Análise: Bolsonaro e a técnica do engana o olho

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O truque é antigo. No século V a.C., o pintor grego Zêuxis retratava uvas tão realistas que os pássaros chegavam a bicá-las na tela. A técnica, adotada por artistas renascentistas e barrocos, foi batizada de "trompe l'oeil", que, em francês, significa "engana o olho". A essência dessa arte consiste em fazer o espectador acreditar que o objeto representado parece real. Essa ilusão ótica foi adaptada com o passar do tempo e tem sido utilizada com frequência pelo presidente Jair Bolsonaro.

Dia após dia, em seu discursos, Bolsonaro tenta distorcer valores constitucionais como a liberdade de expressão e o direito de ir e vir para convencer os seus espectadores de que os ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) são, na verdade, uma defesa da democracia. Nesse cenário pintado pelo presidente, a liberdade de expressão consiste em divulgar notícias falsas sem qualquer punição e o direito de ir e vir nada mais é que um salvo-conduto para aglomerar. Ainda de acordo com esse retrato, os inimigos do país são os membros da Corte, e não os problemas reais que assolam os brasileiros.

Esse artifício tem distraído a claque que não enxerga -- ou finge não ver -- o desgoverno de Bolsonaro. Enquanto apoiadores do presidente defendem de forma isolada uma intervenção militar, outros fantasmas do passado voltam a assombrar o Brasil: a crise hídrica traz de volta o risco de apagão, a alta da inflação corrói o orçamento familiar e o desemprego agrava a situação de miséria. Além disso, o país segue numa marcha irrefreável rumo a 600 mil mortos por Covid-19.

Não fosse o bastante, o presidente enfrenta os seus próprios percalços. Acuado pela CPI da Covid e investigado no Supremo Tribunal Federal, ele agoniza uma queda expressiva em sua popularidade. Os sinais de fraqueza são escamoteados por encenações públicas de força -- da celebração do desfile de tanques em frente à Praça dos Três Poderes a disparos de peças de artilharia para simular um bombardeio de inimigos num treinamento militar. A estratégia é criar um alvoroço político e desviar a atenção da alta do preço de combustíveis, da região amazônica em chamas e da suspeitas de irregularidades no Ministério da Saúde.

A arte de criar distrações é própria de um presidente isolado. À deriva dos demais poderes, Jânio Quadros instalou dois jumentos, com chapéus de palha, pastando a grama do Palácio da Alvorada. Essa cena nem se compara à imagem de Bolsonaro exibindo uma caixa de cloroquina a emas. Tampouco à de um chefe da nação chamando um ministro do STF de "canalha". Em seu discurso realizado em São Paulo no dia 7 de setembro, o presidente comemorou: "Hoje temos uma fotografia para mostrar para o Brasil e o mundo". O retrato que Bolsonaro quer pintar de si mesmo e do seu governo pode até convencer alguns apoiadores, mas não passa de um truque para enganar os olhos de um país em crise.

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