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8 de março, presente! Mulheres contam como combatem diariamente o patriarcado

Yahoo Notícias

Por Rosana Pinheiro/Agência PLANO

O mundo é hostil com as mulheres e os efeitos da desigualdade estão por toda parte – sobretudo no modo de pensar. Um estudo divulgado em fevereiro de 2017 pela renomada revista Science trouxe resultados alarmantes obtidos com crianças entre 5 e 7 anos. “Uma pessoa no meu escritório é muito, mas muito inteligente – ela resolve problemas mais rápido e melhor do que qualquer outra pessoa”. Quando escutaram essa frase, meninas a partir de 6 anos apresentavam maior dificuldade em acreditar que esta pessoa brilhante pudesse ser uma mulher. Em outro experimento, os pesquisadores notaram que as mesmas meninas não se achavam capazes de participar de brincadeiras descritas como “feitas para crianças realmente inteligentes”, preferindo sempre a segunda opção: “brincadeiras para crianças que realmente se esforçam para aprender”.

Soha Chabrawi, 35 anos, escapou dessa mentalidade graças à família de pesquisadoras. “Minha origem é egípcia, e lá as mulheres são muito estudiosas. Para você ter uma ideia, a minha vó fez faculdade na área da saúde, a minha mãe é bióloga, então eu sempre soube que queria algo na área da ciência”. Formada em Ciências Biológicas e com mestrado em Neuropsicofarmacologia, pela UnB, Soha concluiu seu doutorado em Neurociência e Cognição, na Universidade Federal do ABC e pretende continuar suas pesquisas. “Agora eu quero estudar questões moleculares do autismo”. Toda a sua formação acadêmica foi acompanhada pelas filhas, já que ela engravidou enquanto fazia o mestrado. “Já fiz prova segurando uma no colo e com a outra sentada do meu lado porque o professor não quis conceder um horário alternativo e eu não tinha com quem deixá-las. Mas tudo bem, porque eu acabei tirando dez.”, conta.

No trabalho, em casa, na vida política – o desafio de ser mulher é ainda maior na América Latina. Vivemos na região mais violenta do mundo para as mulheres, segundo a ONU, onde 38% dos casos de feminicídio são resultado de violência doméstica. A entidade reconhece os esforços legislativos de alguns países para identificar e acabar com a violência, mas exige que essas lei tenham maior impacto na sociedade. No Brasil, por exemplo, a Lei 13.104 tipificou o crime de feminicídio em 2015 e ampliou as penas para esse caso mas, na prática, ainda é pouco aplicada. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2017, foram 4606 mulheres assassinadas em 2016, mas menos de 14% foram caracterizados como feminicídio.

Viver com medo dentro da própria casa foi, por muito tempo, a realidade de Ivanete de Araújo, 45 anos. “Uma vez meu ex-marido me falou assim: ‘se eu te largar, quem vai te querer? Uma mulher com três filhos e uma barriga cheia de estrias’” – conta. “Isso mexeu muito com o meu psicológico”. Depois de sofrer, repetidas vezes, violência moral e física, encontrou forças para deixar o relacionamento. Hoje, Ivanete é presidente e coordenadora do MMLJ – Movimento de Moradia na Luta por Justiça, em São Paulo. É independente, casou com um homem que a faz feliz e conta a sua história para que sirva de exemplo.

Conversamos com uma modelo transgênero, uma líder social, uma cientista e uma doula sobre os desafios de ser mulher e enfrentar os obstáculos do patriarcado e do preconceito em suas áreas de atuação.

IVANETE, 45 ANOS

Ivanete de Araújo, 45 anos, é presidente e coordenadora do MMLJ – Movimento de Moradia na Luta por Justiça. É a líder da maior ocupação vertical da América Latina, localizada na Rua Prestes Maia, 911, onde moram atualmente 478 famílias. É uma das responsáveis – junto com uma equipe de coordenadores – pelas negociações com a Prefeitura de São Paulo que resultou na compra do prédio pela própria Prefeitura. Foto: Tuane Fernandes/Agência PLANO

Meu pai batia na minha mãe. Uma vez, minha mãe estava estendendo roupa e meu pai foi pra cima dela, gritando: “Eu tô falando com você”. Não sei como ela arrumou força. Mas na hora em que ele se aproximou, ela virou e pegou ele primeiro, pelo pescoço. Encostou ele na parede e falou: “A partir de hoje, eu não apanho mais de você”. Foi dessa cena que eu lembrei naquele momento da minha vida. Meu marido me batia muito. E então eu pensei “Eu ouvi a minha mãe falar que não ia apanhar mais. Tá na hora de trazer isso pra mim”. E assim foi. Me separei dele. Hoje em dia como funciona: quer conversar? Vamos conversar. Quer dar uma de machista? Eu vou mostrar a mulher que eu tenho mim.

Uma vez, meu primeiro marido falou assim pra mim: “Se eu largar você, quem vai te querer? Uma mulher com três filhos, com uma barriga cheia de estrias?”. Isso mexeu muito com o meu psicológico. Ele falou várias vezes que eu não era capaz. E depois que eu terminei com ele, eu namorei, sabe? Aproveitei mesmo. E me senti super bem. Pensei “gente, não é nada disso, tem gente que me quer, sim”. Meu esposo atual tem 30 anos, estamos juntos há 11. Ele nunca relou a mão em mim.

Aqui na ocupação são 478 famílias. É a maior ocupação vertical da América Latina. Então temos regras, claro, para que tudo fique organizado e todos recebam tratamento igualitário. Aí teve uma vez que ficamos sabendo de um homem que batia demais na mulher. Convoquei uma assembleia e sem citar nomes falei assim: “Tem um cabra aqui, muito macho, que tá batendo na mulher. Olha aqui você mulher, você apanha porque quer. E você homem, você sabe que eu estou falando de você. Se você continuar batendo nessa mulher, a gente vai juntar todas as mulheres aqui e você vai ter que dar conta de bater em todas nós. A partir de hoje, você está sendo observado”. Fiquei sabendo que depois os dois fizeram as pazes e não aconteceu mais. Mas tem casos em que a gente convida o homem a se retirar. O triste é ver a mulher defendendo até o fim. Até a última consequência.

Eu entrei no movimento de moradia depois de ficar em situação de rua com a minha família. No começo eu desconfiava. Participei da primeira ocupação e eu fui conhecendo melhor a causa. Lembro até hoje de um dia, na ocupação do antigo Hospital Matarazzo, quando acabou a comida na nossa cozinha coletiva. A primeira coisa que pensei foi nos meus filhos, como a gente ia ficar sem comida? Então eu falei para as mulheres da ocupação: “meninas, vamos pedir doação na rua?”. E muitas delas disseram “ah eu tenho vergonha”. Mas eu estava convicta a resolver aquilo e falei: “então vocês me ajudam a carregar?”. Voltamos com muita comida, depois ainda vieram móveis e outros items que conseguimos. A partir daquele dia eu percebi que eu fazia diferença, que juntando esforços a gente pode fazer acontecer. Foi o começo de tudo.

Acabei sendo convidada para participar mais. Agradeço muito à Solange Carvalho, ela era coordenadora na época e me ensinou muita coisa, como fazer uma ata, como as decisões são sempre feitas no coletivo. Você coordena, mas é com o grupo. Hoje eu sou presidente e coordenadora geral do MMLJ, e continuamos companheiros dos outros movimentos.

Nesse prédio da Prestes Maia entramos em 10 de outubro de 2010. Era mais um prédio abandonado com o proprietário devendo milhões em IPTU. Fizemos reuniões, nos organizamos e entramos. O prédio estava completamente deteriorado. Arrumamos a casa e hoje, o que estava morto em plena estação da Luz, tem vida, tem famílias. Através da luta conseguimos fazer com que a prefeitura comprasse o imóvel. E agora estamos em outra batalha: o judiciário precisa dar emissão de posse para a Prefeitura.

Fazemos tudo em grupo, mas é uma mulher que está na linha de frente. E eu deixo isso claro, sempre com muito respeito, pé no chão e cabeça levantada. Dentro do movimento eu sinto que existe um respeito mútuo. Mas já tive problemas com autoridades de setores públicos, por exemplo. Muita gente já se enganou comigo achando que eu sou frágil, que eu vou aceitar isso ou aquilo porque sou mulher.

Uma vez um secretário estadual de habitação, com quem eu negociava uma demanda de CDHU, falou, no meio de uma reunião com uma mesa cheia de homens: “desculpa a brincadeira, mas a gente não vai conseguir fechar essa demanda com uma mulher sentada na ponta”. Aí respondi: “Desculpo sim. E eu vou falar uma coisa para o senhor, mas não é brincadeira. Se eu tivesse no seu lugar, muita coisa já estaria resolvida”. Não satisfeito, ele continuou: “Nossa, calma, eu estava brincando, serve um café para ela se acalmar”. Aí você precisa ser grossa à altura, né: “Ótimo. Pode me servir o café. Eu bebo o café e a xícara eu jogo na sua cara. Pode servir”. Resumindo: esse dia eu fiquei sem café.

MARCELLA, 25 ANOS

Marcella Maia, 25 anos, é modelo com passagens por grandes marcas como Versace, Missoni e Philipp Plein. Em 2017, apareceu como uma das amazonas no filme norte- americano Mulher Maravilha. Também é atriz e milita pela causa dos transgêneros contando a sua história publicamente para que sirva de exemplo para jovens que passaram pelas mesmas dificuldade que ela enfrentou. Foto: Mel Coelho

Eu estaria mentindo se eu falasse pra você que foi fácil. Eu entendo o lado da minha mãe, claro. Já tinha sido difícil para ela quando eu me assumi homossexual. Quando eu passei pela transição, eu já não morava mais com ela. Então foi um choque, sim. Mas chegou um momento em que ou ela tentava me entender ou ela me perdia. Hoje a nossa relação é ótima.

Eu cresci na igreja batista. Então você imagina, me martirizava muito. Tentava ir contra o que hoje para mim é o natural. Por isso que quando decidi pela cirurgia, me afastei das pessoas. Eu sempre me afetava muito com a opinião dos outros. E como eu estava decidida, não queria mais lidar com isso. Fui para Tailândia, fiz a cirurgia, e quando voltei já dei entrada na minha documentação junto a defensoria pública. A Marcella entrou na sociedade. Agora o meu corpo condizia com a minha alma.

A minha transição foi difícil porque eu comecei muito cedo em um meio que cobra muito, o meio da imagem. Eu queria ser perfeita. Não pra mim, para os outros. Eu queria ser a mulher que todo mundo quer. Então, cometi um erro. Nesse meio da moda, um meio hétero e hipócrita, eu preferi me anular. Esconder o meu passado, a minha história. Muitas agência internacionais que trabalharam comigo só descobriram que eu sou trans há dois anos. Por um lado é bom, porque sei que, independente de qualquer rótulo, fiz trabalhos incríveis porque sou uma ótima profissional. Por outro lado, eu não podia ser transparente. E eu gosto de ser transparente.

Eu demorei muito tempo para me aceitar porque vivia mentindo pra mim mesma. Hoje o julgamento não me apavora mais. Prefiro estar sozinha do que mal acompanhada. Eu tenho consciência que ainda vai demorar um tempo para a gente deixar de ser a “modelo trans” a “atriz trans”, mas sei lidar bem com isso. Tem marca que gosta de usar esse momento. Hoje eu consigo entender isso de uma forma mais positiva.

A decisão de abrir a minha história veio depois de ver o absurdo que aconteceu com a Dandara [Dandara dos Santos, 42 anos, travesti agredida e assassinada no Ceará]. Eu nunca vi uma crueldade dessas. Fiquei em choque. Pensei: “eu posso ter sofrido, mas tem muita gente morrendo por aí por conta da intolerância”. Então tem que dar a cara a tapa mesmo. Tem que ter força. Ser um exemplo de que podemos conseguir as coisas. Como eu consegui.

Eu já trabalhei com Versace, Missoni, Philipp Plein. A cada trabalho que eu fechava eu pensava comigo: “eu estou conseguindo, eu não sou o lixo da sociedade”. Morei em Londres, Singapura, Japão e Turquia. Faço teatro há muito tempo, fiz cursos na New York Film Academy, na Acting School, em Londres, e na Wolf Maia, aqui em São Paulo. Meu foco é estudar atuação, a fundo, porque eu sei que é uma carreira que leva anos para você realmente poder dizer “eu sou atriz”.  No ano passado fiz uma participação no filme Mulher Maravilha, um dos trabalhos mais especiais da minha carreira.

Uma das coisas que eu mais gosto é conversar com adolescentes e pais. Muita gente me manda e-mail com dúvidas, querendo conversar. Eu não tive isso, eu conversava com o Google, fazia as minhas pesquisas sozinha. Então é muito bom poder ajudar os outros dessa forma.

Eu tenho certeza que a melhor decisão da minha vida foi a cirurgia de redesignação sexual. É como se tudo fizesse sentido.

THAIS, 61 ANOS

Thais Bárral, 61 anos, trabalha como doula há 13. Já acompanhou mais de 800 partos humanizados e atualmente faz parte da equipe do Parto Sem Medo, um programa de atenção à gestantes que desejam ter um parto humanizado. Thais luta para que mais pessoas conheçam o conceito de parto humanizado e tenham a oportunidade de viver este momento especial sem violência. Foto: Mel Coelho

Muitas vezes o casal não sabe muita coisa e fala “queremos parto normal”. Mas dependendo da equipe que está assistindo esse casal, a mulher não vai ter um parto normal. Muitos obstetras fazem o pré-natal e no final dizem “tem algum problema”, e a mulher acaba indo para cesárea. Por outro lado, os hospitais não tem estrutura nem mentalidade de parto humanizado. De aceitar o parto normal como uma coisa normal. Você entra hoje em um hospital, com uma mulher em trabalho de parto, e a primeira pergunta que o segurança ou a recepcionista fazem é “tá passando mal?”. A segunda “marcou para que horas?”. Aí a gente tem que explicar que é parto normal. Porque esse não é o costume.

A doula é uma companhia. Ela fica com a mulher, acompanha o casal, instrui o casal. Nós somos uma escuta para aquela mulher. Ensinamos técnicas de relaxamento. Mas acima de tudo somos uma companhia. Você sabe qual é a maior reclamação das mulheres no processo de dar a luz? A solidão. Muitas vezes no hospital ficam sozinhas em salas frias, com luzes brancas, esperando o marido, ou a enfermeira.

O parto é um evento fisiológico. O médico só deve intervir se precisar [no parto humanizado]. O papel do médico é monitorar para que não sejam feitas intervenções desnecessárias nessa mulher. Ou seja, é você respeitar a necessidade fisiológica da mulher, o desejo da mulher, o protagonismo dessa mulher em um dos momentos mais importantes da vida. Então a doula trabalha nesse sentido. A doula é da mulher.

Partos emocionantes são aqueles que a mulher não está totalmente convicta, não acredita totalmente no corpo dela. Um pouquinho dela quer provar “tá vendo, eu não consigo, eu preciso de ajuda”. E a feição dessa mulher quando ela vê que o corpo está fazendo a parte dele, que ela é perfeita, que o corpo é perfeito, o bebê está nascendo. E às vezes, o médico fala assim, o bebê nasceu, pega o seu bebê, pega. Ela pega o nenê, com aquela cara, de “nossa, aconteceu”. É como você falar para essa mulher: milagre existe.

Precisou de lei, protocolo, implicações do Ministério da Saúde, da ANS, e mesmo assim não respeitam as mulheres durante o parto, o querer da mulher. A mulher de antigamente não tinha informação, mas também ela não era tão violada como agora.

Eu vejo a dificuldade da mulher grávida ou no pós parto com a cobrança da sociedade patriarcal. Aquela obrigação de dar conta de tudo. De ser a super mulher. E na vida real sabemos que não é assim. Mas a sociedade, as corporações, querem que seja assim: que a mulher trabalhe sem parar, por exemplo, sem respeitar aquele momento. É aquela coisa “você sempre deu conta, agora só porque está grávida…”. E depois vem a cobrança com o corpo também: “ainda tá com barriguinha, né”.

Hoje a mulher tem mais espaço, tem palavra. Mas a última palavra ainda é a do médico. Já vi situações, por exemplo, de uma médica mulher indicar alguma coisa, e o marido ter mais segurança em escutar um médico homem, mesmo que seja o anestesista que está ali, ele vai preferir escutar o anestesista a obstetra, porque é um homem que está falando.

As pessoas que me cercam sabem que não podem contar comigo, marcar compromisso. Eu já faltei em aniversário meu, natal, ano novo, carnaval, copa do mundo. É a vida em stand-by. É um trabalho que cura, que transforma o seu ser, te leva para o lado feminino, da sensibilidade, da escuta, da conexão com as pessoas. Você se torna uma pessoa mais amorosa. Porque a ocitocina é um hormônio e os hormônios são voláteis, se espalham. Você vai se moldando no feminino sagrado. Eu sei que hoje eu sou uma pessoa melhor.

Os meus dois partos foram partos tradicionais, partos normais com todas as intervenções possíveis. Então foi uma experiência muito negativa. Principalmente depois que eu aprendi que não era assim que precisava ser. Por isso que eu me tornei doula. A minha filha eu não consegui tirar do sistema. Mas eu me tornei doula e mantenho meu ativismo e minha atuação, porque eu desejo mudar o panorama obstétrico para as minhas netas. Essa é a minha missão.

SOHA, 35 ANOS

Soha Chabrawi, 35 anos, cientista e pesquisadora na área de neurociência. Fez graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Neuropsicofarmacologia, pela UnB, e doutorado em Neurociência e Cognição, na Universidade Federal do ABC. Soha também é mãe de duas meninas de 6 e 4 anos. Foto: Tuane Fernandes

Quando eu era pequena, queria ser médica. Minha mãe assinava as revistas semanais e eu guardava os recortes que tinham a ver com saúde. Mas aí a gente vai crescendo, e várias ideias passam pela cabeça. E no fim vi que queria ir para a área da pesquisa, queria investigar, descobrir coisas. Foi aí que me veio: preciso ser cientista.

Eu sei que existe aqui no Brasil um preconceito com as mulheres muçulmanas. Muita gente nem imagina que eu vivo dentro de um laboratório. Minha origem é egípcia, e lá as mulheres são muito estudiosas. Para você ter uma ideia, a minha vó fez faculdade na área da saúde, a minha mãe é bióloga, então eu sempre soube que queria algo na área da ciência. Meu avô sempre falava para a minha mãe: “Primeiro você vai se formar, ter uma profissão e se sustentar dessa profissão. Depois você casa”.

Fiz graduação em Ciências Biológicas na UnB, em Brasília, e no segundo semestre do curso já fui para a neurociência: trabalhei com comportamento animal, relacionado com a questão de cores em primatas. Trabalhei com memória em primatas, comportamento alimentar. Enfim, aproveitei a oportunidade, porque na UnB eles tem um laboratório muito bom com primatas. Meu mestrado foi em Neuropsicofarmacologia. E assim que terminei eu casei e vim morar em São Bernardo do Campo, São Paulo.

Nesse ponto eu já estava grávida da minha primeira filha. Então quando descobri a UFABC, que tem uma área incrível de neurociência, eu achei maravilhoso. Mas ao mesmo tempo pensei que seria impossível conciliar a vida de mãe com os estudos.

E realmente não foi muito fácil.

Nos últimos anos do doutorado, muitas vezes eu tive que trazer minhas filhas aqui na universidade. Eles ficavam esperando eu terminar os experimentos. Quem trabalha com pesquisa sabe que não tem como a gente fazer meio período. Muitas vezes eu passava o dia inteiro aqui. Por isso, se você olhar na academia hoje, você não encontra duas pesquisadoras com filhos, ou que estão tentando ter filhos. Isso é uma questão. Falta sensibilidade. Eu sou pesquisadora, mas também tenho minhas filhas. E o sistema não respeita isso.

Teve um episódio que eu pedi para um professor para fazer uma prova do doutorado em um horário alternativo. Eu estava recém operada, depois de um parto traumático, com uma recém nascida em casa e a minha filha mais velha, de um ano e dez meses na época. Ele não deixou. Fiz a prova segurando uma no colo e com a outra sentada do meu lado, assistindo desenho no meu computador, porque não tinha com quem deixá-las. Fora a dor que eu estava sentindo, as meninas choraram e não entendiam o que estavam fazendo ali. Foi uma situação horrível, que podia ter sido facilmente evitada se o professor tivesse o mínimo de sensibilidade. Mas tudo bem, porque eu acabei tirando dez.

Fora isso, como aluna de pós graduação, você vira noites estudando, fazendo trabalhos. E conciliar isso com a maternidade é um grande desafio se o sistema não acolher essa mulher de alguma forma.


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