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A eleição da desinformação: a mentira desperta mais atenção

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Pixabay

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

O Itaú é dono do Partido Novo. Guilherme Boulos é funcionário-fantasma da Universidade de São Paulo. Geraldo Alckmin é amigo de um líder do PCC. Lula tem R$ 108 milhões escondidos em Luxemburgo. Marina Silva era invasora de terras no Acre. Jair Bolsonaro usou ponto eletrônico no debate da RedeTV. Todas as frases são mentirosas, mas é provável que muitos brasileiros decidam seu voto para presidente da República com base em falsidades como essas. Circulando a uma velocidade impressionante, a desinformação é a marca das eleições de 2018.

Por décadas, jornalistas e analistas políticos se preocuparam com a falta de informações por parte dos eleitores. Sem saber exatamente quem eram os políticos e o que eles fizeram nos verões passados, como cada brasileiro poderia tomar uma decisão consciente?

Diante deste dilema, reportagens e campanhas para informar a população a respeito do sistema político e elucidar a importância do voto eram comuns. Houve também um foco relevante no histórico dos políticos. Projetos como o Excelências, da Transparência Brasil, lamentavelmente encerrado por falta de financiamento, mostrava aos eleitores quais processos cada parlamentar respondia na Justiça.

O problema da falta de informação era tão relevante no debate político brasileiro que tinha duas versões explicativas. A versão preconceituosa dava conta que a população mais pobre era “burra” e não sabia votar. A versão mais conspiratória atribuía a um complô das elites a estratégia de manter a população desinformada para se beneficiar disso.

Neste ano, como eleições em outros países e mesmo no Brasil têm demonstrado, o desafio de se informar tem um novo perigo: a desinformação. A mensagem geral mudou: o “se informe” deu lugar ao “cuidado ao se informar”. Não basta ter o interesse na informação. É preciso se certificar de que aquela informação é verdadeira.

Observar o fluxo das notícias e das “notícias” durante a campanha, em especial em grupos de WhatsApp, é interessante para revelar o tamanho do problema. Duas dinâmicas trabalham em conjunto para criar uma espécie de “caos informativo”.

A primeira delas é o repasse de informações mesmo sem ter detalhes da procedência. Boatos provavelmente acompanham a humanidade desde os primórdios da linguagem, mas a internet tornou tudo mais rápido e o WhatsApp e o Facebook, usados por 120 milhões e 127 milhões de brasileiros, respectivamente, segundo dados das próprias companhias, levaram este fenômeno a outro patamar.

Todo tipo baboseira circula por essas redes, e é razoável crer que a maior parte das pessoas compartilha conteúdos duvidosos de forma inocente, às vezes com a boa intenção de deixar os amigos e conhecidos “informados”. Outras vezes, o conteúdo vai à frente por “provar” um ponto do emissor. Assim, nas últimas semanas, “descobrimos” que Bolsonaro estariaa ganhando a eleição em todos os Estados ou que o filho de Lula teria um jato de R$ 50 milhões. Tudo mentira, 100% mentira.

A segunda dinâmica a agir nas redes tem pouco de inocência envolvida. Militantes partidários, boa parte deles pagos, abastece o ciclo natural do compartilhamento com conteúdo malicioso, com o objetivo de distorcer a realidade ou mesmo de criar uma realidade paralela.

Não por coincidência, as mentiras eleitorais andam de mãos dadas com o noticiário real. Na semana passada, o Ibope e o Datafolha divulgaram pesquisas importantes de opinião. Foi o que bastou para as redes ficarem abarrotadas de levantamentos falsos e enquetes que mostrariam “o que a mídia” esconde.

Um dos vídeos virais da semana passada trazia um eleitor “provando” que a pesquisa Datafolha a mostrar Lula com 39% das intenções de voto não teria sido registrada na Justiça Eleitoral e seria, portanto irregular. Na realidade, o eleitor fez uma busca errada no site do Tribunal Superior Eleitoral.

O desmentido veio no dia seguinte, mas não circulou com tanta força – exemplo de um aspecto preocupante em torno das notícias falsas: a verdade é costumeiramente menos sexy que a mentira e desperta menos a atenção das pessoas.

Soma-se a isso o fato de que parcela razoável da população vem nutrindo grande desconfiança diante das instituições que ao longo do tempo serviram para mediar e balizar o debate público: a imprensa e a academia. Costumeiramente elitistas, a mídia e os cientistas, naturais e sociais, muitas vezes têm dificuldades para desfazer teorias conspiratórias sobre a Terra ser plana, as vacinas conterem toxina e fazerem mal à saúde ou a ONU ter um plano “globalista / comunista”.

No caso das eleições, a situação piora muito por conta das ações dos partidos ou das campanhas. Na semana passada, em que as pesquisas eleitorais verdadeiras e falsas estavam circulando com rapidez, muitos candidatos aproveitaram para divulgar recortes específicos dos levantamentos de opinião que, em separado, mais confundem do que esclarecem.

Não é absurdo crer que a intenção seja justamente essa. O caso revelado no fim de semana é paradigmático. Uma agência de propaganda ligada ao PT pagou para que influenciadores digitais elogiassem candidatos petistas nas redes sem se identificar, o que é crime eleitoral. A ideia era promover uma engenharia social com base em mentiras, ou em meias verdades, de modo a convencer o eleitor a votar em determinados candidatos.

Embora saibamos que muitos adorem tratar o PT como único partido responsável por desvios, é mais do que provável que a prática é disseminada. Basta lembrar que o Movimento Brasil Livre, recentemente condenado pela Justiça Eleitoral por divulgar mentiras contra o petista Jaques Wagner, candidato ao Senado pela Bahia, foi financiado por partidos políticos durante a crise do impeachment, quando se auto-intitulava movimento “apartidário”.

As mentiras no cotidiano humano e na política estão longe de ser uma novidade – em 2010, circulou por email o boato de que Michel Temer, então vice de Dilma Rousseff, era satanista. Até hoje ele se defende da acusação. Em 2014, no dia do segundo turno, o país acordou com a notícia de que o delator Alberto Youssef teria sido encontrado morto na cadeia.

A novidade em 2018 é a velocidade do compartilhamento das notícias falsas. Apesar das diversas iniciativas contra as “fake news”, o processo eleitoral parece estar à mercê delas, o que pode comprometer inclusive a legitimidade do resultado, como deixa evidente a teoria conspiratória a respeito das “urnas fraudadas”.

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