Análise: na derrota do Flamengo, Rogério Ceni exibe sua carta de intenções

Carlos Eduardo Mansur
·3 minuto de leitura
Alexandre Vidal / Flamengo / Agência O Globo
Alexandre Vidal / Flamengo / Agência O Globo

O futebol tem suas crueldades. Se com Domènec Torrent o Flamengo já ampliara a participação do goleiro no início da construção de jogadas, Rogério Ceni costuma dobrar a aposta. O que dava sentido à escolha pela volta de Diego Alves, explicada também pela experiência. Pois o novo velho titular suportou 55 minutos até sentir cãibras. Hugo voltou, mas foi ao limite ao tentar um drible em bola mal recuada por Léo Pereira. O lance sentenciou o jogo e o 2 a 1 para o São Paulo na abertura das quartas de final da Copa do Brasil.

Talvez o jogo seja lembrado pelo erro de Hugo. Para ele, uma lição. Para uma análise do futuro do Flamengo na temporada, um reducionismo. Houve muitas outras nuances a apreciar. Entre elas, um Flamengo que em nova troca de técnico tem novas mudanças drásticas de ideias. E claro, todas embrionárias. Só que, ao contrário do que indica o placar, foi sem a bola que se viu mais caminho de evolução.

O jogo de ontem não entrega tudo sobre o que pretende Rogério Ceni, que comandou um único treino. Em parte, o plano traçado por ele parecia responder a circunstâncias específicas da partida: pouco tempo de trabalho, falta dos meias Everton Ribeiro e Arrascaeta — este ao menos para iniciar o jogo—, e um adversário com defesa avançada e nem sempre protegida. E, diga-se, Ceni tem como marca a adaptabilidade.

Com uma linha ofensiva de quatro homens com características de atacantes, naturalmente o Flamengo não seria um time de retenção de bola. Parecia programado para o desarme seguido de estocadas rápidas, em poucos toques. E é justo dizer que o plano funcionou na primeira etapa. Com apenas 45% da posse de bola, foi para o vestiário com sete finalizações contra nenhuma do rival. Esteve mais perto de ganhar.

Ao contrário do que buscava com Torrent, foi com esticadas de bola buscando as costas da defesa paulista ou com aceleração após um desarme a meio caminho do gol que o Flamengo criou suas chances. Num passe em profundidade Gabigol achou Vitinho, obrigando Volpi a salvar. Depois, Michael lançou Gabigol, que marcou mas estava impedido. E foi num desarme que Vitinho quase deu o gol a Bruno Henrique.

Mas talvez tenha sido a soma de desfalques, treinador recém-chegado e estilo do rival que tenha moldado a forma de o Flamengo atacar. O tempo pode trazer variações e mais controle pela bola. No segundo tempo, quando precisou construir de forma mais pausada, o time teve problemas — e os tinha menos com Torrent.

Mas foi sem bola, principal problema enfrentado pelo técnico espanhol, que o time deu os maiores sinais de evolução. No início, marcando mais atrás e, aos poucos, pressionando mais no campo ofensivo. Das duas formas, o fez de maneira mais compacta, coordenada e agressiva. Jamais permitiu ao São Paulo os espaços ofertados no 4 a 1 de dez dias atrás.

Mas se foi, dentro de sua proposta, melhor no primeiro tempo, o Flamengo da segunda etapa teve mais problemas. Primeiro, no belo passe de Gabriel Sara para o gol de Brenner, no espaço entre Matheuzinho e Gustavo Henrique. O gol foi logo compensado pelo lance, de novo rápido e vertical, que originou o empate de Gabigol, mais ativo num jogo em que reencontrou Bruno Henrique como dupla.

Acontece que, em seguida, o Flamengo perdeu a capacidade de pressionar e, por 20 a 25 minutos, aceitou não ter a bola e marcar atrás. Não sofria tanto, tampouco construía. A intervenção de Rogério Ceni, a princípio, parecia cautelosa: saiu Gabigol e entrou Thiago Maia. Mas a ideia foi ter Thiago partindo do lado direito do 4-4-2 de Ceni, passando Vitinho para a esquerda e transformando em Arrascaeta num segundo atacante próximo a Bruno Henrique. O Flamengo ganhou vigor físico e voltou a recuperar bolas. E foi assim que teve algumas chances, como no chute de Arrascaeta que Volpi pegou. Em jogadas mais articuladas, com pausa, raramente ofereceu perigo.

Um Flamengo que iniciava uma transição de ideias via caminhar para o empate um jogo que poderia ter vencido. Até a infelicidade de Hugo.