Amor e sexo na quarentena: muito vibrador e pouco poliamor

Renata Izaal*
A quarentena traz consigo desafios para os casais e uma nova ordem sexual: a masturbação, quem diria, é recomendada pelos governos

Em um dos episódios do clássico “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar)”, de Woody Allen, os espermatozoides são paraquedistas. O próprio Allen interpreta um deles, com personalidade particular: tem medo do desconhecido. Imaginem a mesma cena hoje, quando uma pandemia leva bilhões de pessoas ao isolamento social. Quem não está com medo de saltar no desconhecido?

Primeiro, é importante entender que o novo coronavírus é mesmo um ilustre desconhecido, e a ciência o desvenda em tempo real. Em se tratando de seus impactos na vida amorosa de todos nós, já sabemos que a Covid-19 ainda não foi encontrada no sêmen ou nos fluidos vaginais e que outros tipos de coronavírus não são eficazmente transmitidos pelo sexo. Mas o contágio pode ocorrer pelo contato com muco ou saliva, o que nos faz pensar em uma nova ordem sexual para a pandemia.

— O vírus pode ser transmitido por vias respiratórias, quando alguém fala muito próximo de você, por exemplo. Além disso, há a instrução de que devemos evitar o contato com a mucosa oral, o que obviamente torna o beijo uma forma de contágio. Quanto ao sexo oral, não há indicação da presença do vírus nas mucosas genitais. No caso do sexo anal ou do beijo grego, foi detectado o vírus no trato gastrointestinal, mas até onde sabemos hoje, ele não é eliminado nas fezes, portanto, não há o risco — explica Flávio da Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Na última semana, a tal nova ordem sexual se manifestou das seguintes maneiras: a polícia de Barcelona invadiu uma orgia e prendeu oito praticantes porque eles não respeitaram a ordem de isolamento social. Na cidade de Nova York, as autoridades de saúde divulgaram uma cartilha com um manual de conduta para o sexo em dias de pandemia. Na Califórnia, uma sex shop anunciou que enviará milhares de vibradores de graça para suas clientes. A cartilha nova-iorquina, aliás, recomenda a masturbação.

Com batidas policiais em orgias e masturbação recomendada pelo governo, estamos mesmo saltando no desconhecido?

— Para quem está em isolamento, junto com o parceiro ou a parceira, não há risco. Mas em relação a alguém que conheceu em uma balada, se é que está havendo alguma, não há como garantir mesmo a segurança — afirma Flávio da Fonseca.

Convivência e desejo

Ou seja, você é o seu parceiro sexual mais seguro. Em seguida, está a pessoa com quem você vive. Com terceiros, a coisa complica e novos desafios se apresentam. Casais que se encontravam praticamente só à noite e nos fins de semana, agora passam 24 horas juntos — e sem a presença de terceiros, seja em relações extraconjugais ou em casamentos abertos, para quebrar a rotina da relação:

— Nós ainda somos regidos pelo amor romântico, pela idealização de uma fusão entre duas pessoas. A convivência no confinamento quebra isso. O que não se manifestava antes, surge, e as pessoas se irritam e logo começam a jogar em cima das outras as suas frustrações — afirma a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, lembrando que, para superar o momento atual, é preciso haver respeito à individualidade do outro. — Está irritado? Se tranca no banheiro — diz ela.

Frustrações e rotina não acendem o desejo sexual de ninguém. Não é preciso uma pandemia para sabermos disso, mas a China entrega a contraprova. Por lá, a quarentena aumentou o número de divórcios. Podemos esperar o mesmo?

— Mesmo fora de uma crise como a que vivemos, há duas questões que os casais trazem: a falta de tesão e o desejo de abrir a relação. Não podemos fazer uma projeção do que acontecerá, mas a ausência de terceiros pode pesar. — Há muita gente, inclusive mulheres, com relações extraconjugais e também muitos casais com relacionamentos abertos. Essa relação fora dá um suporte emocional, que faz bem para essas pessoas, e com o qual elas não podem contar agora — conta Regina.

Brinquedos sexuais

Mas existe um outro tipo de suporte, com o qual todos podem contar: o tecnológico. Sexo e relacionamentos via tela do computador ou do smartphone já acontecem há anos. A novidade é que o terreno anda propício aos brinquedos sexuais. Uma projeção da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) espera crescimento de até 12% na compra de vibradores e outros produtos sexuais. O setor já montou um guia para orientar a venda segura pela internet, que inclui medidas de preservação sanitária.

— Os solteiros ficam desesperados sem transar e entre os casados há aqueles que há anos não transam. Ou os que são bem resolvidos, mas uma hora enjoam do feijão com arroz. Nossa projeção é que os brinquedos sexuais, assim como serviços de streaming e jogos de tabuleiro, sejam um apoio para passar o tempo na quarentena — opina Julianna Santos, editora da agência Mercado Erótico.

Se a procura por vibradores realmente aumentar, o coronavírus talvez ajude a terminar com um dos grandes tabus da sexualidade humana, a masturbação.

— Esse jogo pode virar. A masturbação é vista como um problema desde a Idade Média. Se o prazer do corpo for encarado com mais naturalidade, aí teremos percorrido um caminho de liberdade — diz Regina Navarro Lins.

E liberdade, convenhamos, não deve ser um salto no desconhecido para ninguém.

* Colaboraram Eduardo Vanini, Natália Portinari e Paula Ferreira