Análise de opinião pública nas redes sociais mostra que debates sobre milícia e tráfico de drogas explodiram no Brasil a partir de 2018

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RIO — Uma pesquisa realizada pela FGV Dapp sobre como o debate público nas redes sociais reverbera temas como tráfico de drogas e milícias apontou uma mudança de perspectiva em relação ao crime organizado no país entre 2014 e 2019. As menções à milícia no Facebook, que não ultrapassaram três mil publicações anuais até 2018, atingiu cerca de 17 mil posts e 3,5 milhões de interações após a morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL). O levantamento foi divulgado no livro Segurança Pública após 1988: História de uma construção inacabada, publicado em setembro pela Editora FGV.

Entre 2014 e 2018, postagens com maior engajamento utilizavam o termo “milícia” para se referir a ações de movimentos sociais, como o dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os principais atores eram perfis conservadores, que criticavam o ativismo do grupo. Já a partir de março de 2018, o assassinato de Marielle, e suas implicações políticas, fomentou o debate entre progressistas, que apontavam a milícia como principal suspeita do crime.

No Instagram, o debate público seguiu a mesma linha do Facebook. De 2014 a 2018 foi registrada uma média de 100 posts anuais sobre milícias, número que cresceu cinco vezes em 2019, com o caso Marielle Franco e a interceptação pela Polícia Civil de um plano de milicianos para matar o então deputado federal Marcelo Freixo. Após as eleições presidenciais, o surgimento de páginas ligadas à esquerda também incrementaram contextos relacionados à atuação ilegal de policiais e políticos. Nesse período, o engajamento passou da marca de 1,8 milhão.

A análise mais recente é a do Twitter, feita de outubro a dezembro do ano passado. Na rede, o debate sobre milícias pautou cerca de 406,2 mil postagens e concentrou dois tipos de notícias: o envolvimento de políticos brasileiros com os grupos criminosos e a atuação de “milícias digitais”, responsáveis por espalhar fake news. Em todos os levantamentos, os estados com maior interação foram São Paulo e Rio de Janeiro.

Histórico político do Rio e posicionamento de Bolsonaro influenciam ascensão da milícia

Segundo o pesquisador Renato Sérgio de Lima, um dos autores do livro e presidente do Fórum de Segurança Pública, as menções à milícia nas redes explodiram influenciadas pelos acontecimentos do estado do Rio, que usa o termo para caracterizar ações de domínio territorial, encomenda de assassinatos e controle da mercadoria por agentes ligados à polícia.

— A evolução do conceito de milícia não tem muita aderência em outros estados, além do Rio e Pará. Isso acontece porque, especialmente o Rio de Janeiro, tem um processo histórico marcado pela dificuldade em prover segurança. Por questões político-ideológicas, o processo de construção das milícias passaram a explorar a economia, ao fazer cobranças de gás e TV a cabo, por exemplo, e os próprios políticos incentivaram a atuação da polícia, principalmente ao pautar a banalização do extermínio — explica.

Ainda segundo o pesquisador, o presidente Jair Bolsonaro foi o único presidente após a Constituição de 1988 que prometeu governar mais próximo aos policiais, fomentando, inclusive, a militarização da população. Por esse motivo, Renato Sérgio acredita que, desde a candidatura de Bolsonaro e sua eleição em 2018, o termo “milícia” passou a ganhar força.

— O Bolsonaro incentiva o controle violento do território, incentivou a milícia nos seus discursos na Câmara e tem um debate opressor em torno do assassinato da Marielle, que teve participação das milícias. Por isso, ele passou a ser visto como um porta-voz que permite a violência policial e banalizou os atos ilícitos ao defender o ditado de que “bandido bom é bandido morto”, sem promover políticas públicas que fiscalizem o excesso de poder policial — aponta.

Debate sobre tráfico de drogas nas redes

O debate sobre tráfico de drogas ocorrido entre 2014 e 2019 obteve mais de 1,2 milhão de menções no Facebook e 66.891 no Instagram. Há três anos, o tema tinha repercussões pontuais no Facebook, geradas por episódios isolados compartilhados por perfis e páginas ligados a posicionamentos conservadores. A ação de traficantes ganhou espaço na rede em 2019, depois de três ações do governo federal relacionadas ao combate a esse tipo de crime. A primeira sobre uma medida provisória que simplificava a venda e a utilização de bens apreendidos do tráfico; a segunda pela apreensão de 3,5 toneladas de maconha na Bahia; e, por fim, pela compra de uma viatura Dodge Challenger pela Polícia Rodoviária Federal — que rendeu cerca de 6 milhões de interações.

A opinião pública no Instagram sobre o assunto também começou a crescer nos últimos dois anos. Em 2019, atingiu o pico de 3.500 publicações, com mais de 6 milhões de interações de internautas. Contudo, a pesquisa concluiu que a rede se tornou um espaço para “prestação de contas” sobre o tráfico de drogas, após sites de notícias e perfis institucionais, como de batalhões da Polícia Militar e delegacias, passarem a divulgar informações em seus perfis.

Em ambas as redes sociais, o maior engajamento ficou entre as publicações de moradores do Rio e São Paulo. No entanto, os paulistas somaram maior quantidade de menções ao debate sobre tráfico, visto que possui uma população quase três vezes maior que a fluminense e devido a problemas de segurança pública na chamada Cracolândia — local dominado por facções para venda de entorpecentes.

Entre outubro e novembro de 2020, o debate mobilizado no Twitter se deu principalmente com tuítes sobre apreensão de drogas e prisão de criminosos em diferentes regiões do país. Postagens também comentaram sobre a incapacidade dos poderes Legislativo e Judiciário brasileiro no combate ao tráfico.

Para Renato Sérgio, a conclusão da análise das redes sociais, que aponta um crescimento no debate sobre milícias e tráfico de drogas, serve para mostrar às autoridades que a população brasileira tem cada vez mais interesse em discutir medidas de segurança pública.

— As redes sociais são lugares importantes de debates e construção de pensamentos. No entanto, para criar políticas de segurança é preciso observar o que acontece fora das redes também. Investir em urbanização de comunidades, saneamento básico, e fiscalização policial, especialmente. Mas, neste caso, temos o desafio constitucional que ainda não pensou mecanismos de inibição da violência que não sejam baseadas em prender e matar indivíduos — conclui o pesquisador.

Sobre o livro

O livro “Segurança Pública após 1988: História de uma construção inacabada”, apresenta as ações governamentais implementadas desde a constituição para a redução da violência no Brasil. Com embasamento teórico e estatísticos, ele também pretende explicar a formação e a consolidação de organizações criminosas no país e de como o assunto repercute nas redes sociais. Nele há ainda entrevistas com atores políticos e estudiosos do assunto, como Nelson Jobim, Gilmar Mendes, Tarso Genro e Raul Jungmann.

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