Análise: num Oscar diferente do início ao fim, coadjuvantes viraram protagonistas

Sérgio Rizzo
·4 minuto de leitura

Do início ao fim, tudo foi diferente nesta versão do Oscar. Começando pelo fim: numa mudança no roteiro habitual da maior festa do cinema nos EUA, desta vez a premiação encerrou com a categoria de melhor ator, e não com a de melhor filme, como acontecia antes. Como o vencedor Anthony Hopkins, o astro britânico de "Meu pai", não quis participar do link ao vivo de Londres, montado no British Film Institute, a noite da 93ª edição encerrou sem o discurso de um vencedor. Tivesse sido mantida a ordem, o desfecho da noite em Los Angeles caberia justamente às duas principais vencedoras do ano, Chloé Zhao e Frances McDormand, produtoras de "Nomadland", filme-síntese do que a temporada de 2020 representou para o cinema americano.

O feito de McDormand foi notável: entrou na Union Station, onde foi realizada a entrega, com duas estatuetas (de melhor atriz por "Fargo" e "Três anúncios para um crime") e saiu com quatro, tornando-se a primeira mulher a receber prêmios da Academia como atriz e produtora pelo mesmo filme. O triunfo da figura "outsider" de Zhao, no entanto, traduz melhor a temporada. É uma diretora de filmes de baixo orçamento, trabalhando à margem dos grandes estúdios, com um estilo semidocumental. Em cinco anos, dirigiu três filmes intimistas sobre protagonistas de vidas comuns no coração da América profunda (os anteriores são "Songs my brothers taught me" e "Domando o destino").

Não por acaso, "Nomadland" e outros premiados da noite -- "Minari", "Bela vingança", "O som do silêncio" e "Judas e o Messias negro" -- fizeram o Oscar deste ano parecer os Independent Spirit Awards, prêmio mais importante do cinema não-industrial americano. O quinteto somou nove estatuetas (em 17 possíveis).

Com as dificuldades enfrentadas por Hollywood e o adiamento de filmes mais caros e prestigiosos para 2021, coube a esse pequeno exército cinematográfico de Brancaleone ocupar um espaço que, em outros anos, provavelmente teria sido bem menos generoso. Talvez fossem meros coadjuvantes. Neste ano, conseguiram ser protagonistas.

O diretor Steven Soderbergh, um dos produtores desta festa, realizada em meio a todos os desafios impostos pela pandemia, começou também nesse cinema das bordas, com "Sexo, mentiras e videotape" (1989), e nunca deixou de surfar nessa praia, mesmo depois da inserção na indústria. É especialmente simbólico que ele tenha cuidado da cerimônia atípica em que o Oscar fantasiou-se de prêmio dos independentes, e tenha imprimido a ela um estilo de transmissão mais leve.

De todo modo, a identidade da Academia -- para o bem e para o mal -- foi mantida. Apesar do reduzido número de apresentadores em comparação com anos anteriores, um evento com a presença de Harrison Ford, Angela Bassett, Brad Pitt, Viola Davis e Reese Whiterspoon sempre terá algo de hollywoodiano.

Para quem temia que ficasse parecida com uma sessão de Zoom ou com uma live do Instagram, a entrega do Oscar até que não saiu mal na foto. Entre as principais premiações do show business na temporada da pandemia, foi a mais ágil e... cinematográfica. Aprendeu com a limitação das outras e fugiu da armadilha da teleconferência.

Visualmente estimulante, o cartão de visitas da transmissão esteve à altura do que notabilizou Soderbergh: um longo plano-sequência da atriz e diretora Regina King entrando na Union Station para abrir os trabalhos, gloriosa, com um Oscar na mão.

O mesmo recurso técnico foi usado quando o ator Bryan Cranston apresentou -- em outra locação, o vazio Dolby Theatre, onde a cerimônia ocorre normalmente -- um dos prêmios humanitários da noite, entregue à organização beneficente Motion Picture & Television Fund.

Enquadramentos diferentes do habitual, elaborados movimentos de câmera e até a textura da imagem denunciaram o cuidado em dar à festa da Academia de Hollywood um toque de sofisticação estética que a diferenciasse da "concorrência" -- o Globo de Ouro sendo a comparação inevitável.

A estratégia foi bem-sucedida, especialmente porque os rigorosos protocolos sanitários possibilitaram a realização de um evento presencial. Havia pessoas de carne, osso e sem máscara na Union Station, distribuídas por mesas bem próximas do palco, com o DJ Questlove substituindo (para melhor) a habitual orquestra.

A imensa maioria dos vencedores estava lá para receber a estatueta, o que também ajudou. Um dos poucos a falar remotamente foi o diretor francês Florian Zeller, que recebeu em Paris o prêmio de roteiro adaptado por "Meu pai". Mas a conexão era ótima, ele estava ao ar livre e sua mulher fez uma ponta graciosa ao invadir o quadro. Merci beaucoup ao casal.

O diretor Bong Joon Ho, o vencedor de 2020 com "Parasita", teve a principal participação no exterior, falando de um cinema de Seul. Em coreano, apresentou os candidatos ao prêmio de melhor direção e, para quem eventualmente tivesse dúvidas, mostrou para a câmera o envelope com o nome da vencedora, Chloé Zhao.

Mal imaginava ele que a última categoria a ser anunciada -- a de melhor ator, na tal alteração do roteiro costumeiro -- se encarregaria de demonstrar a lisura e o sigilo do processo de votação. Com tudo aparentemente pronto para a homenagem póstuma ao "Pantera Negra" Chadwick Boseman (por "A voz suprema do blues"), quem ganhou o Oscar foi Anthony Hopkins.