Análise: autossuficiência de Cristiano Ronaldo vale mais um recorde, mas não dá refresco a Portugal na Copa

Cristiano Ronaldo conseguiu mais um recorde: tornou-se o único jogador a marcar gols em cinco edições distintas da Copa do Mundo ao balançar a rede, de pênalti, na estreia de Portugal contra Gana no Mundial do Catar nesta quinta-feira. A marca histórica atingida pelo português não livrou sua seleção, contudo, de vários sustos na vitória suada por 3 a 2 sobre os ganeses. Foi uma exibição autossuficiente de CR7: sofreu uma penalidade máxima (duvidosa), converteu e fez seu tradicional salto de comemoração - curiosamente, na frente de uma bandeira com o rosto de Messi.

O que a vitória de Portugal mostra é que a capacidade de Cristiano Ronaldo de empilhar recordes e numeralhas não parece mais ser suficiente para dar respiro à seleção. Em um primeiro tempo participativo, CR7 era o principal destinatário das tramas ofensivas de Portugal, mas apresentava certa dificuldade para definir com a agilidade e a precisão de outrora.

No segundo tempo, quando Gana melhorou no jogo e começava a criar dificuldades para a defesa portuguesa, Cristiano aproveitou um passe pipocado na área, correu o suficiente para tomar a frente do zagueiro Salisu e desabou após o contato com o defensor ganês. Pênalti que ele converteu como recomenda o manual, aos 20 minutos.

Foi o oitavo gol de Cristiano Ronaldo em Copas do Mundo. Na Alemanha, em 2006, Cristiano marcou seu primeiro gol em Copas contra o Irã, na fase de grupos, também numa cobrança de pênalti. A última edição, na Rússia, em 2018, havia sido a mais prolífica do craque português: balançou as redes quatro vezes, sendo três na partida de estreia, contra a Espanha, e uma na vitória sobre o Marrocos, na segunda rodada.

Só que Gana, sem dar muita atenção aos feitos de CR7, manteve o plano que vinha seguindo após o intervalo. Apostou em tramas de ataque com a velocidade do meia Mohammed Kudus e na capacidade de decisão do camisa 10 André Ayew. Funcionou, apenas oito minutos depois do gol português, e Ayew deixou tudo igual.

Em dois contragolpes, com passes preciosos de Bruno Fernandes, Portugal aproveitou espaços de uma seleção ganesa que buscava a virada. Os jovens atacantes João Félix e Rafael Leão, aos 33 e 35 minutos da segunda etapa, marcaram os gols que deram a maior vantagem portuguesa na partida.

Félix e Leão têm 23 anos, são considerados o futuro da seleção portuguesa, mas despertam sentimentos distintos no momento. Félix, vindo de temporada apagada no Atlético de Madrid, começou como titular ao lado de CR7 no ataque, movimentando-se muito para tentar abrir espaços ao craque veterano - ou aproveitar os espaços abertos por ele -, e errando finalizações com a mesma intensidade. Leão, estrela do Milan na última temporada, precisou de apenas três minutos em campo para balançar a rede - em um lance iniciado, é verdade, com uma roubada de bola de Félix.

A titularidade de ambos ao mesmo tempo é difícil, em uma seleção que não prescinde, por enquanto, da presença de Cristiano Ronaldo no comando do ataque. E que também precisa encaixar o talento de Bernardo Silva e Bruno Fernandes no meio-campo. Portugal teve esses cinco em campo por apenas dez minutos, tempo suficiente para desempatar e fazer o terceiro gol contra Gana. Logo depois, o técnico Fernando Santos trocou CR7, Félix e Bernardo Silva, para administrar o resultado.

Mas Gana ainda proporcionou mais tensão aos portugueses aos 44 minutos, quando Bukari diminuiu. E com nove minutos de acréscimo, o goleiro Diogo Costa quase entregou o ouro: ao colocar a bola na grama para uma reposição sem pressa alguma, não reparou que o ganês Iñaki Williams estava à espreita. As câmeras de TV mostraram Cristiano Ronaldo - e os colegas portugueses - aliviados com o apito final. Foi o suficiente por hoje, mas ainda é pouco para confirmar Portugal como candidata séria ao título.