Análise: o que a saída de Benítez revela sobre o Vasco atual e o que virá com Jorge Salgado

Bruno Marinho
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Doug Patrício / Agência O Globo

No fim das contas, Martín Benítez não esteve sequer perto de permanecer no Vasco. O argentino, que teve o retorno para o Independiente confirmado na quinta-feira pelo clube carioca, voltará para a Argentina tendo sido pauta dos três principais atores políticos vascaínos nos últimos meses.

Um tem a caneta. Alexandre Campello, presidente do Vasco, acertou bases financeiras que dificilmente conseguiria cumprir. O combinado era uma entrada de R$ 15 milhões em dezembro e os outros R$ 5 milhões no fim de 2021.

A não ser que surgisse uma fonte de receita extraordinária em um momento de investimentos cautelosos pelo mundo por causa da pandemia, é custoso pensar que o Cruz-maltino conseguiria levantar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Os salários estão atrasados há dois meses, folha que equivale a menos da metade do valor da entrada que os argentinos queriam. Alexandre Campello foi até Portugal na tentativa de antecipar receitas referentes à venda de Nathan ao Boavista. Não teve êxito.

O outro não tem a caneta. Luiz Roberto Leven Siano, candidato à presidência, conversou com representantes de Benítez, negociou diretamente com o jogador e acertou verbalmente a permanência do argentino, caso fosse eleito. Com a decisão judicial do dia 17, não foi e nunca será possível saber se o clube teria condição de cumprir com o acordo.

O terceiro, tudo indica, terá a caneta. Presidente eleito, Jorge Salgado sequer cogitou tentar cumprir com o combinado por Campello com o Independiente. Zero surpresa quanto a isso. O empresário é conhecedor da situação financeira do Cruz-maltino, uma vez que é um dos credores da atual diretoria e seu corpo financeiro esteve, até o fim do ano passado, dentro da gestão Campelllo.

Perfil de cautela

A postura de Jorge Salgado no caso deixa evidente o que esperar em termos financeiros pelo menos em 2021: muita cautela. A prioridade será tentar deixar as contas do clube sob controle, sem se levar pela sedução de investimentos financeiros acima do viável, mesmo com a promessa de retorno técnico em campo.

A cautela do grupo de Salgado deu as caras na contratação de Cano, bancada mais por Campello do que pelos responsáveis pela gestão financeira do clube na ocasião. O desempenho do centroavante mostra que o ortopedista tinha razão.

Mas se tratam de investimentos de perfis bem diferentes. Cano foi contratado com salário acima da média do elenco e o pagamento de luvas em um cenário pré-pandemia, com possibilidades muito maiores de receitas. Seu histórico técnico e físico na Colômbia mostravam que era um tiro com pouca chance de erro.

Já Benítez seria um dinheiro gasto cheio de ressalvas. Ninguém sabe direito quando os clubes poderão voltar a ter torcida nos estádios e a receita proveniente disso. Se depender do andamento do plano de vacinação para a Covid-19 no Brasil, talvez demore mais aqui do que no resto do mundo.

Além disso, outra questão óbvia: o Vasco não tem certeza sequer de qual divisão disputará em 2021. A redução de receita em caso de queda tornaria os pagamentos praticamente inviáveis.

Para completar, tem o retorno técnico. Benítez foi o segundo melhor jogador do Vasco em 2020, mas ainda assim não conseguiu manter o Vasco fora da zona de rebaixamento. Jogou menos do que poderia (26 partidas), por lesões e Covid-19, e acabou participando diretamente de poucos gols (fez dois e deu passe para outros dois). O Vasco é melhor com ele, mas não é tão pior sem o argentino. Se o time de São Januário for rebaixado, não será por causa da saída do camisa 10.