ANÁLISE-Divergências nas pesquisas têm fundo técnico e demandam transparência de institutos

Urna eletrônica é vista em seção eleitoral em Brasília nas eleições de 2018

Por Maria Carolina Marcello

BRASÍLIA (Reuters) - Discrepâncias entre as principais pesquisas eleitorais de alcance nacional no Brasil têm fundo técnico, refletindo não apenas diferenças de metodologia, mas até mesmo a falta de um Censo atualizado, disseram especialistas, adicionando mais um ruído no momento em que o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro(PL) empreende uma campanha de descrédito contra os levantamentos.

A menos de duas semanas da votação, a diferença entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) varia mesmo se considerados apenas os institutos que realizam entrevistas presenciais. O petista tem 8 pontos percentuais de vantagem segundo a Quaest, 12 pontos de vantagem no Datafolha e 15 no Ipec. Todos têm 2 pontos percentuais de margem de erro.

Para que reflitam a opinião da população em um determinado momento, as pesquisas dependem do desenho de um pequeno grupo (amostra) que, ao ser entrevistado, seja capaz de espelhar os parâmetros atuais da sociedade e projetar o resultado geral.

Não há, no entanto, uma maneira única de fazer esse desenho nem uma fórmula exclusiva para se chegar aos eleitores dessa amostra (telefone, presencial, em casa, na rua), muito menos um modelo a seguir para fazer as perguntas -- todos elementos que podem impactar no que é aferido pelas projeções.

Na atual campanha, o trabalho dos institutos foi dificultado pela impossibilidade de usar o Censo, de 2010, como parâmetro, porque ele ficou desatualizado. O Censo previsto para 2020 acabou adiado --primeiro por conta da pandemia de Covid-19 e depois por dificuldades orçamentárias-- e só está sendo realizado neste ano.

A diretora do Datafolha, Luciana Chong, avalia que um dos fatores mais importantes para uma representação próxima da realidade diz respeito ao desenho da amostra.

"Cada instituto adota aquilo que acha que é melhor. Faz avaliação de que dado utilizar, se vai utilizar cota ou não. Aí é uma avaliação de cada um. Não da para dizer quem está certo, quem está errado", disse a diretora do instituto, que não utiliza, por exemplo, cotas que levem em conta a renda dos eleitores.

O Datafolha optou por acolher dados sóciodemográficos registrados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a partir dos registros de títulos de eleitores.

"Atualizamos apenas as cotas de gênero e idade, com base no TSE. Outros dados, como escolaridade, o TSE até disponibiliza, mas não é atualizado", explicou Chong.

"Todo o resto, todas as outras variáveis sociodemográficas são resultados da pesquisa. Escolaridade, renda, religião, ocupação, em quem votou em 2018, tudo isso é resultado da pesquisa."

A diretora explicou ainda que o instituto dispõe de um histórico de perfil e a cada pesquisa a amostra é avaliada para que haja compatibilidade com o universo de eleitores.

A Quaest, por sua vez, parte de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, para definir uma cota dos que recebem até 2 salários mínimos, que equivaleriam a 38% do eleitorado.

Na diferença sobre a definição da fatia da população que recebe até dois salários mínimos pode estar a razão da recente divergência entre o último levantamento do instituto e pesquisas do Datafolha e do Ipec, por exemplo.

TRANSPARÊNCIA E BOLSONARO

É o que acredita o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, que cobra dos institutos e especialistas da área uma autoanálise sobre os métodos de pesquisa.

"A Quaest, diferentemente de todos os demais institutos, opta por cotas de renda. Os institutos não fazem isso por uma série de fatores, o principal dos quais é a dificuldade das pessoas conseguirem saber exatamente qual é a renda segundo os critérios da Pnad", explicou Lavareda.

"E também as pessoas têm uma ideia às vezes distorcida dos outros membros da família", seguiu o sociólogo.

À frente da MCI-Estratégia e presidente do Conselho Científico do Ipespe, que também divulga pesquisas, Lavareda destacou que não fala sobre esse assunto específico como representante dessas instituições, mas como estudioso na área.

"As pesquisas têm sido questionadas no Brasil e no mundo e a forma dos institutos reagirem a isso é aumentar o grau de transparência e de discussão a respeito de seus métodos e técnicas, e não ficar ensimesmado, apenas em uma postura defensiva", cobrou Lavareda.

Uma outra diferença metodológica apontada por Lavareda diz respeito à aplicação, pelo Ipec, de um filtro para definir seus entrevistados. O instituto considera apenas as intenções de voto daqueles que votaram nas eleições municipais de 2020, no auge da pandemia e com índices recordes de abstenções. Por esse critério, a amostra averiguada pelo Ipec corresponde a 77% do eleitorado.

Procurada pela Reuters, a Quaest afirmou, por meio de sua assessoria, que de fato a discussão é metodológica, que cada instituto escolhe a melhor forma de conduzir as entrevistas e que não há forma certa ou errada. Também enviou artigo publicado no dia 18 de agosto, em que o diretor da Quaest, Felipe Nunes, explica as opções do instituto.

"Reconhecemos a dificuldade de medir precisamente a variável renda, mas reconhecemos também a possibilidade de desvios em coletas realizadas sem qualquer controle amostral de renda", diz. "Na ausência de um Censo atualizado, a Quaest utiliza a PNAD anual para calcular a proporção de renda familiar que precisa ser representada em nossas amostras."

O Ipec também foi procurado pela Reuters, mas não enviou um posicionamento.

BOLA DE CRISTAL

Neste panorama já complexo, há ainda levantamentos apresentados com desvios, ou ainda os que nem sequer foram realizados, ou seja, "fakes", e que são utilizados para turbinar a narrativas das campanhas para mobilizar eleitores.

Se a estratégia é comum a todas as eleições e candidatos, agora ganha uma nova relevância, dado o temor de observadores nacionais e internacionais, além de adversários, de Bolsonaro, que está atrás nas pesquisas, questionar o resultado, caso perca.

Para levantar a ideia de fraude, o presidente tem martelado seu descrédito tanto sobre sistema eleitoral quanto nos mais renomados institutos de pesquisa nacional. Vale-se do que chama de "data povo", critério segundo o qual mede seu apoio a partir de apoiadores que reúne nas ruas.

Aliados próximos de Bolsonaro, no entanto, comemoram e divulgam números quando os consideram favoráveis, seja dos mesmos institutos que criticam, seja de empresas de credibilidade questionável.

Diante de tanto ruído, os especialistas apelam para uma máxima já conhecida, mas ainda mais relevante nestas eleições -- pesquisas não devem ser encaradas como predições do futuro ou "bolas de cristal", são fotografias de um momento. Neste caso, fotos embaçadas, dada a deficiência de dados oficiais.

"A última fotografia é a da véspera, mas não necessariamente vai ser igualzinho o resultado oficial, porque quando o eleitor chega na urna, ele pode tomar outra decisão", lembrou Luciana Chong, diretora do Datafolha.