A ameaça iraniana latente na América Latina

Ontem foi o 28º aniversário do atentado à Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, onde 85 foram mortos e mais de 300 feridos. Como mostram evidências descobertas pelo promotor argentino Alberto Nisman — morto em circunstâncias suspeitas — e alertas vermelhos da Interpol em 2007, a República Islâmica do Irã e seu agente, o Hezbollah, foram responsáveis pelo atentado. O ataque é uma lembrança sombria não só da ameaça que o regime iraniano — o principal patrocinador estatal do terrorismo e do antissemitismo — representa para as comunidades judaicas em todo o mundo, mas também da impunidade que agentes e cúmplices de Teerã continuam desfrutando na América Latina.

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Neste ano, um fórum para combater o antissemitismo aconteceu no aniversário do ataque, com a presença de Deborah Lipstadt, enviada especial do governo americano para o combate ao antissemitismo. É preocupante que as autoridades argentinas tenham retido em solo, em 8 de junho, um avião de carga que era operado pela iraniana Mahan Air até ser entregue à estatal venezuelana Emtrasur em janeiro. Os padrões de voo suspeitos e a tripulação ligada ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) são a prova de que Teerã passou as últimas três décadas fortalecendo suas redes ilícitas na região.

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O regime iraniano e seus cúmplices têm desfrutado crescente impunidade na América Latina nas últimas três décadas, particularmente no último ano. Em janeiro, o vice-presidente iraniano para Assuntos Econômicos, Mohsen Rezaei, um ex-líder do IRGC procurado pela Argentina e por um alerta vermelho da Interpol em razão do papel a ele atribuído no atentado à Amia, foi calorosamente recebido na Nicarágua na posse de Daniel Ortega. Três meses antes, um tribunal argentino absolveu a ex-presidente e atual vice, Cristina Kirchner, e seus colaboradores da acusação de acobertamento do papel de Teerã no ataque à Amia. Enquanto isso, a investigação do assassinato de Alberto Nisman, promotor argentino que originalmente apresentou a queixa-crime contra Kirchner, está parada.

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O que pode ser feito para lidar com essa ameaça? A classificação do Hezbollah pela Argentina como organização terrorista em 2019 e a adoção da definição de antissemitismo da International Holocaust Remembrance Alliance em 2020 foram passos na direção certa. No entanto Buenos Aires precisa complementar essas etapas com uma investigação completa sobre o avião iraniano que se tornou venezuelano, sua tripulação suspeita, sua carga e suas rotas de voo, independentemente de onde a evidência leve e quem ela implique. Washington tem de continuar a aplicar sanções a entidades e indivíduos ligados ao Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica, enquanto continua a fazer pressão contra as ambições nucleares e balísticas de Teerã e suas ameaças genocidas.

Demorou muitos anos para a Argentina tomar uma posição clara sobre o atentado à Amia e tratá-lo como ataque não apenas à comunidade judaica, mas a todo o país. Uma vez que o regime iraniano, que não poupou a propagação de incitação ao antissemitismo nem ameaças violentas, continua sendo uma ameaça muito real às comunidades judaicas em todo o mundo, uma verdadeira lembrança do ataque à Amia e homenagem à memória das vítimas exigem vigilância contra extremistas patrocinados pelo Irã, comprometido com a repetição de ataques semelhantes. Prevenir tais atrocidades requer revelar, desmantelar e processar as redes ilícitas que o Irã construiu nas últimas três décadas.

*Susan Heller Pinto é vice-presidente de política internacional da Liga Antidifamação (ADL), e Aykan Erdemir é diretor de investigação internacional da ADL

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