Ameaçado de morte, Padre Julio Lancellotti fala do trabalho com minorias, conselho do Papa Francisco e de Jesus: ‘Não seria bem visto’

Carol Marques
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Era um sábado de manhã quando o telefone tocou. Do outro lado da linha uma voz conhecida perguntou, em italiano, se poderia falar com o padre Julio Lancellotti. Imediatamente o próprio respondeu, ainda meio atônito: “Tua Santità”, ou Vossa Santidade, também na língua dos romanos. “‘Aqui é o Papa Francisco. Você prefere falar em espanhol ou italiano?’ Ele me perguntou. Seguimos na língua italiana. Ele quis saber, então, como estavam as coisas por aqui. Típico de um jesuíta questionar como é o dia a dia de alguém... Depois, disse que estava ciente do trabalho com a população de rua e falou: ‘Não saia do lado dos pobres. Diga que estou rezando por eles e que eles rezem por mim”, relata o padre.

Nem precisava que a maior autoridade da Igreja Católica orientasse seu sacerdote mais combativo no momento. Tão combativo que o telefonema do Papa teve uma razão: as constantes ameaças de morte sofridas pelo pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em São Paulo. E tudo por que o presbítero escolheu trabalhar com as minorias como a população de rua, os dependentes químicos, o grupo LGBTQ+ ou tudo isso junto.

“São tempos difíceis num momento muito nebuloso do país, em que existe uma crise nas relações humanas e interpessoais. As ameaças são sintomas de um desprezo e um ódio ao pobre. Ninguém quer ver a miséria, a pobreza e a degradação humana. A gente vive em bolhas. Eu vivo numa. Alguns penetram nela para criticar. Quando posto a situação de vulnerabilidade desses irmãos, sou atacado”, observa.

Com pouco mais de 300 mil seguidores no Instagram, Lancellotti já poderia ser considerado um influenciador. Em seu perfil, no entanto, nada de belas paisagens ou sorrisos perfeitos. A alegria estampada, aliás, é rara. É na rede social que o padre mostra sua rotina. Aos 71 anos (ele completa 72 neste domingo), sendo grupo de risco, sai da igreja de máscara com respirador, escudo, avental, luvas e jaleco. Pelo caminho vai encontrando sua “turma”. E ele não se lembra de um dia ter recusado um abraço, mesmo pregando o distanciamento social.

“Às vezes, vejo as fotos e me surpreendo. Mas como negar, a quem tudo já foi negado, um afago?”, questiona. O padre se cuida. Faz imunoterapia, tratamento com ozônio, toma suas vitaminas e conta com a providência divina, é claro. Em sua visão, infelizmente, ele não crê que a humanidade ficará melhor, como tantos insistiram em pregar no início da pandemia. “Nunca achei. Nós estamos potencializando a forma que entramos. Quem era egoista está mais egoísta, e isso nao é pessoal. É estrutural. A saúde não é o centro da pandemia. O eixo está sendo a questão econômica. Chamam a vacina de ‘vachina’ e dizem que vão colocar um chip na população. Veja como o pensamento empobreceu. Os shoppings estão lotados, as praias também. As projeções são de um Natal e um Ano-Novo catastróficos”, analisa: “No Brasil, como no mundo, o Natal é comer, beber e dar presente. Ou seja, consumir”.

Padre Julio lembra que maior significado da data foi esquecido. “O Natal deveria ser resignificado, pois é a grande festa da vida. Deveríamos pensar que Deus está conosco e sofrendo. Esse Deus está precisando de ajuda, de respirador, de leito... Somos feitos à sua imagem e semelhança. Nós deformamos essa imagem de Deus para afastá-lo de nós”, critica.

Para ele, Jesus não seria bem visto nos dias de hoje. “Ele cuidava dos pobres, dos doentes, dos marginalizados, dos presos. Quem gosta disso? A história se repetiria. Eu me sinto um fracassado. Pois se tivesse sucesso, certamente não estaria ao lado de Jesus. Se os humilhados serão exaltados, eu estou na fase da humilhação, e de certa forma, isso é o certo”, ri da própria observação.

Para lidar com tudo o que vê e sente, padre Julio recorre ao senso de humor. Sempre foi assim. Expulso duas vezes do seminário por ser questionador demais, ele só foi ordenado aos 36 anos. Procurou estudar. Formou-se em Pedagogia e Teologia, devora livros e os indica (‘você vai pensar que sou vendedor’), é cercado por várias imagens de santos (‘os meus de devoção são os mais ferrados’) e quando quer fugir da realidade tem uma solução caseira e trivial: “Saio varrendo e faço faxina”.