Análise: França põe limites ao poderes de Macron, que precisará negociar

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A França entrou em um território desconhecido. No domingo, os franceses puniram o presidente Emmanuel Macron com um revés eleitoral que deixa o país diante de uma nova era política. Se nos últimos cinco anos pôde governar com a ausência de contrapoderes legislativos na Assembleia Nacional, agora o chefe do Eliseu precisa negociar compromissos para aprovar seu programa.

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Macron tem no caminho uma poderosa oposição das esquerdas e da extrema direita. Logo, restam duas as alternativas: aprender a cultura do consenso, algo exótico no semipresidencialismo francês, ou a ingovernabilidade.

A derrota é severa para o presidente da República, apenas dois meses após ser reeleito para um segundo mandado com comodidade. Os eleitores mandaram um sinal a Macron: querem impor limites ao seu poder. Após um primeiro mandato em que governou com folga, com uma Assembleia cujo papel foi majoritariamente dar sinal verde para suas iniciativas, agora não poderá mais mandar sozinho.

Todo o seu programa de reformas fica em suspenso e não é tão certo que terá os votos necessários para implementá-las. Sua habilidade estratégica também foi posta em xeque: confiante de que as eleições legislativas seriam fáceis após o bom desempenho no pleito presidencial de dois meses atrás, Macron optou por uma campanha discreta e silenciosa.

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A nova divisão de assentos refletirá mais fielmente do que nunca a divisão tripartite que vem dominando a política francesa desde que o atual presidente chegou ao poder em 2017: centro, esquerda e extrema direita. As vozes antissistema, contudo, serão mais altas e terão um peso maior.

O descontentamento social também se fará presente. Se não conseguir formar maiorias, o presidente tem a possibilidade de dissolver a Assembleia Nacional e convocar novas eleições legislativas.

Futuro de Mélenchon

Salvo a possibilidade de um pleito extraordinário, no entanto, os franceses ingressam em um período sem eleições até 2024, quando escolherão seus representantes no Parlamento Europeu. Chega ao fim um ciclo eleitoral que começou em 2019, justamente com o pleito europeu, seguido das eleições municipais de 2020, as regionais de 2021 e as presidenciais de abril deste ano.

Em cada uma dessas votações, a abstenção foi batendo ou se aproximando de recordes. Quando votaram nas legislativas, os franceses já sofriam de fadiga eleitoral.

Outra incógnita é o futuro de Jean-Luc Mélenchon, o líder indiscutível da aliança de esquerda que saiu como vencedora da eleição. Apesar de ter ficado aquém do objetivo autoproclamado de liderar a primeira força parlamentar, forçando Macron a nomeá-lo como primeiro-ministro, Mélenchon pôs uma esquerda até então debilitada no centro da política francesa.

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Como não foi candidato a deputado, não poderá comandar a bancada de oposição na Assembleia. Em seu discurso de domingo, deixou seus próximos passos em aberto.

Após o empate técnico no primeiro turno, a campanha legislativa encenada como um duelo entre Macron e Mélenchon. O presidente apresentou-se como o representante da ordem, alertando que uma vitória da esquerda significaria "adicionar à desordem francesa uma desordem mundial". Segundo o adversário, "o caos é Macron".

A prioridade de Macron é aprovar seu plano para proteger o poder aquisitivo dos franceses diante do aumento da inflação. Em alguns meses, seria a vez de sua reforma mais complicada, postergada durante o primeiro mandato após semanas de greves, manifestações e pela Covid: mudar a idade da aposentadoria de 62 anos para 64 ou 65.

A esquerda fez sua campanha prometendo reduzir a idade de aposentadoria para 60 anos, aumentar o salário mínimo para 1.500 euros por mês e controlar os preços de produtos básicos. Cada partido da Nupes deve ter sua própria bancada parlamentar, mas o risco é que as diferenças internas entre pró-europeus e eurocéticos ou entre defensores do livre mercado e anticapitalistas prove-se intransponível para a aliança.

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