ANÁLISE-Comparecimento às urnas será crucial para chance de vitória de Lula no 1º turno

Mulher vota em seção eleitoral no Rio de Janeiro em 2020

Por Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganhou força na reta final da campanha eleitoral para a Presidência da República, mostraram as pesquisas de intenção de voto, e pode derrotar o atual mandatário Jair Bolsonaro (PL) já no primeiro turno marcado para domingo --se seus eleitores comparecerem em massa às seções eleitorais.

Entretanto, uma elevada abstenção, especialmente entre o eleitorado mais pobre, que é inclinado a Lula, pode significar que a eleição irá para um segundo turno, que ocorreria em 30 de outubro. Se nenhum dos 11 postulantes ao Planalto obtiver mais de 50% dos votos válidos, que desconsidera brancos e nulos, os dois primeiros colocados --Lula e Bolsonaro, segundo as pesquisas-- vão para uma segunda e decisiva rodada de votação.

"Lula tem chances reais de levar no primeiro turno, mas a questão da abstenção será um grande desafio para o PT e aliados", disse André César, da consultoria Hold Assessoria Legislativa. Ele alertou para o risco de "salto alto", com alguns eleitores de Lula não indo votar por achar que o petista já está eleito e seu voto não é necessário.

Embora o voto seja obrigatório para a maioria dos adultos no Brasil, muitos acabam pagando a multa irrisória por não comparecimento ou justificam a ausência --especialmente eleitores mais pobres que enfrentam dificuldades de transporte ou outras demandas no dia da eleição. A taxa de abstenção tem aumentado nos últimos anos, chegando a 23% na eleição municipal de 2020, quando a pandemia de Covid-19 também desempenhou um papel.

"Se ela (abstenção) for homogênea em todos os grupos, acho que Lula ganha no primeiro turno", disse o analista político da Tendências Consultoria Rafael Cortez.

No entanto, não há consenso entre as projeções.

A consultoria Eurasia estima uma chance de entre 20% a 25% de Lula vencer a eleição em primeiro turno, com tendência de alta ao passo que eleitores de outros candidatos com baixa intenção de voto mudam para Lula ou Bolsonaro.

Embora institutos tradicionais que realizam pesquisas presenciais, como Ipec e Datafolha, apontem Lula com chance dentro da margem de erro de vencer no primeiro turno, levantamentos feitos por telefone, como o da FSB Pesquisa, Ipespe e Ideia mostram a disputa indo para o segundo turno, com vitória de Lula em uma segunda rodada.

Essas divergências entre as pesquisas podem indicar o acesso dos pesquisadores aos eleitores mais pobres, que são relativamente mais fáceis de entrevistas presencialmente e mais difíceis de serem contactados por telefone. A não realização do Censo em 2020 também dificulta a calibragem das amostras pelos institutos.

No entanto, a maioria concorda que uma taxa elevada de comparecimento será uma boa notícia para Lula.

Pesquisa do PoderData apontou que, entre os que consideram não comparecer à urna, 54% são eleitores de Lula e 22% de Bolsonaro.

"Se ela (abstenção) tiver uma variação, essa variação em tese prejudica o Lula, porque eleitores de renda mais baixa, escolaridade mais baixa, tudo mais constante vai menos na eleição, caso se confirme esse padrão histórico, isso pode atrapalhar esse cenário de vitória em primeiro turno", disse Cortez.

Isto dito, o analista da Tendências aponta que a possibilidade de Lula liquidar a fatura em primeiro turno está no "terreno do viável".

"Lula entra na reta final da campanha com um patamar de voto muito parecido com o de Fernando Henrique vence em primeiro turno em 1998", disse referindo-se aos cerca de 53% dos votos válidos que FHC teve no pleito daquele ano.

(Reportagem adicional de Eduardo Simões, em São Paulo)