Análise: Medina vence em Narrabeen e exorciza fantasmas da perna australiana no Mundial de surfe

Renato de Alexandrino
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Ao se classificar para sua quarta final seguida no circuito mundial de surfe, Gabriel Medina provavelmente só pensou em uma coisa: chega de perder. Um dos surfistas mais vencedores dos últimos tempos, o brasileiro vinha de três vices em sequência (Pipeline-2019, Pipeline-2021 e Newcastle-2021). Aqui é necessário deixar claro que, no nível de competitividade atual, é preciso ser um fenômeno para emplacar quatro decisões consecutivas. E é isso que Medina é: um fenômeno. Com talento sobrenatural e uma vontade absurda de competir e vencer, o paulista de 27 anos não deu chance alguma ao americano Conner Coffin e faturou o CT de Narrabeen, na Austrália, no início da madrugada desta terça-feira. Em poucos minutos, o bicampeão mundial tinha um 9,27 e um 9,50 ao lado do seu nome. Coube a Coffin o papel de privilegiado espectador do show.

O começo de temporada costumava ser um pesadelo para Medina. A perna australiana trazia calafrios para o surfista brasileiro, que alternava eliminações prematuras com derrotas inesperadas. Duvida? Atenção para os números, porque eles não costumam mentir: desde 2012, quando entrou no circuito, até 2019, Medina havia disputado 21 campeonatos na Austrália, com uma única e solitária final, na Gold Coast, em 2014, ano de seu primeiro título mundial. Aproveitamento de menos de 5%, digno de time rebaixado ainda no primeiro turno, com 72 rodadas de antecedência.

Nesta temporada, Medina mudou, e nem digo da água para vinho. Foi mudança de água com geosmina do Rio, com aquele cheirinho e gostinho de terra, para um bordeaux francês dos mais caros - aqueles que a gente namora na prateleira antes de se decidir pelo argentino que cabe no nosso orçamento. Com a vitória desta madrugada em Narrabeen, na antes amaldiçoada Austrália, Medina chegou a 100% de presença em finais nos três primeiros eventos do ano. Foram duas decisões na perna australiana - além da vitória sobre Coffin, ele havia sido derrotado por Italo Ferreira em Newcastle - e uma no Havaí, onde foi vice para John John Florence. Os gringos diriam que Medina está "on fire". A gente diz embalado mesmo.

E quando Medina está embalado, é melhor sair da frente. Se em Newcastle só Italo havia sido capaz de pará-lo, em Narrabeen o potiguar não chegou à final para um tira-teima (falaremos mais sobre a polêmica eliminação de Italo em breve). O local australiano Dylan Moffat, o brasileiro Caio Ibelli, o australiano-com-sobrenome-de-croata Morgan Cibilic, o português Frederico Morais e o americano Conner Coffin foram as vítimas no caminho até o alto do pódio. Deles, só mesmo Cibilic - que vem fazendo um consistente primeiro ano no tour - assustou. Medina chegou a estar contra as cordas, até achar as ondas da virada nos minutos finais.

Dentro e fora da água, Medina parece estar mais leve. Depois de mais de década contando com o padrasto Charles como técnico, o surfista paulista viajou para a Austrália sozinho. Lá, contratou o australiano Andy King, ex-técnico do tricampeão mundial Mick Fanning. O quanto a saída de Charles e a chegada de Andy podem ter ajudado na campanha na terra dos cangurus só mesmo Medina poderá atestar. Mas o surfe do bicampeão parece mais afiado do que nunca. Ele lidera o ranking com quase cinco mil pontos de vantagem para Italo, e tem mais de dez mil de frente para John John.

E Italo Ferreira? Depois da vitória em Newcastle e do que ele vinha mostrando nos treinos em Narrabeen, parecia pule de dez para vencer novamente. Mas no meio do caminho havia uma polêmica. Nas oitavas de final, diante do americano Conner Coffin, Italo acertou um aéreo rodando que lhe daria a nota suficiente para vencer. O potiguar aterrissou na base da onda e logo depois caiu, engolido pela espuma. Completou a manobra? Não completou? Os juízes acharam que não. Nas redes sociais e grupos de Whatsapp, a discussão correu solta. No Instagram de Italo, muitos ex-competidores se mostraram indignados com o julgamento, achando que a manobra deveria ter sido pontuada como completa. Quem também se indignou foi o próprio Italo, que quebrou a prancha sem dó ao chegar o vestiário.

No evento feminino, a festa quase foi verde-amarela (ok, com uma pitada de vermelho e azul...). A havaiana naturalizada brasileira Tatiana Weston-Webb surfou muito bem, fez ótima campanha e só parou diante da sensação americana Caroline Marks, de 19 anos. Na semifinal, Tati eliminou a líder do ranking, Carissa Moore, com direito a um longo tubo para a esquerda. A final foi dura e equilibrada, e ficou faltando uma segunda onda consistente para Tati voltar a vencer no circuito.

Carissa segue na ponta do ranking, Caroline assumiu a vice-liderança e Tati saltou para o terceiro lugar. Vai ser bonita a briga pelas cinco vagas na WSL Finals.

O circuito agora atravessa o outback australiano e desembarca em Margaret River, no oeste, para a quarta etapa da temporada. No cardápio: ondas grandes (se Netuno ajudar), água gelada, tubarões brancos aparecendo de vez em quando no pico. É um evento onde John John Florence costuma se dar bem, mas você é capaz de apostar nele contra Medina neste momento. Eu não.

RESULTADOS DA ETAPA DE NARRABEEN, AUSTRÁLIA

Masculino

1 - Gabriel Medina

2 - Conner Coffin (EUA)

3 - Frederico Morais (POR)

3 - Griffin Colapinto (EUA)

Feminino

1 - Caroline Marks (EUA)

2 - Tatiana Weston-Webb (BRA)

3 - Carissa Moore (HAV)

3 - Courtney Conlogue (EUA)