Americanas: entenda de onde o rombo de R$ 20 bi poderia vir

GLóRIA DE DOURADOS, BRAZIL - 2020/09/15: The Lojas Americanas logo on the facade of a store in Dourados, Mato Grosso do Sul. (Photo by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
GLóRIA DE DOURADOS, BRAZIL - 2020/09/15: The Lojas Americanas logo on the facade of a store in Dourados, Mato Grosso do Sul. (Photo by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

O mercado acionário brasileiro foi surpreendido ontem à noite com a Americanas divulgando que havia um rombo de R$ 20 bilhões em seu balanço. Consequentemente, Sergio Rial, que havia assumido a presidência da empresa há menos de 15 dias, renunciou. Rial ficou sete anos como diretor-presidente do Santander.

Chamou a atenção que a auditoria PwC, uma das mais prestigiadas do mercado, também não encontrou inconsistência nos números. A empresa toda divulgava ter R$ 47 bilhões em ativos em setembro e patrimônio líquido de R$ 14 bilhões na mesma data.

A Americanas S.A, resultado da fusão das Lojas Americanas e da B2W (dona do Submarino também), não deixou claro quanto desses R$ 20 bilhões estão totalmente fora do balanço. Segundo Fernando Torres, do Valor Econômico, se a empresa tivesse mesmo que reconhecer esse passivo desse tamanho, estaria falida.

Um ponto que o mercado ficou mais tranquilo foi o suporte dado pelo fundo 3G, formado por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os mesmos que formaram a gigante de cervejas AB Inbev.

No comunicado divulgado, os acionistas deram uma pista de onde poderia vir o rombo: "A área contábil da Companhia identificou a existência de operações de financiamento de compras em valores da mesma ordem acima (R$ 20 bilhões), nas quais a Companhia é devedora perante instituições financeiras e que não se encontram adequadamente refletidas na conta fornecedores nas demonstrações financeiras de 30/09/2022". As contas a pagar pagar com fornecedores se transformaram em contas a pagar com bancos . De acordo com Torres, do Valor, nesse tipo de operação, a fornecedora recebe o dinheiro do banco e a compradora, no caso a Americanas, fica devendo à instituição financeira.

A conta de fornecedores da Americanas é de R$ 5 bilhões. Não teriam R$ 20 bilhões para serem classificados como dívida financeira.

O comunicado oficial sugere que parte dos compromissos com fornecedores simplesmente desapareceu.

Uma hipótese menos ruim é que esses R$ 20 bilhões sejam o valor pelo qual o lucro da Americanas e suas controladas foi medido de forma errada em anos anteriores. Então, esse ajuste negativo seria feito apenas no patrimônio líquido da companhia, sem acrescentar novas despesas a serem pagas no futuro.

Ações da Americanas devem sofrer no curto prazo

Para Heitor De Nicola, especialista de Renda Variável e sócio da Acqua Vero Investimentos, o cenário ainda é incerto, mas o caso pode respingar no mercado como um todo. “É difícil falar hoje para o investidor o que pode vir a acontecer, mas ainda assim o caso é muito sensível e as ações devem sofrer bastante no curto prazo. É uma falha de confiabilidade e pode acabar virando uma bola de neve mais para frente. Todavia, é muito cedo para falar, o próprio comitê da companhia vai avaliar de onde tudo isso veio. Além disso, o sinal que o Sergio Rial deu ao pedir para sair da presidência é muito negativo para o mercado e essa inconsistência pode ser um erro de norma contábil ou uma fraude a ser descoberta agora. É um caso muito sensível e pode respingar no mercado como um todo, escalar para uma crise de confiabilidade e temos que acompanhar de perto já que isso pode trazer certa volatilidade para o mercado conforme mais desdobramentos forem saindo”.