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Quais são as imprecisões recorrentes dos presidenciáveis? Faça o teste e descubra

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Arte/Lupa

Chico Marés, Clara Becker, Leandro Resende

Edição: Natália Leal

A propaganda eleitoral só está liberada a partir desta quinta-feira (16), mas o bloco dos candidatos à Presidência da República está nas ruas faz tempo. A Lupa checou dezenas de falas públicas, entrevistas e debates dos quais participaram os presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto, e concluiu que muitos deles cometeram os mesmos equívocos em mais de uma ocasião. Você se lembra de quem partiram esses erros? Faça o teste a seguir e, depois, confira a checagem completa.

Veja as checagens completas:

“[Não recebo] nem verba indenizatória”

Alvaro Dias, candidato à Presidência pelo Podemos, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 4 de junho de 2018

VERDADEIRO, MAS

Alvaro Dias não utiliza a verba indenizatória do Senado desde fevereiro de 2017, quando pagou cerca de R$ 500 em hospedagem na cidade de Marília, no interior de São Paulo. A verba indenizatória é uma parte da Cota Para Exercício da Atividade Parlamentar que pode ser usada para aluguel de imóveis, veículos, e custeio do gabinete. A outra é a verba de transporte aéreo – que corresponde a cinco trechos de ida e volta de Brasília à capital do estado pelo qual o senador se elege. No total, Alvaro Dias gastou R$ 365.452,21 da Cota nesta legislatura, entre 2015 e agosto de 2018 – 95% disso foi com passagens aéreas. Veja aqui a lista completa e atualizada dos gastos.

A Cota foi disciplinada pelo Senado em 2011. Alvaro Dias está em seu quarto mandato como senador – o segundo desde que essas verbas foram regulamentadas. Logo, em oito anos de vigência da Cota, ele não a utilizou apenas em dois – 2017 e 2018. Mesmo assim, no debate da Band, na última quinta-feira (9), o senador voltou a afirmar que não recebe a verba indenizatória.

Procurado, Alvaro Dias não respondeu.

“O Lupi não é processado por nada. (…) Não responde por nada, por absolutamente nada, não há nenhuma representação contra ele”
Ciro Gomes, candidato à Presidência pelo PDT, em entrevista ao Central das Eleições 2018, na Globonews, no dia 1º de agosto de 2018

FALSO

Presidente do PDT, atual partido de Ciro Gomes, Carlos Lupi foi ministro do Trabalho no primeiro ano do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por improbidade administrativa em 2012. Segundo o MPF, em 2009, Lupi teria viajado em um avião pago pela entidade sem fins lucrativos Centro de Estudos e Promoção Social (Cepros). Mais tarde, o Cepros assinou contrato com o ministério que Lupi comandava. A ação tramita na 6ª Vara Federal de Brasília.

Durante a pré-campanha eleitoral, Ciro Gomes insistiu que Lui não respondia a processos na Justiça em ao menos duas ocasiões. Além da afirmação feita na Globonews, o candidato falou sobre o assunto no dia 18 de junho, quando foi sabatinado pela rádio Jovem Pan.

Procurado, Ciro Gomes não respondeu.

“[No Brasil] São 17 mil quilômetros de fronteira seca com os maiores produtores de drogas do mundo”

Geraldo Alckmin, candidato à Presidência pelo PSDB, em entrevista no evento GovTech, no dia 7 de agosto de 2018

EXAGERADO

Os 17 mil quilômetros citados por Alckmin equivalem à fronteira terrestre total do Brasil (mais precisamente, 16.886 quilômetros), e não à fronteira com grandes produtores de drogas. Segundo relatório de estratégia internacional de combate às drogas do Departamento de Estado dos Estados Unidos e o Relatório Mundial sobre Drogas de 2017, da ONU, três países que fazem fronteira com o Brasil são grandes produtores de cocaína: Colômbia, Peru e Bolívia. Com eles, a fronteira brasileira é de 8.062 quilômetros.

A Lupa checou três vezes essa afirmação de Alckmin: em entrevista ao programa Roda Viva, em julho, durante a participação dele no Central das Eleições, da Globonews, no dia 2 de agosto, e, uma semana depois, em entrevista a Luciano Huck no evento GovTech Brasil.

Procurada, em 9 de agosto, a assessoria do candidato disse, em nota, que “”Alckmin ilustrava a dimensão do problema e em momento algum afirmou que o Brasil faz fronteira apenas com grandes produtores de drogas”. A assessoria ressaltou, ainda, que “estudo da Polícia Federal aponta, aliás, que droga também entra pela Argentina, Uruguai e Suriname”.

“Os governos do PT geraram 20 milhões de empregos no país”

Fernando Haddad, candidato à vice-presidência pelo PT, no “Debate com Lula”, no dia 9 de agosto

VERDADEIRO, MAS

De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, a diferença entre o número total de pessoas empregadas entre 2002, último ano antes de Lula tomar posse, e 2015, último ano completo do PT no governo, era de 19,4 milhões.

Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), também do Ministério do Trabalho, mostra que, durante os governos do PT, 14,1 milhões de empregos de carteira assinada foram criados.Trata-se da soma dos empregos gerados entre o primeiro mês do governo Lula (janeiro de 2003) e o último mês completo do governo Dilma Rousseff (abril de 2016).

Há duas diferenças importantes entre essas duas bases de dados. O Caged mostra apenas empregos no setor privado, enquanto a Rais também contabiliza empregados na administração pública. Entre 2002 e 2015, foram criados 2,4 milhões de novos postos de trabalhos públicos. Além disso, a  Rais é anual – e por isso não é possível saber quantos empregos foram perdidos no Brasil entre janeiro e abril de 2016, últimos meses do governo Dilma. O Caged é atualizado mensalmente e, nele, é possível perceber quantos postos de trabalho com carteira assinada o país perdeu nos quatro meses finais: 378 mil.  

Em propaganda do PT, exibida em outubro do ano passado, houve exagero ao falar sobre o tema. Já Luiz Marinho, candidato petista ao governo de São Paulo que o governo Lula gerou 22 milhões de empregos – quando, na verdade, os dados da Rais indicam que a diferença entre o número total de pessoas empregadas entre 2002, último ano antes de Lula tomar posse, e 2010, último ano de Lula no governo, era de 15,4 milhões. Ricardo Berzoini, ex-presidente do PT que representou Lula em sabatina no portal Metrópoles, também errou ao falar que 22 milhões de empregos foram gerados após a eleição de Lula.

“Temos, no Brasil, 6,35 milhões de famílias sem casa”

Guilherme Boulos, candidato à Presidência pelo PSOL, na sabatina da revista IstoÉ, no dia 19 de junho de 2018

INSUSTENTÁVEL

A Fundação João Pinheiro (FJP), que fornece os números sobre moradia ao Ministério das Cidades e é considerada a principal referência nesse assunto no Brasil, afirma que não elabora “estudos ou estimativas sobre o número de pessoas sem casa”. Os 6,35 milhões a que Boulos se refere dizem respeito ao déficit habitacional registrado no país em 2015. E isso não é o mesmo que dizer que essas famílias são “sem casa”, como explica a FJP.

Líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Boulos já havia falado sobre o tema na sabatina da IstoÉ, em junho de 2018. Na mesma entrevista, afirmou que 7,9 milhões de imóveis estavam “abandonados” no Brasil. Mas a FJP esclareceu que, em 2015, havia 7,9 milhões de imóveis vagos no Brasil – não “abandonados”. De acordo com a FJP, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015, do IBGE,  6,893 milhões de imóveis estão em condições de serem ocupados, e 1,012 milhão, em construção ou precisando de reformas.

Em artigo publicado na Carta Capital em março de 2018, o candidato do PSOL mais uma vez errou. Boulos disse que existiam 7,05 milhões de imóveis vazios no país, quando, na verdade, o estudo  Déficit Habitacional de 2013-2014, da Fundação João Pinheiro, indica que existiam 7,2 milhões de moradias vazias no país naquele período (página 39).

Procurado à época, Boulos afirmou que “a expressão ‘famílias sem casa’ é uma explicação para o termo déficit habitacional, que é essencialmente técnico.” A nota diz que, por isso, não considera que haja “inconsistência ou incoerência” na fala do candidato.

“Mais de 2 milhões de empregos foram criados de 2016 até agora”

Henrique Meirelles, candidato à Presidência pelo MDB, em discurso no encontro da Frente Nacional de Prefeitos, em 8 de maio de 2018

EXAGERADO

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Mensal Contínua (Pnadc/M), do IBGE, entre o segundo trimestre de 2016 e o segundo trimestre de 2018, o número de pessoas empregadas cresceu 433 mil. Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra uma redução em 418 mil vagas de empregos formais entre julho de 2016 e junho de 2018.

Meirelles exagerou ao citar este dado em duas ocasiões: no debate da Band, no dia 9 de agosto, e no Roda Viva, da TV Cultura, no dia 11 de junho deste ano.

Procurado, o candidato do MDB não respondeu.

“Eu quero fazer valer o referendo de 2005. Tem que ser respeitada a vontade daquelas pessoas que decidiram por ter o direito à posse de arma de fogo”

Jair Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PSL, em entrevista ao Central das Eleições, da Globonews, no dia 3 de agosto de 2018

FALSO

Além de ter falado sobre o tema na Globonews, Bolsonaro também errou ao comentar a política de armas do Brasil durante o Roda Viva, da TV Cultura, no dia 30 de julho, quando disse: “O povo decidiu. Nós queremos comprar munição. E o governo, contrariando a democracia, proibiu o povo de comprar armas”. No debate realizado pela Band na última quinta-feira (9), o candidato também disse que o Brasil foi desarmado após o referendo de 2005. Em todas as manifestações, se equivocou.

Em 2003, entrou em vigor o Estatuto do Desarmamento, que mudou as regras para registro, posse e comercialização de armas de fogo no Brasil. Desde lá, apenas quem trabalha com segurança pública têm autorização para portar armas. Aos cidadãos comuns, é permitida apenas a posse de armas. O estatuto garantiu recompensa em dinheiro para quem entregasse sua arma à Polícia Federal e tornou mais rígidas as regras para a compra desses artigos.

Além disso, o texto previu, para outubro de 2005, um referendo popular sobre a comercialização de armas e munições. Este referendo, ao contrário do que frequentemente afirma Bolsonaro, não debateu o porte ou a posse de armas, e nem “desarmou” o Brasil. Os eleitores foram questionados da seguinte forma: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. A maioria da população respondeu “não”. Assim, a manifestação da população foi favorável à manutenção da comercialização desses artigos.

Desde 2004, mais de 800 mil armas foram vendidas legalmente no país, segundo dados do Exército obtidos pelo Instituto Sou da Paz via Lei de Acesso à Informação. Também desde 2004, mais de 220 mil novos registros de arma foram concedidos a cidadãos comuns para defesa pessoal. Atualmente, já é possível comprar até seis armas, desde que dentro dos parâmetros estabelecidos pela legislação.

Procurado, Bolsonaro não respondeu.

“Tiramos 40 milhões [de pessoas] da pobreza e agora já devolvemos todos”

Marina Silva, candidata à Presidência pela Rede Sustentabilidade, em entrevista ao Central das Eleições 2018, da Globonews, no dia 31 de julho de 2018

AINDA É CEDO PARA DIZER

Dados do Banco Mundial indicam que, entre 2003 e 2014, 40,3 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza estabelecida pela entidade e passaram a ter mais do que US$ 5,5 por dia para viver no Brasil. Os dados mais recentes da instituição, no entanto, impedem uma conclusão sobre a “devolução” de pessoas para a pobreza. Em 2014, 36,5 milhões de brasileiros ainda estavam abaixo desse patamar. Em 2015, já durante a atual crise econômica, o total subiu para 39,9 milhões. Não há dados mais recentes.

Já o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) estima que, em 2016, 9 milhões de pessoas foram empurradas para baixo da linha da pobreza no Brasil. Em sua pesquisa, o IETS usa o mesmo patamar de renda do Banco Mundial e dados do IBGE.

Não há, portanto, dados públicos suficientes que corroborem a afirmação de Marina Silva. A candidata falou sobre o tema em dois momentos: na sabatina da Globonews e durante a 73ª Reunião Geral da Frente Nacional de Prefeitos. Na ocasião, afirmou: “Já devolvemos para pobreza aqueles que nos orgulhávamos de ter tirado”.

Procurada, Marina não respondeu.

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