Americanos e talibãs disparam para dispersar afegãos no aeroporto de Cabul, e ao menos 17 pessoas ficam feridas

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CABUL — Os arredores do aeroporto de Cabul voltaram a ser palco de tumultos nesta quarta-feira, após centenas de afegãos se dirigirem novamente ao local para tentar fugir do Afeganistão. Segundo a Reuters, ao menos 17 pessoas ficaram feridas três dias após o Talibã tomar a capital quase 20 anos após ser derrubado pela invasão americana, em outubro de 2001.

Os detalhes da confusão não são claros, mas tanto os americanos quanto o Talibã confirmaram que dispararam armas de fogo para conter os afegãos que tentam chegar ao aeroporto. O grupo extremista diz que sua intenção não é ferir ninguém, enquanto o porta-voz do Departamento de Defesa americano, John Kirby, disse que os tiros fazem parte de uma estratégia "não letal" para "controle de multidão" e que não há relatos de feridos.

Desde que entrou em Cabul, no domingo, e ocupou o palácio presidencial após a fuga do presidente pró-Ocidente, Ashraf Ghani, o Talibã tem o controle do país — inclusive da rota para o aeroporto, onde há relatos de que seus soldados impedem a passagem de afegãos. O aeroporto da capital, contudo, foi assumido pelos americanos.

Apesar de estarem na reta final da retirada de suas forças de combate do Afeganistão, que deve chegar ao fim no dia 31, os americanos comandam o Aeroporto Internacional Hamid Karzai e do tráfego aéreo em Cabul. Apenas a decolagem de estrangeiros e aliados afegãos está sendo autorizada, e os voos comerciais foram interrompidos, praticamente impossibilitando o embarque da população geral.

Na segunda-feira, imagens de afegãos que foram para o aeroporto em busca de voos de fuga, agarrando-se à fuselagem de um avião militar dos EUA que taxiava e ocupando a pista de decolagem, rodarem o mundo. Ao menos sete pessoas morreram: duas deles, diz o Pentágono, foram mortas por soldados que retaliaram após serem alvos de disparos. Imagens que circulam na internet mostram ainda ao menos duas pessoas caindo de aviões recém-decolados.

Até o momento, há 4,5 mil soldados americanos coordenando as operações e fazendo a segurança, e mais 1,5 mil deverão chegar nos próximos dias. Questionado em sua entrevista coletiva na manhã desta quarta sobre relatos de que o Talibã estaria impedindo a passagem de civis ao aeroporto de Cabul, Kirby disse que o acordo firmado para que o tráfego seguro fosse garantido está "funcionando".

O grupo extremista nunca fez uma ameaça concreta aos estrangeiros ou suas embaixadas, afirmando desejar relações diplomáticas, mas a corrida para evacuar cidadãos de outros países, principalmente ocidentais, e aliados afegãos é grande. Segundo o porta-voz do Departamento de Defesa americano, John Kirby, 18 aviões militares americanos C-17 e C-130 retiraram do território afegão cerca de 2 mil pessoas, entre elas 325 cidadãos americanos.

Não está claro quantas pessoas foram evacuadas por aviões enviados por outros países para retirar seus próprios cidadãos. A França, por exemplo, enviou seu segundo avião militar para Cabul, que retirou 216 pessoas da cidade, disse o chanceler Jean-Yves Le Drian em um comunicado. Entre elas, 184 aliados afegãs e afegãos cujas vidas era "imperativo proteger".

Os alemães, país com o segundo maior contingente no Afeganistão após os EUA, enviou ao Afeganistão um avião da companhia Lufthansa que pousou em Frankfurt nesta quarta com 130 pessoas a bordo. Outros voos estão marcados para os próximos dias.

A embaixadora britânica no Afeganistão, Laurie Bristow, por sua vez, disse que o Reino Unido trabalha com o Talibã em níveis "táticos e práticos" para garantir a retirada dos cidadãos britânicos e afegãos aptos a serem abrigados por Londres. Segundo ela, a expectativa é que a operação leve dias, e não semanas. Na terça, ela disse em um vídeo, o país evacuou 700 pessoas.

A retirada de aliados afegãos tem sido uma questão para todos os países da Otan que participavam da invasão, mas principalmente para os americanos. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, uma organização humanitária, mais de 300 mil civis afegãos tiveram algum tipo de filiação com a missão dos EUA nas últimas duas décadas. Apenas uma parcela não especificada deles se qualificaria para vistos especiais de imigração, contudo, diante da imensa burocracia de 14 etapas.

Há cerca de 18 mil pessoas com pedidos pendentes e, desde julho, a Casa Branca retirou apenas 2 mil tradutores e suas famílias, cujas solicitações já haviam sido aprovados. O último voo com afegãos decolou no domingo e, desde então, as viagens foram suspensas. Segundo Kirby, o Pentágono está preparando bases militares, incluindo Fort Bliss, no Texas, e Fort McCoy, em Winsconsin, para receber até 22 mil pessoas que buscam os vistos especiais.

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