ANÁLISE-Ato político com Pazuello coloca Bolsonaro em choque com líderes do Exército

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Pazuello participa de evento com Bolsonaro no Rio de Janeiro

Por Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - Marcado por uma fracassada passagem como ministro da Saúde e na mira da CPI da Covid no Senado, o general Eduardo Pazuello buscou refúgio diante de simpatizantes em um ato político no Rio de Janeiro no final de maio. Ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o general da ativa e ex-ministro fez discurso em microfone --e rapidamente transformou sua crise pessoal em institucional.

O regulamento disciplinar do Exército considera transgressão a manifestação de militares da ativa a respeito de assuntos de natureza político-partidária. Ao participar do ato, Pazuello enfrenta possível punição pelas Forças Armadas ou constrangimento para seus comandantes, dizem generais da reserva e estudiosos das Forças Armadas.

Dez dias depois da participação de Pazuello na manifestação ao lado do presidente, o Exército permanece em silêncio.

Na terça-feira, Bolsonaro nomeou Pazuello secretário de Estudos Estratégicos da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, meses após substituí-lo como ministro da Saúde durante uma onda mortal da Covid-19 no Brasil.

Para chefes militares preocupados com o fato de as Forças Armadas estarem muito enredadas com um governo impopular e sua condução vacilante da pandemia, o caso de Pazuello é um sinal de alerta. O ato com o presidente e o general sugere, para alguns oficiais, que a lealdade a Bolsonaro está começando a suplantar o protocolo militar.

"A imensa maioria de quem tem mais responsabilidade não entende que o presidente tenha poder de perdoar Pazuello e que vai prejudicar a instituição militar, vai atentar contra a disciplina e hierarquia. É uma interferência indevida", disse o general da reserva Paulo Chagas.

"Alguns militares estão dominados por um culto à personalidade. Quando Bolsonaro fala, acham que virou ordem divina. Mas são poucos", acrescentou Chagas, que fez campanha pelo presidente em 2018, em entrevista no clube de oficiais do Exército em Brasília.

Até o vice-presidente Hamilton Mourão, um general quatro estrelas da reserva, defendeu que Pazuello seja autuado e transferido do serviço ativo para a reserva do Exército "para evitar anarquia nas Forças Armadas".

Procuarada pela Reuters, a assessoria do Ministério da Defesa disse que a pasta não vai se pronunciar. “O caso de Pazuello está sendo tratado no âmbito interno do Exército.”

DEMISSÕES

A nova tensão entre militares e Bolsonaro, que se afastou do Exército como capitão em 1988 antes de se lançar a uma carreira política, ocorre apenas dois meses depois de ele ter demitido sem cerimônia o ministro da Defesa e três chefes das Forças Armadas.

Na época, pessoas familiarizadas com o assunto disseram à Reuters que a pressão de Bolsonaro sobre autoridades militares de alto escalão por demonstrações públicas de apoio político azedou as relações e desencadeou uma reforma dramática.

Bolsonaro também designou em seu governo vários oficiais do Exército da ativa e da reserva, incluindo quase um terço de seu ministério e milhares de outros cargos bem pagos, confundindo ainda mais a linha entre o governo e os militares.

É uma distinção que o presidente parece ansioso por apagar. Depois de defender a ditadura militar no Brasil de 1964 a 1985, Bolsonaro frequentemente se refere às Forças Armadas como "meu Exército" e sugeriu que poderia enviar tropas para desafiar as restrições determinadas por governos estaduais para desacelerar a pandemia.

O Brasil perdeu mais de 467 mil vidas para a Covid-19, e especialistas em saúde pública culpam os ataques de Bolsonaro ao distanciamento social, desdém pelo uso de máscaras e ceticismo sobre vacinas pelo maior número de mortes fora dos Estados Unidos.

Depois que Bolsonaro demitiu dois ministros da Saúde por se recusarem a endossar tratamentos não comprovados contra a Covid-19, ele encontrou em Pazuello, que não tinha experiência em saúde pública, um ministro mais complacente.

Mas o general desperdiçou chances de garantir o fornecimento antecipado de vacinas e foi pego de surpresa por uma segunda onda mortal de infecções neste ano. As mortes por coronavírus aumentaram de 15.000 para quase 300.000 sob a supervisão de Pazuello, e ele enfrentou duras perguntas na CPI do Senado que investiga como o governo lidou com a pandemia.

Com as Forças Armadas ansiosas para se separar desse histórico manchado, os comandantes devem em breve transferir Pazuello para a reserva, disse Paulo Kramer, professor de política da Universidade de Brasília que se reúne regularmente com oficiais do Exército.

Desde o fim da ditadura militar, as Forças Armadas têm tido o cuidado de ficar fora da política e estabeleceram regras que proíbem o envolvimento de oficiais, afirmou Kramer.

No entanto, será mais difícil retirar a legião de outros militares do governo, que estão se acostumando com o pagamento e outras vantagens do serviço público.

Tendo já cruzado tantos limites, os generais estão com dificuldades de colocar o gênio de volta à garrafa.

"A preocupação de todos no comando é que isso vai estabelecer um precedente. O Exército é uma instituição de Estado, e não de governo. Todos os oficiais estamos cientes da importância de não misturar a política com instituições de Estado que as Forcas Armadas são", disse o general da reserva Roberto Paternelli, eleito deputado federal em 2018 pelo PSL, então partido de Bolsonaro.

O general Chagas acrescentou: "No quartel, quando a política entra por um portão, a disciplina sai pelo outro."

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