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O Brasil cruzou a linha da barbárie. Pior que está, fica

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Reprodução/TV Globo

Quem venceu a entrevista com o candidato?

Eu me fiz essa pergunta ontem. Você se fez essa pergunta ontem. Meus amigos fizeram essa pergunta ontem. Os apoiadores dos candidatos entrevistados no Jornal Nacional fizeram essa pergunta.

E se eu, você, meus amigos e apoiadores dos candidatos fizeram essa pergunta é porque 1-) para quem imagina não ter nada a perder, o jornalismo virou o último bastião a ser derrotado pela barbárie; 2-) para quem já percebeu o quanto perdemos e ainda temos a perder, o jornalismo virou o último bastião para conter a barbárie.

Lamento dizer, mas pode ser tarde demais. E talvez tenha ficado tarde demais porque perdemos a noção do que é o jornalismo, do que é lacração, do que é eleição e do que faz de um país um arranjo de forças democráticas ou não. Um bom termômetro é a linguagem do embate. Venceu quem? Para quem?

Quando alguém defende em rede nacional, durante meia hora, a ditadura que atrasou o país em 21 anos e a condecoração de quem promove extermínio em um país já devastado pela cultura do extermínio, sem qualquer possibilidade de explicar a lógica de propostas sobre como o armamento civil pode conter o índice já elevado de violência contra mulheres, crianças e adolescentes, a pergunta que se deve fazer não é o que ainda se pode fazer, mas como chegamos até aqui.

Meia hora de entrevista em rede nacional, para quem, por pura incapacidade de articulação política, terá dez segundos para explicar (ou esconder) a própria alucinação na propaganda na TV, equivale a 180 dias no horário eleitoral.

Não é pouco. O latifúndio dedicado à alucinação, com direito a lançar espantalhos, como uma inexistente distribuição de cartilhas para supostamente destruir as famílias, só se tornou possível porque o candidato se tornou um dos mais bem colocados na corrida eleitoral.

Bastou dizer que era diferente de tudo isso que está aí, embora esteja “aí” há três décadas, com uma produção parlamentar medíocre, contradições no uso do dinheiro público, agressões às populações mais vulneráveis da sociedade e discursos rasos sobre como resolver “tudo isso que está aí” na base do grito.

Acontece que “tudo isso que está aí” não é o que “estava aqui” quando virou mote político dizer que pior do que estava não ficava. O slogan não era só trocadilho de palhaço, mas estratégia para colocar na Câmara o deputado mais votado em São Paulo.

E o que estava ali? Em 2010, quando essa expressão surgiu pela primeira vez, o Brasil registrava crescimento de 7,5% e fechava o ano com índice de desemprego a 6,7%, a menor taxa em oito anos. Hoje, com reforma trabalhista, com Supremo, com tudo, é o dobro disso.

Estava tudo perfeito? Não. O Brasil seguia corrupto, desigual e nas mãos de uma oligarquia que era apoiada e oferecia apoio a qualquer governo de turno, desde que governo. Dava para melhorar, e muito.

Antes de Junho de 2013, quando uma multidão tomou as ruas para manifestar sua revolta, o país ainda engatinhava na sua tentativa de minimizar um déficit histórico entre o que arrecadava e o que entregava em serviços públicos. De lá para cá alguém andou?

Exatos seis anos antes de o favorito à Presidência defender em rede nacional a ditadura de quatro décadas atrás, a maior polêmica nos jornais era a instituição de cotas para universidades federais, projeto sancionado em agosto de 2012. Para muitos o sistema nem era a melhor forma de avançar na questão das desigualdades. Mas avançar na questão da desigualdade era ainda uma prioridade, independente da forma, e não papo de comunista.

Desde então, cansamos de ouvir na sacada de áreas gourmet pessoas em boas condições financeiras dizendo que este país não ia pra frente, que tudo estava perdido, que tudo precisava mudar.

Lideranças que em condições normais de pressão e temperatura registrariam traços nas pesquisas de intenção de voto começaram a ganhar espaço. Apostaram no medo e na ideia de que pior que estava não ficava. Não davam uma linha de contribuição para qualquer tipo de avanço, mas passaram a denunciar supostos planos comunistas para destruir as famílias, os empregadores e os esforços em rachar um Brasil unificado e sem conflitos desde a escravidão.

Tudo muito parecido com o que se dizia, nas marchas com Deus, pela família e pela tradição, no período que antecedeu o golpe militar. Havia um inimigo e um inimigo que precisava ser extirpado.

Os arautos do apocalipse, lá como cá, estavam em jornais, tribunas, casernas. Décadas depois, se fartaram em programas de humor, pegadinhas de jornalismo/entretenimento do tipo CQC, discussões de auditório e policialescos. Ganharam evidência. Importância. Era engraçado até começarem a ser levados a sério.

Pior que estava não ficava, e com este argumento cruzamos o tiroteio da campanha de 2014 imaginando que o pior que poderia acontecer era perder uma eleição para o PT, para Marina Silva ou para o PSDB. Adversários, ainda que contidos no campo democrático, passaram a ser alvejados como inimigos. Racharam. A ponto de o resultado ser contestado como uma brincadeira de quem perdeu o jogo e decidiu furar a bola.

Passou, então, a ser normal contestar a legitimidade do voto. A botar em votação as pautas-bomba. A exigir, com a faca no pescoço, um cavalo de pau na cartilha eleita pela maioria da população. Passou a ser comum omitir a crise que se avizinhava e rasgar compromissos de campanha.

Veio a Lava Jato e, com ela, um portão aberto para o oportunismo político de quem governava e de quem queria governar. Todos tinham teto de vidro, mas de repente ficou comum contestar/vitaminar decisões judiciais, deslegitimar/comemorar investigações conforme a plateia.

Até que, na guerra de fronteiras borradas entre poderes, passou a ser comum proteger aliados, jogar inimigos aos leões e atravessar fronteiras da legalidade. A ponto de ninguém mais saber o que era abuso e o que era isenção.

Na gritaria, grampos ilegais e prisões com base em delações forçadas passaram a ser notícia festejada e objeto de luta política, e não de combate à corrupção que, sim, precisava ser combatida. Era o preço a ser pago, mas esse preço, ninguém percebeu, ficou alto demais: quando o feitiço virou contra o feiticeiro, apenas quem permaneceu à margem do regabofe, antes em razão da mediocridade do que pela moralidade, saiu ileso.

Àquela altura, o país estava realmente rachado, sem qualquer possibilidade de unir forças em torno de um projeto político que de fato superasse a crise econômica, catapultada por fatores internos e externos, e os vícios de um sistema democrático que pedia aperfeiçoamento, e não golpes de machado.

Da terra arrasada brotaram mitos. Blefes. Discursos prontos. Promessas sem qualquer base na realidade. E a linguagem do confronto.

Mas a realidade era um país tão arrebentado que, nas cenas finais, virou palco da briga de torcidas, daquelas que sujam a arquibancadas de sangue e não fazem qualquer arranhão ao jogo jogado.

Ainda assim havia um país aqui. Com suas imperfeições, mecanismos de aperfeiçoamento e algum respeito à soberania popular, hoje assustada e, quanto mais assustada, mais alimentada por espantalhos e desinformação.

De tanto palanque, o medo venceu a esperança, que simplesmente desapareceu de qualquer roda de conversa. Otimismo virou muleta de otário: vence quem prova em rede nacional quem está mais calibrado para atirar. Não é de se estranhar que prometer matar mais virou a solução até para a tosse. A morte virou ativo e também venceu o medo.

Os problemas da economia, seja lá quem os causou, são, sim, um grande desfio a ser enfrentado por quem assumir a Presidência em 2019. Mas não é o único, e é uma pena que isso só será percebido quando os “inimigos” agora declarados, como políticos e jornalistas que ainda podem falar ou escrever sem a preocupação de desagradar o poder, começarem a desaparecer, como na ditadura tão defendida pelo candidato mais bem posicionado nas pesquisas.

Já era tempo de alguém perceber que pior do que estava ficou. E que não estamos nem perto de encontrar o fundo.

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