes oa EI destruíram em Mossul (norte) o túmulo de Jonas e o santuário do profeta Seth, considerado como o terceiro filho de Adão e Eva nas tradições judaica, cristã e muçulmana.

"Todos concordam com o fato de que o uso de uma mesquita construída sobre uma sepultura é contrária ao Islã", haviam declarado, uma afirmação contestada por muitos especialistas.

"As antiguidades e as estátuas do Museu de Mossul não são de ídolos divinos, mas as estátuas de reis, animais, pássaros", explica Radwan al-Sayyed, professor de estudos islâmicos na Universidade Libanesa. "E mesmo se fossem estátuas de deuses, elas estão em um museu, e o Corão aconselha a aprender (...)."

O órgão que representa o Islã junto as autoridades egípcias, Dar al-Ifta, também condenou as ações do EI. "Estas antiguidades são encontradas em todos os países conquistados pelos muçulmanos, e os companheiros (do profeta) não ordenaram a sua destruição".

Capazes de tudo

Entre as estátuas destruídas haviam réplicas de obras guardadas em segurança há muito tempo em museus ocidentais, mas algumas peças eram únicas, como o colossal touro alado assírio.

Os especialistas acreditam que entre os objetos havia peças originais e fragmentos reconstruídos, alguns datando de séculos antes de Cristo.

Após a destruição, os jihadistas disseram aos guardas do museu que a cidade de Nimrud, joia arqueológica do Iraque, cerca de 100 km ao sul, seria o seu próximo alvo.

"Esta é uma das mais importantes capitais assírias, onde encontramos belos relevos e touros alados... Isso seria um desastre", lamentou Abdelamir Hamdani, um arqueólogo iraquiano da Stony Brook University, em Nova York, contactado por telefone pela AFP.

"Eu temo por mais destruição", declarou Ihsan Fethi, um especialista em patrimônio iraquiano radicado na Jordânia. "Eles são capazes de qualquer coisa, eles são capazes de dizer que os templos de Hatra são pagãos e explodi-los".

Hatra, ao sul de Mossul, é um Patrimônio Mundial da Unesco. Segundo a organização da ONU, "o que resta da cidade, especialmente os templos onde a arquitetura grega e romana se misturam a decorações orientais, atesta a grandeza da civilização. "

Mas proteger esses sítios - Nimroud, Hatra, e todos aqueles localizados nos territórios conquistados pelo EI - é uma tarefa quase impossível, adverte Munir Buchnaki, diretor do Centro Regional Árabe para o Patrimônio Mundial, com sede em Bahrain.

"Se você não tem pessoas no terreno, é muito difícil, e podemos até mesmo contribuir para a destruição".