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Oferta de diálogo de Pyongyang, um grande desafio para Trump

Por Andrew BEATTY
AFP
O líder norte-coreano Kim Jong-un (esq.) e o presidente Donald Trump

A inesperada oferta de diálogo sobre o programa nuclear de Pyongyang se apresenta como o maior desafio global para o governo Donald Trump, que mostra uma rara cautela após suas reiteradas ameaças. No Salão Oval, o presidente de 71 anos se mostrou excepcionalmente sóbrio.

"Não quero falar muito sobre coisas que ainda não conhecemos", desconversou Trump, à espera de mais informações sobre a proposta da Coreia do Norte.

Apesar da ausência de detalhes, Pyongyang admitiu que estaria disposta a congelar seus testes nucleares em troca de negociações com os Estados Unidos.

O líder norte-coreano Kim Jong-un estaria considerando, inclusive, destruir suas armas nucleares, se Washington abandonar seu objetivo de facilitar uma mudança de regime no país e as ameaças de uma eventual ação militar.

Esta semana, funcionários de alto escalão do governo sul-coreano, que transmitiram a mensagem de Kim, assim como representantes do Japão e dos Estados Unidos, passaram por Washington para trocar opiniões.

Trump classificou a aparente abertura da Coreia do Norte como uma oferta "muito positiva", embora seu governo mantenha dúvidas a esse respeito.

O diretor nacional de Inteligência, Dan Coats, mostrou-se reticente, ao declarar no Congresso que é "bastante cético quanto a tudo isso".

"Provavelmente é um avanço importante, mas eu tenho sérias dúvidas", afirmou.

Outro figurão do governo que pediu para não ser identificado lembrou que "há 27 anos de história, em que violam cada um dos acordos que fizeram com os Estados Unidos".

- Opções abertas -

A disposição de Trump - pelo menos por enquanto - de recuar em sua retórica de confronto é, em parte, oportunidade e, em parte, necessidade.

Diretor do Conselho de Segurança Nacional para a Ásia durante o governo Barack Obama, Evan Medeiros disse que é provável que Pyongyang - que ainda não falou da oferta publicamente - esteja tentando provocar um afastamento entre Seul e Washington.

"Sou muito cético", disse ele à AFP.

"Pyongyang usará as conversas para ganhar tempo e tirar vantagens", reforçou.

Estados Unidos e Coreia do Sul nem sempre estão exatamente na mesma sintonia: o governo do presidente Moon Jae-in favorece a moderação, enquanto Washington privilegia uma política mais dura.

Se Trump der um golpe prematuro na mesa de negociações, isso aumentaria enormemente a tensão nas relações com Seul, podendo, talvez, significar o fim das das sanções internacionais tão rigorosamente impostas.

Também estimularia as divisões dentro do próprio governo Trump, com o conselheiro de Segurança Nacional, H.R. McMaster, podendo adotar uma linha mais dura em favor de uma ação militar do que o secretário da Defesa, Jim Mattis.

Depois de perder vários de seus assessores mais próximos, incluindo o conselheiro econômico Gary Cohn, Trump dificilmente poderá assimilar mais renúncias por divergências.

Mesmo que a Coreia do Norte realmente queira negociar, não está claro, segundo Medeiros, se Trump - que não tem embaixador em Seul, perdeu seu enviado especial sobre temas nucleares e está afastado do Departamento de Estado - tem capacidade de se comprometer com conversas sérias e, ao mesmo tempo, manter intacta a coalizão que pressiona Pyongyang.

A maioria dos analistas afirma que a Coreia do Norte ganhou uma batalha decisiva na opinião pública sobre os Estados Unidos durante os Jogos Olímpicos de Inverno no mês passado, quando o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, pareceu disposto a falar com Pyongyang, mas, finalmente, foram os coreanos que se reuniram entre si.

- Opções militares -

As outras opções de Trump são extremas e com resultados duvidosos.

Funcionários americanos de alto escalão admitem em caráter privado que um ataque arrasador para dissuadir Kim de continuar seus testes balísticos e nucleares nunca foi seriamente considerado.

Na realidade, afirmam, qualquer ataque contra a Coreia do Norte exigiria uma força militar esmagadora e quase certamente poria um efetivo de 30.000 militares americanos e milhões de civis aliados na Coreia do Sul em risco imediato.

A diplomacia parece ser a melhor opção, mas Trump deixou claro que - ao contrário de seus antecessores - não deixará que a situação se "consolide".

Na terça, ele teria tido conversas com o ex-embaixador na ONU John Bolton, que substituiria McMaster e, recentemente, defendeu "atacar primeiro" a Coreia do Norte.

Na primeira visita de Trump ao Salão Oval em novembro de 2016, o então presidente Obama o advertiu de que poderia ter de tomar uma decisão fatídica em relação à Coreia do Norte, segundo fontes próximas.

Como George W. Bush aprendeu no Iraque e no Afeganistão, e Richard Nixon, no Vietnã, as guerras têm sua maneira de definir Presidências.

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