Análise: apesar das ameaças, alunos fizeram prova com cara de Enem

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BRASÍLIA — Apesar dos desmandos do governo federal, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) cumpriu mais uma vez sua função. Na tarde deste domingo, milhões de brasileiros realizaram a primeira parte da prova que é a maior via de acesso ao ensino superior no país.

Em um exame permeado por incertezas devido à insegurança que dominou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) após denúncias de servidores contra o presidente do órgão, Danilo Dupas, a excelência do exame prevaleceu.

As investidas do presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias, quando afirmou que o Enem começava "a ter a cara do governo", ignoraram a força de uma avaliação que chegou em 2021 à sua 24ª edição, 13 delas nos moldes atuais. Um exame que atravessou, desde sua criação, quatro presidentes diferentes no Brasil até chegar a Bolsonaro, que, diferentemente dos antecessores, ameaça sua estabilidade.

Desde o início da gestão Bolsonaro, o Enem registrou episódios preocupantes. Em 2019, primeiro exame feito sob comando do atual presidente, as questões do Banco Nacional de Itens, que compõem a prova, foram alvo da inspeção de uma comissão ideológica. Como O GLOBO revelou, o grupo "desaconselhou" o uso de 66 itens e sugeriu a troca do termo "ditadura" por "regime militar". Depois, no mesmo ano, uma falha provocou erros de correção na prova e afetou a nota de cerca de 6 mil participantes.

Na edição de 2020, aplicada no início deste ano, em plena pandemia, o Enem, considerado "um sucesso" pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro, registrou índices recordes de abstenção, com cerca de 55% dos candidatos ausentes.

Em 2021, com menor número de inscritos desde 2005, o pedido coletivo de exoneração feito por 37 servidores do Inep às vésperas da prova lançou temores sobre a sua realização. Esses funcionários atuam no Enem há anos, durante governos de diferentes espectros ideológicos. À crise, somaram-se denúncias acerca da tentativa de interferência do Palácio do Planalto no conteúdo da prova. Como a "Folha de S. Paulo" mostrou, Bolsonaro pediu a Ribeiro que o golpe militar de 1964 fosse tratado como uma "revolução".

Mesmo com todas as tentativas de manter o exame sob o jugo do Palácio, a prova tocou em temas incômodos para o governo, com questões abordando minorias e problemas ambientais. O conteúdo mostrou que o Enem, apesar das ameaças, tem cara de Enem — e de ninguém mais.

A realização da prova sem intercorrências pode ser uma boia de salvação para garantir Dupas à frente do Inep, mas o resultado do fim do dia de hoje não apaga as trapalhadas cometidas ao longo do processo de organização do exame. E em qualquer governo, o Enem deve ser independente de qualquer presidente.

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