Análise: Flamengo chega à reta final com o melhor futebol dentre os candidatos ao título

Carlos Eduardo Mansur
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Descontados a imprevisibilidade de um clássico e o peso de duas camisas imensas, é natural, no contexto de hoje, que o Flamengo seja superior num duelo com o Vasco. São clubes em realidades distintas. Nesta quinta-feira, no entanto, os vascaínos podem lamentar que a estratégia inicial do time não tenha funcionado. O Vasco só competiu no segundo tempo. Um Flamengo dominante abriu o placar quando era o único time em campo e ampliou quando o jogo já se tornara mais disputado.

Os 2 a 0 devolvem ao rubro-negro o trunfo de depender apenas de si para ganhar o Brasileiro – o Internacional empatou com o Athletico e foi a 66 pontos, dois a mais que os cariocas. Mas há outra boa notícia: numa temporada tão atípica e de tantas oscilações dos times, a fotografia do momento indica ser o Flamengo, dentre os postulantes ao título, quem chega à reta final jogando, com alguma diferença, o melhor futebol.

As propostas distintas do primeiro tempo remetiam ao 4 a 4 de 2019, quando o Vasco, também sob Vanderlei Luxemburgo, apostara na organização defensiva e nos contragolpes. Mas havia uma diferença. Aquele pareceu um jogo de dois times. E uma das razões está na escalação vascaína. Como ontem, o Vasco de 2019 se defendera num 4-4-2, por vezes marcando bem perto de sua área. Mas com duas flechas formando a dupla ofensiva - Rossi e Marrony naquela ocasião. Ontem, os homens de velocidade não estavam na frente, mas sim obrigados a recuar pelos lados para compor as duas linhas de quatro homens na hora de defender.

Nesta quinta-feira, o Vasco deixava Benítez e Cano mais adiantados, nenhum deles um velocista, tampouco jogadores agressivos na marcação de saída de bola. Com isso, Gabriel Pec e Yago Pikachu tinham que retroceder, por vezes, até a lateral da área para compor a marcação. Se o Vasco retomava a bola, estavam distantes do campo de ataque e não conseguiam se oferecer como escapes de velocidade. Por vezes, diante da pressão do Flamengo, a bola era perdida antes que os dois se apresentassem ao contragolpe.

Era muito superior o Flamengo, movendo a bola e a marcação do Vasco. É curioso como desde a volta ao 4-4-2, que Rogério Ceni já tentara implementar sem sucesso, o rubro-negro subiu demais seu padrão. Ontem, mesmo sem uma avalanche de chances claras, passava a sensação de que o gol era questão de tempo, tamanha a supremacia de um primeiro tempo disputado, todo ele, em uma metade de campo.

A mobilidade do Flamengo sobrecarregava alguns setores do campo e explorava a forma de o Vasco defender, com seus marcadores saindo de seus setores para perseguir seus alvos e abrindo espaços. E mais: pouco incomodados por Cano e Benítez, Arão e Filipe Luís eram incentivados por Ceni a apostarem na condução da bola na saída de jogo. Obrigavam um defensor do Vasco a sair de posição para marcá-los, deixando livres jogadores rubro-negros. E foi a aparição de Filipe Luís que gerou o cruzamento e o pênalti em Bruno Henrique. Gabigol converteu.

Arão fazia bem a saída de bola, assim como Filipe Luís; Gérson era eficiente ao se somar à pressão ofensiva; os homens de frente faziam, tecnicamente, uma partida boa. Bruno Henrique exibia presença de área, impulsão. Mas a melhor notícia para o rubro-negra era a evolução de Éverton Ribeiro em sua tentativa de reencontrar o melhor jogo. O movimento dos meias, partindo da ponta para o centro, fazia o Flamengo sobrar no meio contra Léo Gil e Bruno Gomes, que se viam sobrecarregados. Pikachu tentava compensar, mas quando o Flamengo invertia o jogo, gerava fartos espaços.

Segundo tempo

Diante do cenário, Luxemburgo mudou radicalmente para o segundo tempo. Com Juninho, Carlinhos e Ygor Catatau, passou a um 4-1-4-1 com três homens no meio-campo. Por alguns minutos, ocupou mais o campo ofensivo, competiu e criou alguns momentos de incômodo ao rival. E o Flamengo teve que se adaptar. Cano teve ótima chance de gol e Pikachu assutou em cobrança de falta. Mais adiante, Luxemburgo chamou Talles Magno e fez Juninho, que entrara bem, se juntar a Bruno Gomes e Léo Gil no meio. A aposta era na velocidade de Talles e Catatau pelos lados. Mas logo o Flamengo mataria o jogo.

Ao se adiantar, o Vasco também abriu espaços, algo fatal diante de um Flamengo que sobra em recursos técnicos. E o contragolpe, a esta altura, já interessava ao rubro-negro.

Primeiro Rogério fez Arrascaeta compor o meio, buscando lançar os homens de frente. Depois, colocou Vitinho e Pedro, novamente tirando Gabigol. Polêmicas à parte, foi numa jogada de Vitinho pela esquerda que surgiu o passe para Pedro e o escanteio que permitiu a Bruno Henrique sentenciar o clássico. Vitória justa de um Flamengo candidatíssimo ao título.