Bruno Covas e o desafio do "novo" PSDB: recuperar o terreno perdido para o bolsonarismo

O prefeito de SP, Bruno Covas (Reprodução)


Para onde vai o PSDB? A pergunta marcou a sucessão do comando da legenda em maio deste ano, quando o ex-deputado pernambucano Bruno Araújo, de 47 anos, assumiu a presidência tucana no lugar de Geraldo Alckmin, 66.

A escolha representou uma vitória do grupo de João Doria, eleito no segundo turno, e com margem apertada, na corrida estadual em São Paulo, o mais antigo reduto tucano, e onde as bases da reconstrução do PSDB começam a ser fincadas. Que prédio sairá dali é uma incógnita.

entrevista do prefeito de São Paulo, Bruno Covas, para a série “Vozes da Nova Política”, do Yahoo, dá algumas pistas de como o partido pretende se reerguer do tombo de 2018. A engenharia começa pelo discurso, que rivaliza com a esquerda petista mantendo distância do bolsonarismo.

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A estratégia é clara. Covas acusa o presidente Jair Bolsonaro de dialogar apenas com seus eleitores, chamou de preconceituosas as declarações do capitão sobre nordestinos e ironizou as preocupações do governo com temas menores, como a tomada de três pinos, os pontos na carteira e o filme da Bruna Surfistinha.

Covas reivindica, ao PSDB, um lugar ao centro. O sucesso, porém, depende de uma série de circunstâncias. Por exemplo, o humor do eleitorado com o desempenho da economia pelos próximos meses.

A última eleição demostrou que já não vivemos o tempo em que a moderação ganha votos; pelo contrário, foi o flerte com a disrupção que colocou Jair Bolsonaro no segundo turno, e o antipetismo dos nem-nem (nem petistas nem bolsonaristas) que garantiu sua eleição. Nem todo antipetista, aliás, é bolsonarista, e é neste grupo que o PSDB está mirando.

Em 2018 quem moderou o discurso foi praticamente engolido na fervura de uma campanha assombrada pela Lava Jato, o impeachment, a crise econômica – e que carbonizou tudo o que anda, fala, se alimente e gesticula como “velha política”. Vide o desempenho dos caciques do velho PMDB, símbolo da politicagem, como Romero Com Supremo Com Tudo Jucá.

Em outras palavras: o radicalismo já não assusta os eleitores como costumava assustar. Pelo contrário.

O resultado prático desse radicalismo, porém, são outros 500. O ritmo do desempenho econômico será determinante para o bolsonarismo não só em 2022, mas já no ano que vem, quando o país vai às urnas escolher novos prefeitos e vereadores. O neto de Mário Covas despista, mas já fala como candidato à reeleição.

O prefeito defendeu o PSDB como um partido de bases liberais, compromisso social e respeito ao meio ambiente, à cultura e aos direitos humanos – três itens que o bolsonarismo promete transformar em terreno baldio até 2022.

Covas, em sua entrevista, atribuiu a derrota tucana em 2018 à incapacidade de o partido expressar o que tinha de diferente em relação aos outros candidatos. (Alckmin, vale lembrar, tinha mais tempo de TV do que qualquer postulante).

E exigiu, como já tinha exigido antes, que o partido faça a lição de casa em relação a membros envolvidos em corrupção. O alvo, claro, é Aécio Neves, sobre quem diz aguardar uma posição do partido.

Aos 39 anos, Covas é um rosto relativamente desconhecido, que, apesar do desejo eleitoral pelo “novo”, não pode pensar em rejeitar o histórico tucano (o próprio sobrenome o impede). Ele defende o legado dos governos Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, e diz que o apoio dos caciques reforçaria qualquer palanque.

Tudo, porém, depende do avanço das investigações sobre supostas irregularidades cometidas por tucanos também em solo paulista. Recentemente, o Cade condenou 11 empresas por formação de cartel e fraudes em licitação em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

Covas assumiu a prefeitura há pouco mais de um ano, no lugar de João Doria. Seu sucesso está automaticamente atrelado ao desempenho do padrinho, que já defendeu como candidato do partido à Presidência em 2022.

Como nas edições anteriores, a disputa pela maior cidade do país será certamente marcada e influenciada pela conjuntura nacional. É a economia, lembra? Ela vai definir, por exemplo, a força de um eventual candidato, ou candidata, do PSL em São Paulo. Joice Hasselman, a quem Doria tem simpatia, é um possível nome.

Questionado, Covas disse não haver “nova e velha política”. O embate, segundo ele, é entre boa política e politicagem. A boa política, afirma, não faz loteamento de cargos e não se dobra a resistências religiosas e corporativas. Outro recado a Bolsonaro. O resto, diz, é populismo, e isso não é novo.

Ele tem razão, mas precisa combinar com seu principal aliado no partido, que já mostrou tentações do gênero, sobretudo na questão da segurança pública. Doria, em campanha, disse que em seu governo a PM ia atirar para matar. E, recentemente, propôs colocar policiais nas escolas como forma de garantir a segurança de alunos e professores. A medida já é questionada por docentes e especialistas, que não veem preparo da corporação para este tipo de ação e temem que os alunos de instituições públicas sejam estigmatizados como “caso de polícia”, e não de políticas educacionais.

Covas precisa demonstrar também que, diferentemente dos dois últimos prefeitos tucanos eleitos em São Paulo, não vai usar a cidade como trampolim. Esse estigma em relação ao partido pegou após Serra e Doria descumprirem a promessa de terminarem o mandato.

Covas lembra que a renúncia não impediu que os antecessores se elegessem governadores. É verdade. Na última eleição, porém, Doria não seria eleito se dependesse da capital paulista, onde a maioria dos eleitores votou em seu adversário, Márcio França (PSB), outro provável adversário de Covas na disputa municipal.