Amigos contam que homem morto em mercado de POA estava feliz: 'Íamos ser padrinhos de casamento dele'

Lucas Azevedo, especial para O GLOBO
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PORTO ALEGRE — João Alberto Silveira Freitas, 40, ou o “Nego Beto”, como era mais conhecido, morto esta quinta-feira, espancado até a morte, era aposentado por invalidez. Há alguns anos teve um acidente de trabalho no Aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, onde trabalhava como auxiliar de serviços gerais. Na ocasião, feriu o braço, perdendo parcialmente os movimentos. Desde então vivia com a aposentadoria de um salário mínimo, fazia alguns bicos pelo bairro onde morava e ajudava o pai, soldador.

Beto morava com a companheira, Milena Borges Alves, e a filha dela, uma adolescente de 20 anos, a quem tratava como a própria filha, no Iapi, tradicional bairro residencial de Porto Alegre, também conhecido como Vila dos Industriários.

Estava especialmente feliz nos últimos dias. Finalmente casaria com Milena, em uma cerimônia no início de dezembro. Estavam esperando desde o ano passado para o registro civil mas, devido à pandemia, a cerimônia civil estava sendo adiada. Viviam juntos havia nove anos, depois que Beto se separou da antiga mulher, com quem teve três filhos.

— Ele andava muito feliz com a Milena —, lembra a amiga Viviane Machado, 33. Segundo ela, frequentemente se encontravam às sextas-ferias em um da região para ouvir música e beber com os amigos. — Ontem mesmo conversamos, combinando de nos encontrarmos hoje [sexta-feira].

Imagens fortes:

— Eu e a minha mulher íamos ser padrinhos de casamento deles — comenta Sidnei, que não quis dar o sobrenome, 41, amigo de Beto desde quando chegou ao Iapi, há nove anos.

Segundo ele, o amigo era um homem brincalhão, carinhoso, mas que não levava desaforo para casa. “Ele andava calmo. Me disse dia desses que queria diminuir os churrascos e a cerveja, porque queria juntar dinheiro para comprar um tênis para a filha mais velha", lembra.

Como a grande maioria dos gaúchos, Beto era fã de churrasco. Porém, herdou do pai a falta de apreço pelo chumarrão.

— Ele me dizia: "Meu sonho é conseguir tomar chimarrão que nem tu — recorda Sidnei.

Horas antes de sua morte, Beto disse à mulher que queria comer salada. Foram no supremercado fazer as compras. Beto foi na última hora. Milena levaria a filha com ela, mas o compaheiro quis ir junto. A menina ficou em casa.

Beto tinha uma rotina simples. Quando a mulher estava de folga — é cuidadora de idosos e trabalha dia sim, dia não —, ele a acompanhava no supermercado e fazia tarefas de casa. Quando estava sozinho, saía para caminhar pelo bairro.

No Iapi quase todos se conhecem. Passava de casa em casa conversando, encontrando conhecidos pela rua.

— Às vezes ele saia comigo para passear com meu cachorro. Outras vezes nos encontrávamos no bar ou nos churrascos da torcida — explica Noé Pithan, 65, amigo de Beto. — Era um cara debochado, brincalhão. Só não gostava de quem não gostava dele.

— A gente fazia churrasco na minha casa. Ele gostava de funk e samba, era um cara animado. Gostava de cerveja, mas andava mais calmo, bebendo menos — lembra Pithan.

Beto não falava de política. Frequentava terreiro de umbanda e, às vezes, também acompanhava o pai, frequentador da Igreja Universal.

Nos fins da tarde, ele se sentava em um banco de uma praça próxima, onde usava o sinal de wi-fi de um posto de gasolina. Perto dali fica o campo do Esporte Clube São José, time da série C. Beto era um ativo membro da torcida Os Farrapos. Era querido pelo grupo e sempre participava dos jogos e comemorações.

— Ele era brincalhão. Mas sabia com quem brincava — lembra Eduardo Borges, um dos líderes da torcida. — Estava sempre nos churrascos que a gente organizava. Bebia pouco. Era um cara tranquilo. Às vezes a mulher dele também vinha aos nossos encontros.