Análise: Brilho de Xerém na vitória do Fluminense traz uma lição e uma pegadinha

Rafael Oliveira
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Com três gols de garotos revelados em Xerém, a vitória do Fluminense por 3 a 1 sobre o Ceará traz uma lição e uma pegadinha para os tricolores. A primeira, obviamente, é que vale a pena investir na base. A categoria de base do clube não é apenas uma mina de dinheiro, mas também de jogadores que podem ser úteis para o time principal. A armadilha, contudo, é a de fazer a torcida acreditar que eles são a solução para todos os problemas dentro de campo.

Com 60 pontos, o Fluminense se mantém em quinto e a apenas dois de São Paulo e de Atlético-MG, respectivamente o quarto e o terceiro colocados do Brasileiro. Ou seja: está muito vivo na luta por uima vaga na fase de grupos da Libertadores. E o alicerce desta campanha é a mescla dos jovens com os mais experientes.

O jogo desta segunda, em Fortaleza, deixou isso claro. Sempre que brilharam, os garotos de Xerém contaram com o apoio dos mais velhos. Em todos os três gols, a jogada contou com a participação de um veterano em sua concepção. No primeiro (de John Kennedy), o lance nasce com Nenê. No segundo (de Martinelli), o camisa 77 volta a aparecer ao lado de Egídio. No terceiro (de Samuel), foi o lateral-esquerdo que deu sua contribuição novamente. Às promessas do clube, coube executar a parte final.

- Fico feliz com o trabalho da gente que vem de Xerém. Os mais experientes passam muta confiança para a gente. O grupo todo está de parabéns. Conquistamos nosso primeiro objetivo, que era voltar à Libertadores. Agora vamos atrás de mais um desafio, uma vaga na fase de grupos, que a gente sabe que é possível - comentou Martinelli.

É justamente para não fazer feio na Libertadores que o Fluminense não pode cair na armadilha de achar que basta Xerém para ter sucesso. Os garotos são importantes. Mas desta matéria-prima o clube já está bem servido. O desafio é fazer o mesmo com os mais rodados.

Na temporada atual, Nenê e Fred assumiram a função de liderar o grupo. Mas a idade cobra seu preço. O meia alterna bons e maus momentos. Já o centroavante se lesiona com frequência.

Pela esquerda, Egídio até faz boas partidas nesta reta final de Brasileiro. Mas não consegue manter a regularidade por muito tempo. Seu reserva Danilo Barcelos também não tem consistência.

No meio, Yago Felipe se encontrou e é o principal companheiro de Martinelli na saída de bola. Mas, quando não joga, costuma ser substituído por Hudson, que não consegue manter o mesmo desempenho. Por mais que venha impressionando tecnicamente, o jovem volante não consegue jogar por dois.

A principal mostra de como é importante mesclar experiência com juventude está na zaga. O setor mais sólido do time tem como dupla principal o rodado Luccas Claro e o jovem Nino. Mas não há muitas opções para o caso da ausência de algum deles. Apenas Matheus Ferraz, que vive às voltas com lesões, e Frazan.

Para ir mais longe no Brasileiro, este grupo mostrou ser capaz. Já são sete partidas de invencibilidade. E restam apenas dois jogos para tentar entrar no G-4. O próximo é contra o Santos, domingo, na Vila Belmiro. Mas é importante já pensar na Libertadores. Sem deixar de celebrar Xerém.

O jogo

Não foi um primeiro momento dos mais animados para o torcedor. Diante de um adversário com um perfil mais construtivo, o Ceará apostou em deixar a bola com ele e esperar o momento certo para contra-atacar. Mas essa chance demorou a chegar. O que se viu foi um jogo que não saía do meio-campo, já que o Fluminense também não conseguia infiltrar.

Quando a oportunidade enfim apareceu os cearenses conseguiram ser perigosos. Aos 27, Saulo aproveitou a saída errada de Yago e avançou pelo corredor direito com liberdade. Ele tocou para Vina que, cara a cara com Marcos Felipe, acabou finalizando para fora.

Ali, o Fluminense parece ter entendido que a melhor forma de agredir o rival seria usar de sua própria arma. O time usou sua facilidade para desarmar no meio de campo e explorar a velocidade de Luiz Henrique e de John Kennedy.

A tática deu certo. Na primeira boa chegada, Jhon Kennedy furou na hora de finalizar. Mas não perdoou na segunda chance que teve. Aos 44, Nenê deu excelente passe para o atacante, que concluiu para o fundo das redes na saída do goleiro Richard.

- O atacante não pode se desesperar por um gol perdido. Tem que estar preparado para outra chance. Venho treinando, o Nenê me dá bastante orientação para infiltrar que a bola vai chegar - comentou o jovem de Xerém, que marcou seu segundo gol pelos profissionais.

No etapa final, com a necessidade do Ceará ser mais propositivo para buscar o empate, este desenho ficou ainda mais ressaltado. De tanto que esperou por uma chance, o Fluminense se viu espremido. Os donos da casa chegaram a ter 70% de posse.

Mas a chance veio, e os tricolores não perdoaram. Numa jogada iniciada em contra-ataque, Egídio trocou passes com Nenê na linha de fundo e recuou para Martinelli, que vinha livre de trás, ampliar com um chute forte aos 13 minutos.

Apesar de mais um gol sofrido, o Ceará não desanimou e insistiu. E diminuiu, aos 32, com Vina, de pênalti. Mas, àquela altura, os dois times estavam mais expostos. E os tricolores fizeram o gol que sacramentou a vitória aos 42, com Samuel escorando com a cabeça bola levantada por Egídio.