Análise de DNA reforça tese de que dentes-de-sabre nunca foram tigres (ou mesmo felinos)

REINALDO JOSÉ LOPES
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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O DNA obtido a partir de ossos com mais de 50 mil anos de idade reforça a tese de que os carnívoros conhecidos como dentes-de-sabre nunca foram "tigres", ao contrário do que dava a entender o nome popular dos bichos. Aliás, tampouco eram propriamente felinos, para começo de conversa. Segundo os dados genômicos, esses predadores majestosos pertenciam a uma linhagem bem diferente, que está separada da dos ancestrais de todos os gatos de hoje, grandes ou pequenos, há cerca de 25 milhões de anos. E as informações obtidas a partir do material genético também estão trazendo pistas sobre o estilo de vida e o comportamento dos dentes-de-sabre, complementando o que a paleontologia já indicava. As conclusões estão num artigo publicado recentemente na revista científica "Current Biology", coordenado por Ross Barnett, da Universidade de Copenhague, e que também tem entre seus autores o brasileiro Eduardo Eizirik, da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Até o Pleistoceno (a Era do Gelo), fase da história da Terra que se encerrou há cerca de 10 mil anos, o planeta foi habitado por uma considerável variedade de dentes-de-sabre. Um dos últimos a se extinguir, aliás, foi o Smilodon populator, comum em Minas Gerais na época em que os primeiros seres humanos chegavam ao atual território brasileiro. No estudo recém-publicado, os pesquisadores conseguiram sequenciar (grosso modo, "soletrar") todo o DNA de outra espécie do grupo, o Homotherium latidens, também conhecido como dente-de-cimitarra por causa dos caninos protuberantes e serrilhados nas pontas. O úmero (osso da pata da frente) do qual foi extraído o material genético do bicho veio do solo congelado do território do Yukon, no Canadá, o que talvez explique o estado de conservação relativamente bom do DNA. As análises sobre o "álbum de família" do dente-de-sabre indicaram não apenas a separação antiquíssima em relação ao grupo que daria origem aos felinos (para se ter uma ideia, a cisão é quatro ou cinco vezes mais antiga do que a existente entre os ancestrais diretos do ser humano e os chimpanzés) como também a inexistência de híbridos entre os dois grupos depois que a divergência aconteceu. Como o genoma do Homotherium está razoavelmente completo, com nível de qualidade apenas ligeiramente inferior ao de um bicho vivo, os pesquisadores conseguiram fazer uma série de inferências sobre seu comportamento. Eles usaram técnicas estatísticas para investigar quais genes-- grosso modo, trechos de DNA que contém a receita de determinadas proteínas-- foram especialmente favorecidos pela seleção natural, ou seja, foram muito importantes para que os dentes-de-cimitarra sobrevivessem e se reproduzissem. Nessa biblioteca de genes, chamaram a atenção, por exemplo, os associados à visão e ao ritmo circadiano (o "relógio interno" biológico que ajuda a controlar a hora de dormir e acordar). Esses dados apoiam a ideia de que talvez esse tipo de dente-de-sabre fosse um predador diurno que dependia muito da visão para caçar, ao contrário dos felinos modernos, muitos dos quais são noturnos ou crepusculares. Vários outros genes que parecem ter sido favorecidos pela seleção natural estão associados à eficiência respiratória e muscular, indicando que o bicho era um corredor (coisa que a morfologia das patas do Homotherium também sugeria). Por fim, também há sinal de seleção natural afetando genes importantes para o comportamento social. Isso pode indicar que, para capturar os grandes herbívoros da Era do Gelo, o bicho caçava de forma coordenada em bando, tal como os leões modernos (de fato, o Homotherium tinha tamanho similar ao de um leão macho de hoje).