Análise: Italo e Medina sobram na turma em etapa do mundial de surfe

Renato de Alexandrino
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Há uma expressão em inglês bastante usada quando se quer dizer que alguém não tem chances com a pessoa cobiçada: "way out of your league". Na tradução literal para o português, "é de outra liga" (aqui usamos o clássico "ele (a) é areia demais pro seu caminhãozinho", uma triste sentença que todos nós já ouvimos em algum momento de nossas apaixonadas existências). Pois, no momento, Gabriel Medina e Italo Ferreira estão em um nível tão acima que parecem ser de outra liga no circuito mundial de surfe. São toneladas de areia para os pequenos caminhões dos outros competidores. A dupla brasileira dominou a segunda etapa da temporada, encerrada na madrugada deste sábado, em Newcastle, na Austrália. Em uma final verde-amarela, Italo derrotou Medina, dando o troco pela semifinal perdida no primeiro campeonato do tour, em dezembro - no que parece ter sido em outra vida nestes tempos tão atribulados.

Nas irregulares ondas de Newcastle, Italo e Medina exibiram um repertório de manobras e uma velocidade que deixam em um patamar (alô, Bruno Henrique) abaixo os outros surfistas - exceção a John John Florence, que não surfou mal, mas foi eliminado prematuramente na terceira fase, e talvez Filipe Toledo, que mostrou um pouco de seu habitual brilho, mas não chegou a encantar como já fez em outros anos. Mesmo assim, Filipinho foi avançando na Austrália, perdendo apenas para Italo na semifinal.

O potiguar, atual campeão mundial, já é conhecido por sua vitalidade, eletricidade. Depois das necessárias duas semanas de quarentena em um hotel, obrigatória a todos os competidores na chegada à Austrália, Italo parecia ter energia acumulada para abastecer uma cidade de 15, talvez 20 mil habitantes. Pegava uma onda, voltava para o outside e logo pegava outra, sem dar tempo de reação para comentaristas, juízes e pobres adversários. Misturava um surfe rápido e forte com aéreos com rotação completa. Parecia destinado a vencer. Se alguém poderia pará-lo, seria Medina - que nas semifinais acertou um aéreo altíssimo (foto abaixo), impressionante, o tipo de manobra que será comentado por anos e anos no circuito. Mas em Newcastle, nem mesmo o bicampeão mundial pode com o arsenal de Italo.

O resultado, e principalmente o desempenho, de Italo e Medina em Newcastle deve ter feito os dirigentes do COB esfregarem as mãos antevendo o que pode acontecer no fim de julho. A dupla vai representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em ondas que podem ser bem similares às vistas neste evento australiano. E aí não será exagero sonhar em uma dobradinha, um ouro e prata históricos na estreia do surfe na maior competição esportiva do mundo.

Até lá, porém, muita água ainda vai rolar no circuito. Antes das Olimpíadas, cinco etapas serão disputadas. As três próximas serão na Austrália, e depois o tour parte para a piscina de ondas de Kelly Slater, na Califórnia, que trocou de data com o evento brasileiro. A etapa de Saquarema foi adiada de junho para agosto, uma tentativa da WSL de manter o Brasil no circuito em meio ao pior momento da pandemia. Resta saber se dois meses farão diferença...

Italo lidera o ranking, seguido por Medina. Os dois provavelmente se classificarão sem sustos para a etapa decisiva - o novíssimo WSL Finals, que vai juntar os cinco primeiros no masculino e no feminino para a decisão do campeão mundial em um dia de disputas, na Califórnia. Entre as mulheres, quem está sobrando na turma é Carissa Moore, que venceu em Newcastle - com direito a um aéreo espetacular nas quartas de final - e disparou no ranking.

RESULTADOS DA ETAPA DE NEWCASTLE:

1 - Italo Ferreira

2 - Gabriel Medina

3 - Morgan Cibilic (AUS)

3 - Filipe Toledo

Feminino:

1 - Carissa Moore (HAV)

2 - Isabella Nichols (AUS)

3 - Keely Andrews (AUS)

3 - Carolina Marks (EUA)