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Coordenador do grupo da OEA para migração venezuelana pede declaração de crise de refugiados

Por Alina DIESTE
AFP
David Smolansky, novo coordenador do grupo da OEA sobre migração venezuelana, fotografado em 24 de novembro de 2017 em Washington

A OEA ou a ONU devem declarar uma crise de refugiados pela migração venezuelana, o que permitirá arrecadar recursos de cooperação multilateral para atendê-la, disse à AFP o coordenador do grupo da OEA sobre este tema, David Smolansky.

Somolansky viajará esta semana com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, à Colômbia, onde além de se reunir com o presidente, Iván Duque, visitará a cidade de Cúcuta, que concentra grande parte do trânsito de venezuelanos.

A AFP conversou com Smolansky, um ex-prefeito venezuelano de 33 anos, exilado no ano passado nos Estados Unidos após fugir de seu país ao ser condenado a 15 anos de prisão por não reprimir manifestações opositoras ao governo de Nicolás Maduro:

- Cerca de 2,3 milhões de pessoas deixaram a Venezuela de 2014 a junho deste ano, segundo a ONU. Você disse que é um êxodo sem precedentes na América Latina. Como abordá-lo?

Acho que se deve declarar uma crise de refugiados na região. Isso pode ser feito pela OEA ou pela ONU. Isso agilizaria protocolos internacionais para oferecer maior ajuda aos que saíram da Venezuela contra a sua vontade. Criaria-se um fundo de cooperação multilateral para garantir atenção médica, alimentação, teto e capacitação. Seria um fundo organizado, transparente, para facilitar a situação daqueles que se refugiam. Também é preciso promover campanhas locais, regionais, de organizações civis, contra a xenofobia, que felizmente está concentrada. As manifestações minoritárias não podem ofuscar o esforço da maioria para ajudar.

- Quem contribuiria com esse fundo?

Os governos e os organismos multilaterais. Estados Unidos, Canadá, União Europeia e Noruega deram cerca de 100 milhões de dólares desde o início do ano, sobretudo à Colômbia.

- Seria institucionalizar a ajuda que já está sendo entregue?

Sim. Saíram da Venezuela mais de 13% de sua população desde a chegada de (Hugo) Chávez (em 1999). A ONU fala de 2,3 milhões desde 2014, mas muita gente foi embora antes. Estima-se que com essa diáspora prévia seriam cerca de 4 milhões. Percentualmente, o êxodo venezuelano se aproxima do cubano, estimado em 20% a 30% da população desde o começo da ditadura de (Fidel) Castro em 1959. E em termos absolutos, a Venezuela se aproxima da Síria: cerca de 6 milhões de sírios emigraram desde o início da guerra em 2011.

- O fluxo migratório venezuelano continuará?

Estima-se que cerca de 4.000 deixam o país diariamente e que poderiam chegar a 1,5 milhão somente em 2018. Quando eu estive em abril em Cúcuta, a Igreja católica fornecia pouco mais de 2.000 refeições diárias aos venezuelanos. Quando voltei em agosto davam 10.000. Enquanto a ditadura de Maduro continuar, permanecerá o êxodo maciço. Devemos restaurar a democracia não somente para frear esse movimento, mas para gerar incentivos para que aqueles que foram voltem. É importante que a região entenda que o regime de Maduro se tornou um elemento de desestabilização para a América Latina, e até mesmo uma ameaça.

- É preciso uma intervenção militar externa?

Quem tem que assumir uma posição institucional é a força armada venezuelana. Com isso me refiro a obedecer a Constituição da Venezuela, que diz que as força armada nacional deve garantir a segurança do território e da nação. Espero que os soldados de baixa e média patente, que hoje sofrem os mesmos problemas que o resto dos venezuelanos, possam assumir uma posição institucional que facilite uma transição democrática, pacífica, e que nos leve a um caminho de liberdade. Certamente, na fronteira da Colômbia e do Brasil vi muitíssimos soldados e policiais venezuelanos que haviam desertado.

- Maduro assegura que não há crise humanitária. Você tem falado com venezuelanos que pediram para ser repatriados?

Não. Mas não duvido que Maduro se aproveite de uma crise tão dramática e ponha gente ligada a ele para tentar confundir a opinião publica. Coisa que evidentemente não consegue, porque ninguém pode ocultar as tendas do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) no Brasil, os migrantes que chegam a pé na Colômbia, o colapso da fronteira do Equador e do Peru.

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