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Por um novo modelo de debate eleitoral

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Guilherme Rodrigues/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

Passados os dois primeiros debates presidenciais das eleições de 2018, ficou claro, como tem ocorrido nos últimos pleitos, que os formatos desses programas fazem pouco para ajudar o eleitor a definir seu voto. Engessados pelas emissoras de televisão e pelas assessorias partidárias, os debates favorecem os candidatos sem conteúdo e impedem o aprofundamento de discussões decisivas para o país.

Como se viu na Band em 9 de agosto e na Rede TV no dia 17, as emissoras continuam apostando no modelo de fazer os candidatos resumirem suas ideias a respeito de temas complexos como segurança pública ou a crise fiscal em um minuto ou um minuto e meio, com réplica de 30 ou 45 segundos.

É um tempo simplesmente ridículo, que impede qualquer esclarecimento a respeito do assunto proposto ou mesmo a demonstração das diferenças entre pensamentos divergentes. Menos efetivo que isso talvez apenas o horário eleitoral para o Legislativo, nos quais os candidatos a deputado estadual, distrital e federal têm cinco segundos para dizer o nome e a causa que apoiam.

Para piorar, nos debates presidenciais os candidatos costumeiramente desviam do tema e os apresentadores, temendo serem tachados de partidários, raramente intervêm.

Isso deriva da mania da imprensa brasileira de perseguir objetivos impossíveis como neutralidade ou isenção em detrimento da honestidade. O prejudicado é, unicamente, o eleitor, que se vê diante de uma discussão inócua, na qual o formato conta mais que o conteúdo.

A Rede TV tentou tirar os candidatos de suas zonas de conforto ao colocá-los, dois a dois, para debater em uma espécie de palco (ou ringue), no qual ambos podiam ficar bem próximos. A Globo fez algo em algumas ocasiões no passado. Certamente é interessante para o público ver os políticos desconfortáveis, mas isso é pouco para ajudar o eleitor diante do reduzido tempo de discussão.

Uma medida que ajudaria em muito a melhorar a qualidade desses programas seria as emissoras agirem em rede e promoverem debates temáticos ao longo do período eleitoral.

Logo após o registro das candidaturas, os executivos de televisão, rádio e internet e os representantes dos partidos poderiam elaborar um calendário de debates e sortear os temas a serem discutidos em cada uma das datas. Isso daria tempo para os candidatos se prepararem e para o eleitor escolher aqueles programas que lhe interessam mais.

O debate temático obrigaria os concorrentes a estudar os objetos de discussão e estar prontos para falar 15 ou 20 minutos sobre cada um deles. Estratégias como citar a Bíblia, fazer colinha na mão, repetir propostas e slogans a cada resposta ou falar lentamente torcendo para o tempo acabar, como se viu esse ano, seriam pouco efetivas. Os candidatos despreparados seriam expostos e, aí sim, o eleitor teria mais subsídios para decidir em quem votar.

Neste ano, incluindo os debates já realizados, serão dez programas – há mais um em agosto, seis em setembro e outro em outubro. Nessas dez datas, em vez de discussões gerais, temas corriqueiros como segurança pública poderiam ser discutidos à fundo.

Platitudes como “vamos armar a população” e “é preciso reduzir a desigualdade” teriam de dar lugar a propostas sobre monitoramento de fronteiras; combate ao tráfico de armas e drogas; melhorias nos presídios; aumento salarial aos policiais; desenvolvimento do sistema de investigação de homicídios, que hoje funciona de maneira precária, entre vários outros aspectos.

Assuntos com a economia poderiam ser discutidos em dois programas consecutivos. Um debate seria a continuação do outro.

Ao mesmo tempo, temas que são geralmente negligenciados nos debates, como meio ambiente, poderiam ser tratados. Chega a ser uma aberração que, como ocorreu na Band e na Rede TV, os candidatos nem sequer citem questões ambientais em dois programas com cerca de três horas de duração cada um.

Vejamos: em 2015 ocorreu o maior desastre ambiental da história do país, quando a mineradora Samarco, empreendimento conjunto da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP, destruiu o Rio Doce e extinguiu o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). Três anos depois, a situação no local segue caótica, e os presidenciáveis nada têm a dizer.

Ao mesmo tempo, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer e cerca de um terço dele ocorreu em áreas protegidas, como reservas, parques e florestas nacionais. Com o mundo inteiro discutindo as mudanças climáticas, o que fará o próximo presidente do Brasil? A julgar pelos debates, nada.

Outro tema relevante que ganha atenção quase zero são as relações internacionais do Brasil. Donald Trump iniciou uma guerra comercial, a Venezuela pode se tornar um Estado falido e o Oriente Médio continua se afundando em conflitos intermináveis. Qual papel o país exercerá neste mundo com cada presidenciável no Planalto? Não ficamos sabendo.

A democracia brasileira é jovem e passa por seu maior momento de estresse em 30 anos. Esperar uma reforma política que virá para resolver todos os problemas é um delírio. É preciso se concentrar em medidas que possam incrementar o sistema aos poucos. As emissoras de rádio e televisão – que são concessões públicas, é bom lembrar – têm a possibilidade de melhorar os debates à mão. Não fazê-lo é perpetuar um modelo ineficiente e que contribui para distanciar o eleitor de seus representantes.

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