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O evangelho segundo Jair Bolsonaro

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Bolsonaro diz que Bíblia prega o armamento

Jair Bolsonaro não está só disposto a reescrever o que declarou no passado para se eleger presidente. Está disposto também a reescrever a Bíblia.

No debate de sexta-feira, na Bandeirantes, o candidato do PSL tentou ensinar Marina Silva (REDE), mulher e evangélica, a ler a Bíblia para defender armamento – não sem antes dizer que ela, mulher e mãe, não sabia o que era o medo de mães e mulheres diante das drogas.

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“Leia o livro de Paulo”, sugeriu.

Na passagem, conforme o deputado explicaria no dia seguinte ao jornal O Globo, Paulo exortaria os cristãos a venderam as capas e comprarem espadas. “Está na Bíblia”, afirmou o candidato, para quem o livro sagrado é uma “caixa de ferramenta”.

A passagem citada não está em Paulo, mas no Evangelho de Lucas. Para o candidato, tanto faz. O que valia era a defesa intransigente do direito às armas. “É que naquele tempo não tinha arma de fogo, se não com toda certeza seria (em vez de espada) ponto 50 e fuzil”, explicou.

Segundo o presidenciável, também candidato a teólogo, Jesus não foi totalmente passivo e um exemplo disso foi a expulsão dos vendilhões do templo. “Se tivesse arma de fogo, seria usada.”

A declaração, prontamente rebatida por lideranças religiosas, entrou no anedotário do deputado conhecido pela disposição em torturar fatos complexos para vender soluções baratas. Como dá pra ver, vale tudo, até reescrever a Bíblia.

Nessa versão particular do livro sagrado, os apóstolos não seriam mensageiros da palavra, mas uma facção armada. E Cristo, se repetisse as palavras de Bolsonaro – para quem pobre só é útil para criar, se proliferar e se acomodar com Bolsa Família – não teria jamais multiplicado pães e peixes entre os seguidores: diria que o mais leve deles pesava sete arrobas e espalharia a roda com tiros ao alto. Argumentaria que trabalhou para conseguir os pães e não era obrigado a sustentar vagabundo.

O eleitor, a essa altura, provavelmente se pergunta o que diria o líder imaginado por Bolsonaro se, em vez de declarar “deixai vir a mim as crianças, pois delas é o Reino dos céus”, pudesse coloca-las no colo e ensinar a atirar.

Ou, diante dos seguidores convictos de que só o inimigo peca, sobretudo se for comunista ou se parecer com um, o que eles fariam diante de Maria Madalena se ouvissem: “Dispare a primeira rajada quem nunca pecou”.

Na versão armamentista da Bíblia, a sorte dos personagens não seria definida pelas ideias de compaixão, misericórdia, capacidade de amar e perdoar – as bases do pensamento cristão. A sorte seria definida em julgamentos de critérios estéticos sobre quem merece ou não ser estuprada.

Não sei que Bíblia Bolsonaro e seus seguidores dispostos a armar o país estão lendo.

A que eu conheço não dá tanta margem para atualizações e é clara quando se refere a “falsos profetas” engajados em apresentar “grandes milagres e prodígios para, se possível, iludir até mesmo os eleitos”. Mateus, capítulo 24, versículo 24.

Matheus Pichonelli é jornalista e cientista social, com passagens por veículos como Folha de S.Paulo, iG, Gazeta Esportiva, CartaCapital e colaborações para os sites The Intercept Brasil, UOL e os jornais Lance! e O Globo.

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