Americanas: nas redes e nas lojas, funcionários equilibram clima de incerteza e confiança na empresa

O rombo de R$ 20 bilhões em balanços de 2022 e em anos anteriores não é uma dor de cabeça apenas para os credores da Americanas. Os funcionários — estimados em mais de cem mil pessoas entre empregos diretos e indiretos — vivem a incerteza cotidiana sobre o futuro da companhia. Nas lojas, em conversas entre pequenos grupos de funcionários, e nas redes sociais, compartilham a preocupação e dividem a ansiedade em relação aos próximos dias.

Por enquanto, a ordem do dia é manter a calma. Funcionários ouvidos pelo GLOBO relataram que gerentes e supervisores conversaram com suas equipes e explicaram que nada muda. De outro lado, dizem que a ansiedade aumentou, pois os gestores não têm muito mais a compartilhar.

Quem consegue manter o sangue frio diz, em caráter reservado, acreditar que ainda dá para a empresa vender ativos, obter empréstimos ou até se desfazer de alguns pontos comerciais. Outros avaliam que cortes podem se tornar inevitáveis para colocar as contas em ordem.

No mercado financeiro, a crise da Americanas corria solta. As ações da companhia fecharam cotadas a R$ 1,94, com queda de 38,41%. O valor seria suficiente para comprar dois pacotinhos de 30g de amendoim no site da varejista. Enquanto isso, na loja da rede em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, duas moças disseram aguardar por uma chance em uma seleção de vagas.

Em seis lojas visitadas pelo GLOBO, metade estava vazia. As demais tinha movimento aquecido na área de alimentos, mas nas de produtos de maior valor, como eletrodomésticos e eletrônicos, poucos consumidores circulavam.

Outro funcionário lembrou que a rede varejista já vinha passando por um encolhimento de lojas nos últimos tempos, com fechamento ou redução dos espaços.

Uma funcionária relatou ter medo de perder o emprego, pois tem uma dívida de R$ 3 mil a pagar por um curso. A indagação entre os colegas é qual pode ser o critério para redução de pessoal, caso a crise chegue a este ponto. Os mais novos temem a falta de experiência, os mais velhos, o excesso.

Nas redes sociais, o cenário é o mesmo: lamentos dividem espaço com memes e sinais de solidariedade de quem sabe o que é enfrentar uma crise no trabalho. E há os que temem o efeito da crise no próprio emprego.

“Trabalhando nas Lojas Americanas sem saber se meu salário vai cair no final do mês”, disparou um usuário no Twitter.

Em um grupo no Facebook que reúne entregadores, trabalhadores compartilham frustrações. Comentários vão desde registros de lojas vazias até demanda baixa de pedidos no aplicativo. Um deles compartilhou uma imagem de unidade vazia e a legenda: R$ 40 bilhões.

O valor foi citado pela empresa no pedido de medida cautelar que suspende execução de dívidas. Ele se refere ao total de débitos que poderiam ser antecipados em razão das “inconsistências contábeis” reveladas.

Em outra frente, funcionários compartilham em uma rede profissional votos de confiança na companhia e o histórico de trabalho na empresa.

No LinkedIn, um colaborador que informa ocupar o cargo de supervisor de operações, reforçou seu orgulho em ser funcionário da empresa e seu compromisso com o trabalho.

“Confesso que faz tempo que não venho aqui, e muito por conta da alta demanda de trabalho que tenho nesse lugar, que me orgulho muito em dizer que trabalho na AMERICANAS S.A. (...) Se alegrar com uma situação dessa é no mínimo insensível por parte dessas pessoas, pois quem sofre mais não é a marca e sim quem trabalha aqui ganhando o pão de cada dia. Para essas pessoas eu gostaria de dizer só uma coisa, pare e reflita, se fosse com você seria engraçado? Para aqueles que postam mensagens se solidarizando, meu muito obrigado”, dizia a postagem.

Ainda na mesma rede, outro profissional, que relata ser consultor jurídico da Americanas, também adotou um discurso positivo.

“Na minha experiência, todas as vezes em que vi alguém subestimando a capacidade da Americanas, conseguimos mostrar a nossa força e sair vitoriosos. Dessa vez, não será diferente!”, dizia um trecho da publicação.

Procurada, a empresa não quis comentar.