Americanas pode levar anos para retomar credibilidade; 'respingo' no varejo é incerto

Americanas divulgou um buraco de R$ 20 bilhões em seu balanço
Americanas divulgou um buraco de R$ 20 bilhões em seu balanço

O surgimento de um rombo contábil de R$ 20 bilhões na Americanas levou muitos investidores a perguntar se isso poderia ser uma prática no varejo como um todo.

Chamou a atenção que a auditoria PwC, uma das mais prestigiadas do mercado, também não encontrou inconsistência nos números. A empresa toda divulgava ter R$ 47 bilhões em ativos em setembro e patrimônio líquido de R$ 14 bilhões na mesma data. Vale lembrar que a PwC esteve envolvida em escândalos financeiros envolvendo JBS, Wirecard e Evergrande.

A Americanas não deixou claro quanto desses R$ 20 bilhões estão totalmente fora do balanço. Segundo Fernando Torres, do Valor Econômico, se a empresa tivesse mesmo que reconhecer esse passivo desse tamanho, estaria falida.

Um ponto que o mercado ficou mais tranquilo foi o suporte dado pelo fundo 3G, formado por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, os mesmos que formaram a gigante de cervejas AB Inbev.

Quem anunciou o rombo de R$ 20 bilhões foi o então presidente das Americanas, Sérgio Rial, que havia assumido o posto em 2 de janeiro. Ele substituiu Miguel Gutierrez, que estava na Americanas havia quase 30 anos.

Rial deverá assessorar de forma independente o corpo acionário da companhia, composto pelos bilionários Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. Os três possuem 29% do capital das Americanas por meio da 3G Capital. Lemann, aliás, homem mais rico do Brasil, perdeu quase R$ 1,7 bi de seu patrimônio por causa do buraco bilionário. Ele reafirmou que não pretende vender ações da companhia.

A Americanas também é dona de marcas como Submarino, Shoptime, Grupo Uni.Co (Puket, Imaginarium e Love Brands), Ame, Hortifruti, Natural da Terra, entre outras.

Mas o que será do futuro das Americanas?

"A empresa pode ter uma queda como a IRB, que não quebrou, mas teve uma queda de 90% em seus papéis e jamais retomou a confiança dos investidores. Isso pode levar anos para se recuperar", Fábio Sobreira, analista chefe e sócio da Harami Research.

Para quem não lembra, a resseguradora perdeu 94% de seu valor de mercado desde 2020, quando erros contábeis e informações falsas sobre investimentos de Warren Buffett vieram a público.

  • O que se sabe do escândalo até agora

A área contábil identificou a existência de operações de financiamento de compras em valores da ordem de R$ 20 bilhões, nas quais a companhia é devedora perante instituições financeiras e que não se encontram adequadamente refletidas na conta fornecedores nas demonstrações financeiras de 30 de setembro do ano passado.

Apesar das incertezas ainda bastante grandes sobre os impactos das “inconsistências”, a Americanas afirmou que, apesar de não conseguir determinar todos os impactos no balanço, acredita que o efeito caixa seja imaterial e citou a criação de um comitê independente para realizar as apurações.

Americanas é dona de marcas como Submarino e Shoptime
Americanas é dona de marcas como Submarino e Shoptime

“As estimativas acima estão sujeitas a confirmações e ajustes decorrentes da conclusão de trabalhos de apuração e dos trabalhos a serem realizados pelos auditores independentes, após o que será possível determinar adequadamente todos os impactos que tais inconsistências terão nas demonstrações financeiras da companhia”, disse a empresa.

“Ainda não é possível determinar todos os impactos de tais inconsistências na demonstração de resultado e no balanço patrimonial. Entre as inconsistências, a área contábil identificou a existência de operações de financiamento de compras em valores da mesma ordem acima (R$ 20 bilhões), nas quais a companhia é devedora perante instituições financeiras e que não se encontram adequadamente refletidas na conta fornecedores”, disse a companhia em comunicado a investidores.

"É preciso haver uma investigação. Por que a PwC não viu isso antes? É uma prática do mercado?Houve má-fé? Leva muito tempo para a gente entender o que houve. Deve levar meses para esclarecer a situação", argumenta Sobreira.

Rial renunciou, mas deve seguir no conselho das Americanas

A vinda do executivo para as Americanas deu sinais de que a companhia iria mudar o tipo de gestão, mas a renúncia de Rial, que comandou o Santander de 2015 a 2021, passou outra mensagem. "Foi muito estranho mesmo. O Rial enxergou em 9 dias o que gestores anteriores não viram, que são investidores de Ambev e Burger King. Isso tem que ser apurado. Precisamos investigar se estamos num caso de erro, fraude ou má-fé. Ele está fazendo o que se espera dele: levar a Americanas a sério. Quando viu algo errado, logo informou ao mercado para fazer todas as diligências e mostrar ao investidor como ficará a situação contábil daqui para frente", explica Fábio Sobreira.

A grande pergunta que fica é se o varejo, setor que passa por dificuldades, num geral, em razão da situação econômica, pode ser contaminado pelo escândalo da Americanas.

"O setor do varejo em si está sofrendo muito de uma forma geral. Cito novamente o caso da IRB. Não tivemos um efeito cascata porque só temos praticamente a IRB na área de resseguros no Brasil. Imagina se acontecesse com um banco ou seguradora. Agora, com as Americanas, o varejo, que estava apanhando há alguns anos, está sub judice, sofre um baque. Não sabemos a magnitude da fraude nem da queda das ações", Fábio Sobreira, analista chefe e sócio da Harami Research

Na quinta-feira, um dia depois da revelação da 'bomba' de R$ 20 bilhões, as ações da Americanas despencaram 77%, na maior queda para empresas que fazem parte do Ibovespa desde 1994.

Diretores da Americanas venderam ações antes de divulgação do rombo

Ações da Americanas devem sofrer no curto prazo

Para Heitor De Nicola, especialista de Renda Variável e sócio da Acqua Vero Investimentos, o cenário ainda é incerto, mas o caso pode respingar no mercado como um todo. “É difícil falar hoje para o investidor o que pode vir a acontecer, mas ainda assim o caso é muito sensível e as ações devem sofrer bastante no curto prazo. É uma falha de confiabilidade e pode acabar virando uma bola de neve mais para frente. Todavia, é muito cedo para falar, o próprio comitê da companhia vai avaliar de onde tudo isso veio. Além disso, o sinal que o Sergio Rial deu ao pedir para sair da presidência é muito negativo para o mercado e essa inconsistência pode ser um erro de norma contábil ou uma fraude a ser descoberta agora. É um caso muito sensível e pode respingar no mercado como um todo, escalar para uma crise de confiabilidade e temos que acompanhar de perto já que isso pode trazer certa volatilidade para o mercado conforme mais desdobramentos forem saindo”.

  • Diretores venderam ações antes de divulgação do rombo

E para piorar a situação, foi divulgado pelo jornal O Globo que diretores da Americanas venderam mais de R$ 210 milhões em ações da empresa no segundo semestre de 2022. De acordo com documentos publicados pela própria companhia em seus canais de comunicação com investidores, as vendas teriam iniciado após o anúncio de Sérgio Rial como novo CEO, que assumiria em janeiro.

A venda de ações por parte da diretoria, após o anúncio de um novo presidente, sugere que os sócios majoritários tinham noção dos problemas enfrentados pela empresa. A indicação de Rial para o cargo de diretor-executivo da empresa, inclusive, veio a partir de membros que venderam as ações em outubro.