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De futuro presidente a aliado tóxico, Aécio Neves sacode poeira em fazenda de MG para dar a volta por baixo

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Fátima Meira/Futura Press

Foi há quatro anos, mas a impressão é que tudo aconteceu quatro décadas atrás. Derrotado em uma eleição apertada para Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) saiu da campanha de 2014 como futuro presidente da República.

Com o recall dos 51 milhões de votos, ele teria mais quatro anos de mandato como senador para se firmar como o grande líder da oposição a um governo prestes a desmoronar em meio à Lava Jato e à crise econômica, escondida da campanha como um dinossauro debaixo do tapete.

Tinha como opção cozinhar o próprio caldo em fogo brando ou aproveitar o tsunami político em torno do PT para acelerar o passo e tomar o atalho. Só para “encher o saco” do PT, conforme confessaria na fatídica conversa grampeada por Joesley Batista, o senador tucano encabeçou uma ação para cassar a chapa Dilma-Temer.

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Nos protestos pelo impeachment, ele contaria com um empurrãozinho de Eduardo Cunha (MDB), do MBL e de manifestantes pró-intervenção militar – tudo, em resumo, que ajudasse a derrubar o adversário com a desculpa de mudar o país.

No curto prazo, Aécio conseguiu o que queria. Era um dos muitos homens de terno que beijaram a mão de Michel Temer (MDB) na cerimônia que empossou o ex-vice-decorativo na Presidência da República. Seu partido, o PSDB, emplacou nomes no ministério e sentou na varanda à espera da faixa presidencial.

Estava tudo combinado, conforme outro áudio, este de Romero Jucá (MDB), com Supremo, com tudo. Caso contrário, o ex-governador mineiro seria o primeiro a ser “comido”.

Faltou combinar com a Lava Jato. Réu no Supremo por corrupção passiva e obstrução de Justiça, Aécio só não foi cassado graças à articulação de adversários que, pouco antes, usaram as famílias, a moral e os bons costumes como razões para tirar Dilma Rousseff da Presidência.

No fim do mandato e rejeitado por metade dos eleitores (44%, segundo pesquisa Ibope de abril de 2017), Aécio precisou atualizar as expectativas eleitorais como estratégia de sobrevivência. De futuro presidente do Brasil, o senador tenta agora se eleger deputado para manter alguma influência ou qualquer privilégio que o cargo permite.

A largada aconteceu em uma fazenda próxima à cidade mineira de Teófilo Otoni, e a animação competia com a de amigos e parentes que velavam algum ente querido próximo dali, a se fiar pela fisionomia algo sorumbática da meia dúzia de apoiadores em torno do tucano – entre os quais não estava nenhum figurão do que sobrou do PSDB.

“A fazenda fica a 5km de Teófilo Otoni, em frente ao motel Dallas, na BR-116 (depois do Posto Teófilo Otoni). Depois de chegar na entrada, basta seguir por 2km em estrada de terra até a fazenda”, dizia o texto do convite.

A poeira e o isolamento soam como um cenário simbólico para quem, há quatro anos, era oficializado com os votos de 447 dos 451 dos delegados do PSDB como candidato a presidente prometendo promover o “reencontro do Brasil” com controle da inflação e o combate à corrupção. “A minha responsabilidade, se já era grande, hoje é ainda maior. Se coube a JK [Juscelino Kubitschek], há 60 anos, permitir o reencontro do Brasil com desenvolvimento, coube a Tancredo [Neves], 30 anos depois, fazer o país se reencontrar com a democracia. Outros 30 anos se passaram, agora vamos conduzir o país à decência”, discursou, para aplausos de uma plateia eufórica.

Quatro anos depois, o candidato a novo Juscelino se tornou uma versão desbotada de Carlos Lacerda, outro ex-governador que nos anos 1960 topou tudo para derrubar os adversários, alimentou radicalismos e foi engolido pelo sistema que ajudou a pavimentar.

Em abril 2015, quase um ano antes do impeachment, alertamos, por aqui, sobre os riscos da opção pela fervura: “A única mudança que interessa é tirar o PT do poder. Parte dos tucanos vai na onda, talvez sem se dar conta de que, para avançar um centímetro, Aécio não encontrará terreno vago, mas mapeado pelo peemedebismo ascendente. Em 1993, a ausência de figuras como Eduardo Cunha levava o PMDB a aceitar o papel de tampão. Hoje as figuras são outras. As ambições, também. Aécio sabe disso, mas tenta ganhar tempo sem jogar para uma plateia que começa a se irritar”.

Dito e feito: Aécio hoje é um fantasma de si mesmo e Geraldo Alckmin (PSDB) patina para atingir dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto lideradas por quem já defendeu em público o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso e hoje ensina crianças a brincar de tiro no palanque.

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