Análise: Frustração com o não boicote da seleção à Copa América é legítima, mas ato nunca foi prometido

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A notícia de que os jogadores da seleção brasileira irão participar da Copa América teve grande repercussão ao longo do dia. A parte da opinião pública contrária a realização do torneio no Brasil ficou contrariada. Nas redes sociais, foram muitas as manifestações de decepção e até de crítica a Neymar, Casimiro & Cia. A frustração é legítima em meio a uma pandemia que já custou mais de 470 mil vidas só no Brasil. Contudo, não se pode acusar os atletas de terem recuado em uma promessa que jamais foi feita por eles.

A suposta ameaça de boicote à Copa América circulou entre torcedores e até entre alguns veículos de mídia. Mas nem os jogadores e nem Tite confirmaram esta informação. A entrevista do capitão Casemiro ao repórter Eric Faria, da TV Globo, após o jogo contra o Equador, pelas Eliminatórias, é emblematica neste sentido. Um olhar frio sobre suas respostas mostra que ele apenas tentou se esquivar de emitir qualquer opnião naquele momento.

- Não podemos falar do assunto. Todo mundo já sabe qual é o nosso posicionamento. Mas não vamos falar deste assunto, porque... - foram logo as primeiras palavras de Casemiro ao repórter, que o cortou para deixar claro que não sabia qual era o posicionamento do grupo:

- Nosso posicionamento é o que todo mundo sabe. Acho que está mais claro impossível. Tite deixou claro para todo mundo qual é o nosso posicionamento e o que nós pensamos da Copa América. Existe respeito, existe hierarquias. Temos que respeitar. Claro que queremos dar a opinião nossa, rolou muita coisa. Mas existe respeito e, infelizmente,... - completou Casemiro, acrescentando que só os jogadores só iriam falar sobre a crise dos últimos dias após o jogo contra o Paraguai, nesta terça, também pelas Eliminatórias.

- Não queremos desviar o foco, porque a Copa do Mundo para nós é isso. Hoje ganhamos um jogo de Copa do Mundo. É importante para nós. Mas queremos falar, expressar nossa opinião. Se é certo ou não, cada um vai determinar o que é. Mas nós queremos expressar nossa opinião sim.

Diante da insistência do repórter, Casemiro seguiu confirmando o que Tite contou em sua coletiva de quinta-feira, mas sem passar a opinião do elenco. Só que, na citada entrevista, o técnico da seleção brasileira não revelou o que seu grupo pensa ou cogita. Ele apenas confirmou ter havido uma reunião entre os atletas e o então presidente da CBF, Rogério Caboclo, no dia anterior.

- Temos uma opinião muito clara e fomos lealmente, numa sequência cronológica, eu e Juninho (Paulista, coordenador da seleção) externando ao presidente qual a nossa opinião. Depois, pedimos aos atletas para focarem apenas no jogo contra o Equador. Na sequência, solicitaram uma conversa direta ao presidente. Foi uma conversa muito clara, direta. A partir daí, a posição dos atletas também ficou clara. Temos uma posição, mas não vamos externar isso agora. Temos uma prioridade agora de jogar bem e ganhar o jogo contra o Equador. Entendemos que depois dessa Data Fifa, as situações vão ficar claras. Depois desses dois jogos, vou externar a minha posição - respondera Tite.

Nem mesmo o tema deste encontro fora exposto pelo treinador. Sem em momento algum falar em risco de boicote, ele apenas dera a entender que a Copa América estava entre os asssuntos.

- Não estou abrindo mão das respostas e estou colocando os fatos, com discernimento e sensatez que tenho. É muito importante a Copa América. Mas mais importante, é o nosso jogo amanhã (sexta-feira, contra o Equador). É jogarmos bem, porque vamos ser cobrados, inclusive com o nosso torcedor. Ele cobra nossa posição. Temos posição clara. Mas deixa a nossa cabeça voltada para o jogo de amanhã - encerrou o técnico.

Este posicionamento que "todo mundo sabe", segundo Casemiro, mas nunca revelado foi elogiado por políticos de oposição ao governo federal como Guilherme Boulos (PSOL-SP), Manuela Davila (PCdoB-RS) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ao mesmo tempo, incendiou torcedores ilustres e comuns, que deram início a uma campanha de apoio aos jogadores para que eles cumprissem a tal promessa nunca feita de boicotar o torneio.

A politização foi acompanhada de polarização. A base bolsonarista nas redes sociais passou a pedir a demissão de Tite, sem que o treinador tivesse emitido qualquer opinião a respeito da realização da Copa América. Em um vídeo, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) chegou a chamar o técnico de hipócrita e de puxa-saco do ex-presidente Lula. Por fim, apelou aos atletas para que não se deixassem ser usados num momento como este.

O que se sabe, de fato, é que os jogadores irão divulgar um manifesto após o jogo desta terça. Nele, deixarão registrado uma espécie de voto crítico à CBF, à Conmebol e à Copa América. Mas apenas isso. A maior insatisfação do grupo não é a realização do torneio em meio à pandemia. Mas a relação com o agora presidente afastado Rogério Caboclo.

O dirigente estava desgastado com o grupo desde o vazamento de um áudio em que fez críticas à comissão técnica. Pesava contra ele também a revelação de que tentou contratar o espanhol Xavi Hernández para ser auxiliar até a Copa do Qatar e, depois, assumir o comando. A transferência da Copa América para o Brasil e sua grande repercussão negativa entraram no meio de uma crise que já existia.

Maior prova disso é que, com o afastamento de Caboclo, a temperatura é outra. O ruído envolvendo o suposto boicote foi prontamente eliminado. E o presidente interino da CBF, Coronel Nunes, já manifestou publicamente que não tem interesse em tirar Tite do cargo.

Importante lembrar que, embora a seleção sempre seja usada politicamente, o grupo atual nunca foi político. O comportamento individual dos principais atletas já deixa isso claro. Com exceção de Richarlison, não é comum ver os demais se manifestando sobre temas da sociedade. Seja com viés de esquerda ou de direita. Eles sempre preferiram não se expôr.

- As pessoas acham que temos que ter opinião para tudo. Nós temos que ter capacidade e lugar de fala sobre o que nos diz respeito. É isso o que fazemos com muito amor e paixão - resumiu Tite na coletiva desta segunda.