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O campo minado de Fernando Haddad até o 2º turno

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Cassiano Rosário/Futura Press
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Mesmo quem acompanha eleições há algum tempo tem dificuldade em compreender por que o PT levou tanto tempo para oficializar o que já eram favas contadas há meses: o candidato do partido não é Lula, o candidato é Fernando Haddad.

A estratégia parece inverter a ansiedade de quem, às vésperas da votação, insiste que, agora, não há tempo a perder. Pelo contrário, é como se não houvesse tempo a ganhar.

O ex-prefeito de São Paulo terá poucos dias de exposição, o que significa menos tempo como alvo das pancadas que certamente virão.

Antes mesmo da oficialização, ele já demonstrava potencial de crescimento nas pesquisas. No Datafolha, ganhou cinco pontos em relação ao último levantamento. Aparece agora com 9% das preferências.

O mesmo levantamento apontou que apenas 39% mencionaram espontaneamente o nome de Haddad quando perguntados sobre quem é o nome apoiado por Lula na disputa; 45% não souberam responder.

A boa notícia, para ele, é que um em cada três eleitores (33%) se dizem dispostos a votar “com certeza” no nome apoiado por Lula, e 16% podem pensar no caso.

A má: 49% não votaria no candidato ungido por Lula de jeito nenhum.

Haddad surge, assim, como um bom candidato para o primeiro turno, mas um nome com alta dificuldade para se viabilizar na segunda etapa, quando a eleição passa a ser decidida por um “não”; de um lado, o antipetismo, de outro, o antibolsonarismo.

Ciro Gomes (PDT), hoje seu principal adversário no campo progressista, tem desempenho oposto: se chegar ao segundo turno, torna-se um candidato altamente competitivo, sem a resistência hoje depositada no PT. Difícil vai ser, com a previsível divisão de votos, chegar.

Tudo, porém, depende de como o candidato petista vai se apresentar ao eleitor e como ele será associado às forças em jogo. A rejeição a ele, por exemplo, é relativamente baixa: 22%, contra 43% de Bolsonaro.

Isso tende a mudar à medida que ele começar a dar as caras a tapa na campanha. Um naco das intenções de voto para Lula o colocam no segundo turno.

Mesmo assim, ele precisará fazer um exercício de ligação direta entre os anos Lula, encerrados com crescimento de 7,5% do PIB em 2010, quando era ministro da Educação, e o momento atual.

O cenário para seu primeiro pronunciamento como candidato oficial, em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba, resume a narrativa do partido até aqui: a de que, preso e impedido de concorrer, Lula é vítima de uma injustiça, e essa justiça pode ser corrigida nas urnas com a eleição de seu escolhido.

Entre o passado distante e o presente de contingências, no entanto, há as contradições da memória recente. Haddad, que não conseguiu se reeleger em São Paulo, teve o governo avaliado como ruim ou péssimo por 48% dos paulistanos na reta final do mandato. Perdeu a disputa para João Doria (PSDB) ainda no primeiro turno.

Também está na memória recente dos eleitores a escolha de Dilma Rousseff como sucessora de Lula, que contou com a articulação para a composição de uma chapa de gosto duvidoso com o PMDB, hoje MDB, de Michel Temer. O fim da história todo mundo conhece.

Em maio de 2016, quando Dilma foi afastada da Presidência, a inflação acumulada no ano estava próxima de 10% e o desemprego passava de dois dígitos. Naquele ano o PIB recuaria 3,2%. O Brasil entrava na pior recessão de sua história.

Tudo isso, além dos escândalos na Petrobras, certamente será usado pelos adversários de Haddad durante os debates e a propaganda na TV. A pergunta fundamental é se, com o padrinho preso, haverá tempo e força política para se apresentar aos eleitores como o real candidato de Lula.

Neste momento ganhará atenção as estratégias de Ciro Gomes e Marina Silva, também ex-ministros de Lula, em bater no ex-aliado sem afastar os votos que herdariam do ex-presidente.

Geraldo Alckmin (PSDB), que até aqui não decolou, certamente rivalizará com Bolsonaro no papel de anti-PT-raiz.

Haddad pode esperar pancada de todos os lados. O caminho até o segundo turno é plausível, mas é também um campo minado.

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