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3 anos depois foto de menino sírio morto na praia não nos deixou nenhum legado de sensibilidade e empatia

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Reuters

Por Letícia Quatel (@leqtl)

Há 3 anos a foto de uma criança síria encontrada morta em uma praia da Turquia estampou os principais jornais do mundo e percorreu as redes sociais provocando uma comoção mundial. Mas três anos depois, que legado essa fotografia nos deixou?

No dia 2 de setembro de 2015, duas embarcações com imigrantes naufragaram deixando, pelo menos, nove mortos. Aylan Kurdi de três anos era um deles. Junto da mãe e do irmão mais velho. Seu corpo foi encontrado em uma praia na cidade de Bodrum, na Turquia. A família de Aylan era de Kôbane, uma cidade síria que faz fronteira com a Turquia, onde o Estado Islâmico ficou em batalha contra as forças curdas naquele ano — o motivo pelo qual tantas famílias sírias foram obrigadas a deixar suas casas. Estima-se que desde que o conflito começou, em 2011, até agora, 6 milhões de sírios se deslocaram internamente e 5 milhões abandonaram o país em busca de refúgio. A família de Aylan tentaria chegar ao Canadá, onde tinham parentes — mesmo com um pedido de asilo negado pelo país norte-americano. Na época, a tia da criança culpou o Canadá e a morte pela tragédia com o sobrinho.

A imagem de Aylan morto repercutiu nos noticiários do mundo inteiro, além de ter viralizado nas redes sociais e feito o nome do garoto virar “trending topic” mundial no Twitter, tamanha a comoção diante desta fotografia, que chegou a ser classificada como símbolo da crise migratória. O registro foi feito pela fotógrafa turca Nilufer Demir que cobre a crise migratória em Bodrum, na Turquia, para agência de notícias Dogan. Na época, um debate acerca da publicação ou não desta imagem foi levantado pela imprensa mundial. Alguns jornais optaram por dar uma foto menos explícita como é o caso do New York Times, do Wall Street Journal e do site Vox Media — o editor do site Vox disse ao optar por não publicar a foto que: “No fim das contas, decidi que não deveria publicá-la porque a criança não teve como decidir se deveria ou não tornar-se um símbolo.” Já outros jornais, como o Los Angeles Times e o Washington Postpublicaram a imagem mais explícita. Kim Murphy, editora do Los Angeles Times, justificou a escolha editorial alegando não se tratar de uma imagem ofensiva: “A imagem não é ofensiva, nem sangrenta, nem de mau gosto. É apenas de cortar o coração e um testemunho dessa tragédia que se desenvolve na Síria, Turquia e Europa”. E a própria autora da fotografia defendeu que a publicação foi correta, pois, segundo ela, fez a Europa refletir sobre suas medidas em relação aos refugiados. “Fiz muitas fotos do drama dos refugiados e nenhuma delas teve esse efeito na consciência pública”, disse.

Três anos depois

Mas será que a divulgação desta fotografia trouxe, de fato, alguma mudança efetiva com relação aos refugiados? Três anos depois a resposta é: Não. Talvez ela se torne uma memória daquilo que vamos querer esquecer futuramente de um erro humanitário. Essa situação tão cruel não só não foi estancada como a única de possibilidade de reconstruir uma vida depois de sair de um país em situação de conflito foi também foi ainda mais dificultada. Isso porque países europeus como a Itália, por exemplo, principal destino da chegada destes refugiados por conta de sua posição geográfica na rota do mediterrâneo, adotaram uma política de tolerância zero. O governo italiano bloqueou o acesso aos portos para os barcos que resgatam refugiados no mar. O ministro do interior da Itália, Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, da extrema direita, é quem está por trás da decisão.

Somente no mês de junho de 2018, pelo menos 629 pessoas morreram tentando chegar à Europa pelo Mar Mediterrâneo, mês em que o navio Aquarius, da ONG francesa SOS Mediterranee, foi proibido de atracar no sul da Itália com mais de 600 pessoas resgatadas. Destes, 123 menores desacompanhados, 11 crianças e sete mulheres grávidas. O número de mortes seria o mais alto desde de novembro de 2016. Em setembro de 2015, mês em que Aylan Kurdi morreu na travessia o número de mortos foi de 269, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações.

 

Mais de 600 crianças morreram no Mediterrâneo desde 2014

Segundo a ONG Save The Childrem, pelo menos 640 crianças morreram no Mediterrâneo desde 2014. A Organização ainda reforça que mesmo as crianças refugiadas que sobrevivem, mas que viajam sozinhas estão vulneráveis a exploração, violência e tráfico de pessoas. O diretor da ONG Save the Children, Andrés Conde, propõe uma mudança de políticas migratórias no continente Europeu que garanta pelo menos a proteção de crianças em vias legais, nas palavras dele: “Não podemos permitir que mais crianças sigam colocando suas vidas em risco no mar ou nas mãos das máfias.”

Depois que a crise ganhou um rosto

Em 2015 quando a crise migratória, supostamente, teria ganhado um rosto, um corpo e um nome: Aylan Kurdi, a comoção causada pela imagem foi uma aposta de que a Europa repensaria suas medidas em relação aos refugiados, como citado acima na fala da própria autora da fotografia. Parece que não surtiu efeito. Pelo contrário. A tolerância parece ter diminuído cada vez mais, uma epidemia que se alastra no mundo. Como o caso dos Estados Unidos, em que a política “tolerância zero” adotada pelo presidente Donald Trump separou 2300 crianças de seus pais na fronteira. Mais uma vez uma criança foi o símbolo desta calamidade humanitária.

A foto de uma menina hondurenha de 2 anos chorando enquanto sua mãe é revistada antes de ser presa na fronteira dos EUA com o México clicada pelo fotógrafo John Moore da Getty Images ganhou os noticiários e as redes sociais, sendo usada inclusive em uma montagem de uma capa icônica da revista norte-america, TIME. Na ocasião, em junho deste ano, essas crianças foram mantidas em uma espécie de “gaiola”, em que a própria ex-primeira dama Laura Bush, mulher de George W. Bush, descreveu a estrutura como semelhante aos campos de detenção usados para prender nipo-americanos nos EUA durante a segunda guerra mundial. Não por acaso que as autoridades não permitiram que fotografias e vídeos fossem feitos dentro do centro.

Retratar uma criança em uma situação de vulnerabilidade tem o poder de causar um efeito mais forte na recepção de uma imagem. Sobre isso a professora da Universidade de Chicago, Susie Linfield, em seu livro The Cruel Radiance: Photography and Political Violence, diz que a sensação na recepção da imagem provocaria uma reação disposta a frear seja o que for que a tenha causado: “Realmente, a aflição de crianças é tão indefensável que o impulso dos espectadores é querer fazer praticamente qualquer coisa para pará-la o mais rápido possível”. Talvez não seja bem assim, infelizmente.

Venezuelanos expulsos em Pacaraima

Em agosto deste ano, brasileiros incendiaram pertences de venezuelanos na cidade de Pacaraima, que faz fronteira com a Venezuela, depois que um comerciante da cidade foi assaltado por imigrantes venezuelanos. Grupos carregando pedras e paus incendiaram tendas, mochilas e artigos de pertencentes aos imigrantes. Diante disso, cerca de 1,2 mil imigrantes fugiram para o outro lado da fronteira com medo de novos ataques. A ação violenta normas do Direito Internacional.

Quantas crianças mortas ou em situação de extrema vulnerabilidade vão precisar estampar fotografias para que algo seja feito para deter essas atrocidades? Não saberemos. Mas pelo menos a fotografia nos tirou o poder de “fechar os olhos” para essas situações. Como bem sintetizou Susie Linfield:

“Hoje é, simplesmente, impossível dizer, ‘eu não sabia’: fotografias nos tiraram o álibi da ignorância. Nós conhecemos o sofrimento de várias partes do mundo, de modo que nossos antepassados nunca conseguiram, e as imagens que vemos — em alguns lugares, sob algumas condições — demandam não só nosso interesse, mas uma resposta.”

Letícia Quatel é jornalista graduada pela Puc-Campinas. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero com pesquisa focada na área de estudos visuais. Cursando especialização em Curadoria da Imagem Contemporânea na Fondazione Fotografia Modena, na Itália.

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