Amir Haddad dirige 'Riobaldo', adaptação de 'Grande sertão: veredas'

Gustavo Cunha

Em seu primeiro contato com “Grande sertão: veredas”, há cerca de 30 anos, o diretor Amir Haddad leu e releu, “por mais dez vezes”, a primeira página do livro, mas sem entender os significados da obra-prima de João Guimarães Rosa. De repente, ele relembra, as palavras adquiriram um sentido claro — e a brochura volumosa se tornou um objeto permanente sobre a cabeceira.

O laço afetivo, mantido desde então com as tais letras inventivas, segue naturalmente impresso em “Riobaldo”, monólogo que Haddad dirige no Espaço Sérgio Porto, no Humaitá. Adaptação com dramaturgia e atuação de Gilson de Barros, o espetáculo estabelece um recorte na história do ex-jagunço que dá nome ao solo, com ênfase nas memórias cultivadas pelo personagem sobre Diadorim, Nhorinhá e Otacília, mulheres determinantes em sua trajetória.

— Já dirigi mais de 300 peças, e há muito tempo não sinto um prazer tão grande ao lidar com um texto e um ator como estou tendo agora, neste pequeno grande monólogo — ressalta o diretor de 83 anos. — “Grande sertão: veredas” é o único livro brasileiro que eu leio no original sabendo que nenhum estrangeiro, com uma versão traduzida em mãos, conseguirá ter acesso ao mesmo que eu. Não me canso de ficar orgulhoso com o fato de Guimarães Rosa ser brasileiro.

À frente do Grupo Tá na Rua, que nesta terça-feira dá início às comemorações pelas quatro décadas da companhia — com uma projeção de trechos dos espetáculos mais marcantes da trupe, em sua sede na Lapa (às 18h) —, Haddad faz questão de se manter constantemente ocupado.

Na última semana, ele também estreou, desta vez como supervisor de direção, a peça “A esperança na caixa de chicletes Ping Pong” — em cartaz no Teatro Petra Gold, no Leblon —, sequência da frutífera parceria com a atriz Clarice Niskier, com a qual já havia colaborado em “A alma imoral”.

— Em pouco tempo, fiz duas estreias de textos carregados de brasilidade. E isso é o que me faz sentir vivo: neste momento em que somos atacados por tanta mediocridade, precisamos reafirmar nossas identidades — afirma Haddad.

Espaço Cultural Sérgio Porto: Rua Humaitá 163, Humaitá — 2535-3846. Sex, sáb e seg, às 20h. Dom, às 19h. R$ 40. 70 minutos. Não recomendado para menores de 16 anos. Até 30 de março.