Análise: final entre Medina e John John foi benção para circuito de surfe em Pipeline

Renato de Alexandrino
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Uma temporada que se apresenta diferente no circuito mundial de surfe começou com uma final inédita, apesar de esperada há anos. O duelo entre Gabriel Medina e John John Florence na decisão do Pipe Masters, no apagar das luzes do domingo no Brasil (e fim de tarde no Havaí), foi o primeiro encontro dos dois surfistas em uma final. Até parece mentira, diante do protagonismo exercido por ambos nos últimos anos, mas somente ontem, nos tubos de Pipeline, tivemos um mata-mata valendo troféu entre os dois. E quem levou a melhor, merecidamente, foi John John. O havaiano venceu pela primeira vez o Pipe Masters e salta na frente na liderança do ranking.

Foi um fecho que provavelmente aliviou um pouco os manda-chuvas da World Surf League, que viram a etapa inicial do masculino ser paralisada por um surto de Covid-19 no staff e o evento feminino mudar de praia, de Honolua Bay para Pipeline, após um ataque de tubarão custar a vida de um surfista (não competidor) que pegava ondas no palco do campeonato. Diante desse início acidentado, para dizer o mínimo, uma final entre John John e Medina foi uma benção.

O título escapou de Medina, mas o paulista de Maresias não tem do que se queixar. Ele, que tradicionalmente derrapava quando o circuito começava na Austrália, manteve seu excelente retrospecto em Pipeline e fez sua quinta final em sete anos na onda mais icônica do tour. São quatro vices (2014, 2015, 2019 e essa final válida por 2021) e uma vitória (2018), mas as derrotas nas decisões não apagam o quão dominante ele virou em um local que tradicionalmente era hostil aos brasileiros, um "olimpo" reservado aos havaianos, australianos e Kelly Slater.

Aliás, sobre Slater, um rápido parêntese: em menos de três meses ele completa 49 anos. Você não leu errado, é isso mesmo. À beira de se tornar um cinquentão, o americano chegou até as semifinais em Pipeline contra competidores que poderiam ser seus filhos. Um fenômeno.

Mas voltemos a Medina. Ele se livra da maldição da perna australiana e já inicia o ano com um vice-campeonato que deve o ajudar a embalar e garantir confortavelmente um lugar no "WSL Finals", como é chamada a etapa criada pela entidade para decidir o campeão mundial a partir desta temporada. Vai funcionar assim: os cinco primeiros do ranking, tanto no feminino quanto no masculino, se juntarão em Trestles, na Califórnia, para um dia decisivo de mata-matas. O quinto colocado do ranking enfrentará o quarto. Quem passar, encara o terceiro. O vencedor pega o segundo, e quem sair desse confronto duela contra o número 1 do ranking para definir o campeão mundial. Em resumo: saem os pontos corridos, entra o mata-mata. Medina não gostou, Italo Ferreira também não, e os relatos são de que eles não são exceção em meio aos competidores, mas vai ser assim - ao menos em 2021, quem sabe se o sistema não muda para 2022...

Com cinco vagas no WSL Finals, difícil imaginar que Medina e John John fiquem fora. Italo Ferreira também não deve ter problemas para se classificar. Vai ser uma briga de foice pelos outros dois lugares. Julian Wilson, Slater, Filipe Toledo, Kanoa Igarashi, Jordy Smith... Vai ter gente boa tendo que assistir às finais pela TV.

Os brasileiros

Falando em Filipe Toledo, Pipeline foi uma etapa para (novamente) esquecer. O paulista segue sem se mostrar à vontade em ondas tubulares e pesadas, e deu adeus ao campeonato logo na terceira fase, com uma pontuação baixíssima. Yago Dora também podia ter mostrado mais. Adriano de Souza, que havia sofrido uma lesão no joelho 10 dias antes do campeonato, perdeu logo na repescagem em seu último Pipe Masters. Jadson André, Miguel Pupo, Peterson Crisanto e Caio Ibelli caíram nas oitavas, mas tiveram bons momentos, mostrando talento e/ou atitude nos tubos.

Tyler Wright vence no feminino

No feminino, iniciado em Honolua Bay e finalizado em Pipeline - primeira vez que as mulheres competiram em Pipe, aliás -, a bicampeã mundial Tyler Wright mostrou que está de volta para valer. Depois de quase dois anos lutando contra problemas de saúde, ela voltou a competir na etapa final de 2019, justamente em Honolua Bay. Agora, ela, que chamou atenção no início da etapa por surfar estampando a bandeira do orgulho gay, venceu o campeonato e larga na liderança do ranking. Carissa Moore tirou um tubaço-aço na semifinal e ficou com o vice. A havaiana-brasileira Tatiana Weston-Webb parou nas semis, um bom resultado para quem quer chegar às finais da temporada na Califórnia.

Próxima parada: Sunset Open, também no Havaí, em Sunset Beach, quase do ladinho de Pipeline. É tão perto que podia começar já nesta segunda-feira se preciso fosse, mas o circuito faz uma pausa para Natal e Ano Novo, e só volta em janeiro. O campeonato de Sunset, que ultimamente vinha sendo uma etapa da divisão de acesso, entrou de última hora no calendário para ajudar a compor em circuito em tempos de pandemia, onde ficar levando dezenas de surfistas e empregados da WSL para lá e para cá de avião não parece ser uma das melhores ideias.