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Damasco recupera mais da metade do reduto rebelde de Ghuta Oriental

Por Hasan MOHAMMED
AFP

O regime sírio reconquistou mais da metade do enclave rebelde de Ghuta oriental, a região a leste de Damasco que sofre intensos bombardeios desde 18 de fevereiro e que, só nesta quarta-feira (7), deixou dezenas de civis mortos.

Graças a uma ofensiva terrestre, o regime de Bashar al-Assad controla mais de 50% deste enclave, particularmente após a retomada das localidades de Beit Sawa e Al Ashari, de acordo com o diretor do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman.

Segundo um novo balanço do OSDH, "62 civis, entre eles seis crianças, morreram nesta quarta-feira, a maioria em bombardeios russos". Só na localidade de Humuriya, 18 pessoas morreram nestes ataques.

Desde 18 de fevereiro, mais de 860 civis morreram em Ghuta Oriental, entre os quais cerca de 200 crianças.

Em várias ocasiões, o OSDH acusou a Rússia de bombardear a região, o que Moscou desmente.

Apoiado pela Rússia, o governo sírio não esconde a determinação de reconquistar o último bastião rebelde próximo de Damasco, onde quase 400.000 pessoas são vítimas de um cerco desde 2013, que provoca a falta de alimentos e de remédios.

Suas forças avançavam para Duma, a principal cidade do enclave, e as localidades do oeste da região, após ter retomado setores do leste e do sudeste do bastião, segundo o OSDH.

O objetivo do regime, segundo a ONG, é partir o enclave em dois, isolando o setor norte, onde fica a grande cidade de Duma do sul.

A ofensiva continua, apesar da resolução aprovada no fim de fevereiro pelo Conselho de Segurança da ONU, que solicitou um cessar-fogo de 30 dias em toda a Síria para facilitar a distribuição de ajuda humanitária e evacuar civis.

- "Fase de horror" -

Diante do desrespeito desta disposição, o Conselho de Segurança se reuniu a portas fechadas nesta quarta-feira para discutir uma possível participação da ONU na expulsão dos terroristas de Ghuta, segundo diplomatas.

Os membros do Conselho pediram de forma "unânime" que o comboio humanitário previsto para a quinta-feira "possa chegar a Ghuta" e que a ajuda entre "todos os dias", informou um diplomata que pediu para ter sua identidade preservada.

Homens mulheres e crianças continuam morrendo enquanto falamos, asseguraram funcionários da organização durante o encontro.

Os membros do Conselho "expressaram sua preocupação com a situação humanitária" e "reafirmaram seu pedido de uma aplicação" do cessar-fogo, declarou ao fim do encontro o enviado holandês, Karel van Oosterom, que preside o Conselho de Segurança em março.

A reunião havia sido convocada em caráter "de urgência" por Reino Unidos e França, com o objetivo de pressionar a Rússia.

Assim como previsto na resolução aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança em 24 de fevereiro, espera-se para a segunda-feira uma declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres, sobre o respeito à trégua na Síria e uma nova reunião dedicada ao país.

Falando por videoconferência de Genebra, o enviado especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, destacou sua disposição de agir como intermediário para tirar "grupos terroristas" do leste de Ghuta, segundo uma fonte diplomática.

Mais cedo, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad al-Hussein, havia acusado o regime sírio de planejar o "apocalipse" em seu país e afirmado que o conflito que assola a Síria desde 2011 entrou em uma nova "fase de horror".

Um correspondente da AFP em Duma reportou explosões nos subúrbios, que forçaram os civis a fugir e se refugiar na cidade.

O cenário de Ghuta lembra o que aconteceu em 2016 em Aleppo (norte), onde os rebeldes abandonaram a região após o cerco e os bombardeios devastadores do regime e de Moscou.

A trégua diária no reduto rebelde prevê um corredor para permitir aos civis deixarem o enclave. Moscou assegurou na terça-feira que os rebeldes também estão autorizados a partir.

Os dois principais grupos rebeldes, Jaich al Islam e Faylar al Rahman, negaram estar em contato ou negociando com Moscou.

- Ajuda para 70.000 pessoas -

A área rebelde representa apenas um terço da ampla região agrícola de Ghuta Oriental. O restante é controlado pelo regime.

Apesar dos combates e da ofensiva aérea, a ONU tentará enviar na quinta-feira um novo comboio de ajuda humanitária. O de segunda-feira teve de encurtar a missão após os bombardeios contra Duma.

Espera-se que a ajuda médica e alimentar satisfaçam as necessidades de 700 mil pessoas, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha).

"Ainda não sabemos quantos caminhões haverá [no comboio desta quinta-feira], mas levarão o restante da ajuda para 70.000 pessoas", declarou à AFP uma porta-voz da Ocha em Damasco, Linda Tom.

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