Americanas tem 'estrutura de capital insustentável' e injeção de recursos em tempo hábil é 'altamente incerta', diz Fitch

As agências de classificação de risco Fitch Ratings e Standard & Poor's (S&P) cortaram nesta sexta-feira as notas de crédito da Americanas após o escândalo do erro contábil na companhia revelado nesta semana, que se traduz em um rombo preliminar de R$ 20 bilhões no balanço da empresa e deve resultar na revisão das demonstrações financeiras de vários dos últimos anos.

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Os papéis foram reclassificados como "extremamente especulativos", ou seja, com grande risco de calote. Em seu relatório, a Fitch chama de "altamente incerto" uma injeção de capital "em tempo hábil".

A Fitch cortou a nota do crédito de longo prazo em moeda estrangeira e local da varejista brasileira de 'BB' (sem grau de investimento) para 'CC' (entremamente especulativo). A nota de crédito nacional (rating nacional de longo prazo) também foi rebaixada de de “AA+(bra)” para “CC(bra)”.

Também foram reclassificadas para baixo as notas globais sênior não garantidas emitidas pelas subsidiárias da Americanas JSM Global e B2W Digital Lux de 'BB' para 'CC'/RR4.

As debêntures não garantidas da Americanas, que tinham a nota 'AA+(bra)' da agência (papel com forte capacidade de honrar compromissos) passou a 'CC(bra)' (de grau especulativo e altamente vulnerável).

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Em seu relatório, a Fitch afirma "acreditar firmemente que é provável que a Americanas entre em um acordo de standstill (suspensão) com seus credores, dada a estrutura de capital insustentável que existe agora e os danos à reputação ocorridos. As classificações da empresa seriam rebaixadas para 'C' se isso acontecesse".

A Fitch ressalta que o rebaixamento das notas ocorre devido à divulgação da Americanas das "inconsistências" em seus lançamentos contábeis "que reduziram o saldo das contas de seus fornecedores ao longo de vários anos em cerca de R$ 20 bilhões". Para a agência, esses passivos adicionais aumentariam a relação dívida líquida ajustada/EBITDAR (lucro antes de juros, impostos, depreciação, amortização e custos de reestruturação ou de arrendamento) da Americanas para um múltiplo de 11,9 no trimestre terminado em 30 de setembro de 2022.

Antes, o índice era 5,5. Pelos parâmetros do mercado, uma dívida dessa monta é praticamente impagável.

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O relatório ainda considera a estrutura de capital da Americanas "insustentável" com os novos passivos.

"A estrutura de capital insustentável e a reputação arranhada da Americanas prejudicam gravemente sua flexibilidade financeira e sua capacidade de lidar com obrigações operacionais e financeiras. O apoio dos credores será fundamental para melhorar sua flexibilidade. Isso pode ocorrer em alguma combinação de renúncias a possíveis violações de covenants (cláusulas-gatilho que antecipam a dívida), não aceleração de obrigações financeiras e rolagem de dívida. Operacionalmente, a empresa pode lutar para manter alguns de seus fornecedores existentes. Uma injeção de capital material em tempo hábil para evitar a inadimplência é altamente incerta", afirma a empresa.

Já a S&P cortou o rating da Americanas em sua classificação de crédito em escala global para 'BB' (sem grau de investimento), em escala nacional brasileira para ‘brA’, e incluiu a companhia na listagem CreditWatch com implicações negativas.

O crédito das notas globais sênior não garantidas emitidas da JSM e da B2W foi rebaixado para ‘B’ (altamente especulativo).